Fonte: Dicionário Bibliográfico da Literatura Italiana Traduzida no Brasil

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Anchieta ou o Evangelho nas selvas, de Fagundes Varela


Edição de referência:

FAGUNDES VARELA. L. N. Anchieta ou o Evangelho nas selvas, de Fagundes Varela.

Rio de Janeiro: Livraria Imperial de E. G. Possolo, Editor, 1875.

 

ÍNDICE

Ao público

L. N. Fagundes Varela

Notícia biográfica

Canto I

Canto II

Canto III

Canto IV

Canto V

Canto VI

Canto VII

Canto VIII

Canto IX

Canto X - Epílogo

 

AO PÚBLICO

Apreciando devidamente a honra de ser o primeiro editor deste poema, devo ao público, e especialmente aos admiradores do malsinado poeta, que tanto nos prometia ainda, e talvez o melhor do seu gênio fecundo, algumas palavras justificativas da demora na publicação destes suavíssimos versos. Desde meados de abril estava ter minada a impressão do último canto, e apesar de meus constantes esforços, só agora pude alcançar a realização do meu desejo, entregando à natural ansiedade do público a preconizada e bela produção do moço infeliz e ilustre, cujo nome despertou sempre nos salões e academias o mais entusiástico apreço.

Encetei a impressão ainda em vida sua, mas infelizmente a morte colheu-o antes dele fazer algumas pequenas modificações que eu lhe impusera, na intimidade das relações que nos uniam e datavam dos bons anos passados na faculdade de S. Paulo. Assim, notará o leitor alguns insignificantes senões, que eu poderia ter feito desaparecer autorizado e de acordo com o poeta; entendi, porém, nada dever profanar no glorioso espólio, que se tornara então ura sagrado deposito em minhas mãos.

Só cuidei em apressar o trabalho, e nesse afã escaparam-me ligeiras faltas de composição, fáceis de notar, e que, espero, me serão igualmente desculpadas, por quem, mormente, souber o que vale tarefa como esta.

Em sincero e carinhoso culto à memória do poeta, pretendi eu próprio escrever algumas páginas sobre a sua curta e brilhante vida literária.

Como, porém, me fosse com instância solicitada, por pessoa a quem não poderia negar, a junção a este livro da notícia biográfica traduzida do Anglo-Brazilian Times, resolvi, para completá-la, reunir também aqui os belíssimos escritos do talentoso Sr. Dr. José Ferreira de Menezes, distinto folhetinista do Jornal do Comércio, em relação ao ilustre poeta, seu amigo de infância e contemporâneo de estudos, folgando eu de ter estimada oportunidade de ver a mão do fiel amigo, como que burilando, na lápide tumular do desditoso bardo, o imorredouro e sublime epitáfio, acentuado pela mão também amiga, generosa, benfazeja e vitoriada, do exímio mestre e preclaro estadista F. OCTAVIANO.

Corte. Agosto de 1875.

O Editor

 

L. N. FAGUNDES VARELA

Mal de ti, pátria! Como se não fossem já em demasia os que te tem deixado, sem tudo haverem feito, mais um acaba do expirar no teu regaço!

Mal de ti, mãe!

Quando vieram dizer-me que ele afinal partira, fez-se um silêncio repentino em meu cérebro, e como na sala de onde retirara todo os móveis para exporem no centro o corpo inanimado do que desatou-se da vida, retraíram-se todas as minhas ideias e ficou ali, no entristecido espaço, a imagem do cadáver do gênio que adorei e que deixou seu nome escrito nas páginas, as únicas felizes!... da minha vida!

Via aqueles olhos que varavam o infinito fechados para sempre; mudos aqueles lábios que Deus fadara para cantar as suas maravilhas, e eu permanecia absorto, inerte, surpreso e espantado, como quem visse a seus pés caído um mundo.

Pouco a pouco, como sombras que se levantam no horizonte, vieram surgindo todas as fases do nosso viver comum, desde a juventude até os primeiros e já terríveis açoites da desventura.

Só então comecei a apalpar aquela morte, sentir aquele gelo, tocar as cinzas do vulcão extinto e ver que não era ele só quem ali estava morto, pois era também a minha mocidade, com todas as suas ilusões, com todos os seus sonhos e loucuras!

E agora que tomo da pena e escrevo dele como de quem já não é dos vivos, nem pode ouvir-me, nem ler-me, nem animar-me e aconselhar-me como tantas vezes o fez, tombam-me dos olhos as lágrimas de saudade da nossa vida que se foi e que nunca mais voltará...

 *

* *

Eu não sou dos que choram a morte dos poetas: sei que é o seu primeiro dia de felicidade aquele em que Deus os chama, arre- batando-os do mundo aonde só desceram para sofrer. Invejo-os até quando vejo que afinal descansam e não lhes bate mais o coração. A vida social tem as suas estreitezas que não lhes servem a eles, a que não podem sujeitar- se, e por isso é que os leões e as águias não se podem nunca domesticar.

Deixam-se prender e no dia em que morrem é o seu último arranco um hino à liberdade.

Também não sou dos que criminam a sociedade: ela tem a sua razão de ser e acho até muito glorioso que vivam no padecimento os poetas, porque, a assim não ser, nem a sociedade caminharia para os seus destinos positivistas, nem haveria glória em ser poeta, qualquer alveitar julgando-se no direito de hombrear com Lamartine.

Não; assim como Cristo teceu a sua epopeia de suspiros, banhando-a de lágrimas e sangue, e sangue de seu coração, assim também todos esses Cristos do sentimento devem ter de espinhos o caminho que percorrem na terra. Em nome de todos, agradeço eu a Deus aqui esta distinção, a única que constitui o que eu chamaria a fidalguia d'alma, se tal palavra pudesse merecer tamanha honra.

Sim, varam-se os olhos aos rouxinóis para que doidamente cantem: assim também fere o destino de setas o coração do poeta para que melhor e mais sentido encante o mundo.

O sofrimento foi sempre a suprema inspiração. Mesmo Deus é maior, visto por entre as lágrimas, as estrelas são mais fúlgidas e mais iriados os sonhos.

Toda produção determinou o Criador fosse dada entre soluços, em agonias ou à custa d’espedaçamentos.

A mulher, imagem completa da creação, dá entre lágrimas, à beira da sepultura, o fruto abençoado, a nova vida; há nos nossos sertões mais de uma família de palmeiras que fenecem quando frutificam.

Porque, pois, havia de o poeta, que desfaz-se em ideias, que acrescenta novas belezas às da criação, de viver nos risos e da vida conhecer tão só a fátua e passageira espuma da alegria? Não, o pelicano para o sustento dos filhos abre o seio, estanca-lhes a sede com o seu sangue e nutre-os com os pedaços do seu coração.

Fá-lo a gritar e a morrer, mas é esse grito a sua glória, o seu orgulho, o seu hino à Divindade, o seu amor sublime pelos filhos.

Os poetas são os pelicanos, os poetas e o pensadores; e como o mundo não se nutre tão-somente da matéria e consome todos os dias ideias e sentimentos, vêm os pelicanos e abrem o seio, dão o coração, o sangue, a alma e morrem entre gritos, grandes e sublimes como Aquele que do alto do Calvário também deixou abrir o peito para nutrir de amor a humanidade e lavar-lhe as manchas com o seu sangue divino.

 *

* *

Não, não sou dos que choram os poetas. A sua glória começa no dia em que descansam, no dia em que deixam de ter invejosos. A sua tumba, por mais humilde e rasa, começa a ser seu pedestal, que vai crescendo de dia para dia, e as gerações que surgem vão ali tributar-lhes flores e homenagens.

Depois, não morrem nunca; no instante em que emudecem, começam então a viver, e a consolar os que padecem.

 *

* *

Tal será o destino de Varela. Há muito que para parecer grande precisava tão somente da púrpura mortuária.

Do mundo, afora o amor sem termos de pai e mãe, não conheceu senão as amarguras e muitas vezes os insultos, os motejos e as injúrias.

Mesmo agora sobre a sepultura lembraram-se jornalistas de, a pretexto de lágrimas, invectivar ainda ao cadáver o que apelidaram a dissipação do vivo!

Mas a morte santifica o passado! dissera ele de antemão no prólogo às poesias de O. Hudson.

Chamaram também, no mesmo dia em que o poeta desprendia o voo, de desordenadas as suas composições, apesar de sempre grandiosas.

Pelo menos é dificil de compreender, a não querer dizer a crítica que tudo que ele pro duziu é monstruoso!

Mas nesse caso, que significam vossas lágrimas? O que perdeu esta nação com a morte de autor de monstruosidades?

Anda um côvado literárío por esta terra, que afinal de contas há de pôr tudo no tamanho de pigmeus.

Por mim ando já a prever o dia em que hão de declarar excessivo o Amazonas, desordenada a palmeira, monstruoso o cedro. Visto de baixo é tudo assim, louvado seja Deus!

Deixou-lhes, porém, resposta o poeta nestas alegres quadras:

“A ideia não tem marcos nem barreiras,

E o pensamento, irmão da liberdade,

Quando as asas sacode abate e quebra

Mais de uma autoridade!”

“Lançai vossos preceitos e tratados

Às chamas vivas de voraz incêndio...

Alma que sente, que se inspira e canta,

Não conhece compêndio!”

 *

* *

Grandioso de cérebro como Azevedo, como Castro Alves, como Junqueira, quase que não pôde ser comparado a nenhum deles pela singularidade da sua vida. Foi poeta e nada mais, e nada mais poderia ser.

Azevedo era um homem de letras, além de poeta, e os sonhos políticos atravessaram-lhe o espírito. Vivendo poderia chegar a ser um chefe de escola literária, um doutrinário pela historia e escreveria talvez a epopeia dos girondinos brasileiros, e, como Lamartine, iria aos comícios populares explicar n'um verbo de fogo as tábuas da lei.

Castro Alves tinha vertigens no cérebro, e um dia, talvez do alto da montanha, como um profeta, como um tribuno, atiraria a sua palavra para que os vulcões se abrissem ou o povo atravessasse o Mar Vermelho.

Junqueira, ao morrer, mostrava-se já reconciliado com a vida.

Varela, não; era só poeta. Não via senão Deus e a Natureza.

Não houve nunca maior desprezador das glórias que os homens dão: cantava como as aves, sem segundo pensar e sem vaidade. Nada invejava, nada pedia. Como homem era impossível para a sociedade. O seu amor, a sua crença, a sua religião era um panteísmo luminoso, atravessado pela ideia de Deus. Sonhava mergulhar de novo na natureza, para surgir... aonde? Longe, na plena luz. Não se considerava mais do que uma onda que tinha de enovelar-se, perder-se e afundar-se no mar da criação: uma nota desprendida do eterno concerto e que se perderia no espaço; um átomo, luminoso sim! que um dia iria ajuntar-se ao grande todo!

N'uma atrevida apostrofe à morte, ele o dizia:

“Tu não me curvarás sem resistência

Divindade cruel!

Tu não me abaterás impunemente

A cabeça revel!

“Podes chegar, não temo-te: — aos escravos

Voto extremo desdém!

Eis a matéria.., — queres que te adore?

Vê se passas além!”

“Mísera! A essência eterna, imaculada

Insulta-te o poder!

Realeza de cinza e de poeira!

Triste escarneo do ser!

“Do cadáver à face apenas gravas

Teu gélido sinal,

E já de novo o anima em formas novas

A vida universal!”

 *

* *

Varela foi o poeta da simplicidade e da singeleza.

Como tal não encontra êmulo na língua pátria. A rima vinha sem esforço, sem especular sem o efeito.

A melancolia era a sua musa; a morte, a imagem contínua dos seus cantos. Não se apavorava dela; ao contrário, chamava-a nestes gritos que, quem o conhecia, sabia perfeitamente desprendidos d'alma:

“Quero morrer! Este mundo

Com seu sarcasmo profundo

Manchou-rne de lodo e fel!

Minha esperança esvaiu-se,

Meu talento consumiu-se

Dos martírios ao tropel!

.....................................................

“Vem oh! morte! A turba imunda

Em sua ilusão profunda

Te odeia, te calunia;

Pobre noiva tao formosa,

Que nos espera amorosa

No termo da romaria!

“Virgens, anjos e crianças,

Coroadas de esperanças,

Dobram a fronte a teus pés!

Os vivos vão repousando!

E tu me deixas chorando!

Quando virá minha vez?”

 *

* *

Veio afinal! Em outros versos pedira que o levasse de um golpe certeiro. Assim o fez. Morreu encostando a cabeça gloriosa no seio materno, junto de seu pai, rodeado de sua esposa e de seus filhos!

Foi o único momento feliz de sua vida.

Deixa-lhes o nome de um poeta tão inspirado como os que mais o foram no mundo, mas também o nome do mais infeliz, talvez, de todos eles.

Acreditava na liberdade e em Deus:

“ Eu creio em ti, eu sofro, e o sofrimento

Como ligeira nuvem se esvaeçe

Quando repito teu sagrado nome!

Eu creio em ti, e vejo além dos mundos

Minha essência imortal brilhante e livre,

Longe dos erros, perto da verdade,

Branca dessa brancura imaculada

Que os gênios inspirados, nesta vida

Em vão tentaram descobrir nos mármores...”

 *

* *

Lá está a esta hora e para sempre, longe dos erros, perto da verdade.

Descansa, pobre crieança que foste e a quem Deus mandou ao mundo na mais sublime das missões.

Começaste a ser uma tradição...

Se nesta terra houvesse uma mocidade dir- lhe-ia que ao seu representante mais genuíno erguesse um túmulo de mármore branco como a tua alma, e junto da plaga, para que a vissem bem de longe as geraçòes e os povos como aconselhava Homero... mas dorme quieto pela primeira vez.

Tua glória é certa.

Foste um dos primeiros homens do teu país.

Eu não te lastimo, não. Invejo-te.

FERREIRA DE MENEZES.

_____

A propósito do infeliz poeta e do folhetim que a seu respeito escrevi, recebi de um homem de letras dos mais qualificados nesta terra uma carta da qual peço licença para transcrever alguns tópicos aos quais procurarei responder.

A carta teve por fim justificar certas notícias, no meu entender cruéis para a memória do poeta, e que eu verberei como amigo que fui dele e que continuarei a ser.

Dou os trechos:

“...................... digo-te que a reflexão fez com que eu achasse justos a esses jornalistas, e ao teu ânimo de provada têmpera pergunto: Que palavras reservará a imprensa para o poeta do lar e da família, para o gênio fúlgido e calmo, que, depois de duros sacrifícios, legar à pátria um nome glorioso e uma vida cheia de abnegação e frutos abençoados?

“O que dirias no dia em que se apagasse o grande espírito que no meio de nós vive a trabalhar pela família e pela pátria, ferido com os mais rudes golpes no santuário de uma e de outra, e sempre com aquele iluminado semblante acariciado pelo sorriso, qual reflexo daquela alma imensa, aberta a todos afetos sãos; à ideia mãe — a democracia, aos sentimentos cândidos e aos sentimentos grandes, poeta da prosa e do metro, orador e jornalista como só ele, filólogo e sábio como ambos nós o conhecemos, e que na agudeza do pensamento devassa o fundo do abismo para pairar sobre ele como águia, e em quem se alia a face de Mefistófeles, que Gutierres lhe descobriu, e a face de anjo sonhador que ambos lhe temos visto? O que dirias se se finasse o Otaviano? O que dirias se se finasse o imaculado José Bonifácio, coração e cabeça de arcanjo? O mesmo, as mesmas palavras que dirigiu o teu coração sensível ao desditoso Varela?”

Respondo perguntando: porque não lembra a imprensa a certos vultos qae descem à campa os crimes, as falsidades, as traições que cometeram em vida?

Foi perdulário do seu gênio e da sua vida aquele a quem chamais desditoso? Foi desordenado?

E no entanto teve tempo de deixar quatro volumes impressos: o manuscrito de um poema e mais um drama inédito! E teve tempo de ilustrar o nome de sua família e de aumentar a riqueza literária do seu país e da sua língua!

Se houvesse ganho e deixado um milhão de contos de réis, teria deixado mais?

A quem ele ofendeu? A quem atraiçoou? Que mal fez a sua pátria? Que família desgraçou?

É responsável a cigarra de cantar até partir-se-lhe o peito? Quem a censurará por isto, encontrando-a morta? A formiga. Terá razão; ela, porém, teve culpa, a douda? A Cristo também invectivava Pilatos a sua dedicação pela humanidade. Ele, querendo, poderia ter sido governador de alguma província da Judéa. Mas era ele, apesar de Deus, senhor de não morrer aos trinta e três anos em uma cruz infamante?

Não há tísicos de nascença?

Todo o cadáver é sagrado, mesmo o dos poetas.

Negai-lhe lágrimas: mas não lhe descubrais as chagas a que sucumbiu,

A cova é mais piedosa, consome-o mas não o profana. Sede como a cova, escondei.

____

Viu o leitor a espécie de contenda que tive com alguns colegas meus do jornalismo diário a propósito de Varela. Esta contenda tinha um grande motivo de tristeza para mim — a de ser travada junto de um cadáver, à beira de uma sepultura: e aquele de quem se partira o espírito tinha, mais do que ninguém talvez no mundo, direito ao silêncio, pois ninguém precisou de mais descanso do que ele, quando caiu.

Se errara, pagara-o com a vida, estava-o ali pagando.

Um amigo, porque não direi seu nome? Salvador de Mendonça, acudira à luta, chamando-me de injusto para aqueles que eu, no seu entender, aggredira por causa do morto.

Era uma má apreciação, porque não agredira eu a pessoa alguma, e sim apenas defendera aquele que fora o amigo da minha infância e da infância da minha inteligência, e um dos trcês engenhos que mais tenho admirado no meu país.

0 autor de Marabá, que apenas vinha em defesa de terceiro, apelou para a minha consciência, jogando dois nomes ilustres, e jogando-os envolvidos numa hipótese de morte. Era manietar-me, era atirar-me areia aos olhos, ou mergulhando-me n'água e prendendo-me o pescoço, desafiar-me: fala!

Pude apenas livrar-me da mão do possante adversário e não aceitar a luta no terreno e nas condições em que a colocava. O nosso duelo era junto do cadáver do poeta: ali queria-o, ante a face angustiada do morto; sabia que ao fitá-la havia de o perturbarem as lágrimas e havia de ele curvar os joelhos, pois quem ali estava sofrera todos os tormentos deste mundo; chegara a atravessar as lamas, mas conservara sempre erguida a inteligência, não a maculara de infâmia alguma, não a vendera, nem o estro caucionara jamais em nenhum balcão social.

A luta havia de travar-se ali: era meu empenho e cumpri-lo-ia; mais eis que um daqueles nomes que o digno jornalista atirara-me como metralha d'ouro, surge também na liça e posta-se do meu lado!

Tanto pode a verdade! tanto podes, coração! Ah! se não fosses tu, o invencível neste mundo, o que valera viver!

Pensai com o coração, acertareis mais vezes!

Dou a página que recebi, pois que a mim não pertence: faz parte dos bens do poeta, e é uma voz no futuro, uma grande voz em sua defesa.

Eil-a.

“Meu caro amigo.

“Os problemis da vida e da morte nunca Honos preocupam tanto, como quando nos encontramos no cemitério, à hora melancólica do desmaio da luz, à beira da cova onde, para sempre, de nossos olhos se vai sumir um moço de grande talento, filho extremoso e estremecidamente amado por seus pais, poeta profundamente cristão, cantor inspirado das maravilhas da natureza, a quem nada faltou para ser feliz, e que, no emtanto, por escárnio do destino, morre porque nao quis viver!

“Duas vezes o vi. Só uma vez lhe falei. Se eu pudesse contar o que se passou entre nós nessa conversação!

“Comecei severo, frio e apenas polido; e dentro de poucos minutos já eu estava dominado por simpatia irresistível e profunda comíseração! O censor se convertera em amigo. Separamo-nos tristes, ele da sua tristeza invencível, eu de não a ter podido vencer!

“O demônio do pensamento inspirado pelos maiores poetas de nosso século criou essa enfermidade moral que a todos nós, mais ou menos, nos deu na mocidade horas bem tristes! Todos nós fomos Manfredo, Werther ou Fausto.

“Mas não quero antecipar o trabalho do historiador da literatura do nosso tempo. Quero somente pedir aos juízes severos da hora presente que se lembrem que os antigos conjuravarn a má fortuna por sacrifícios.

“E em verdade: quando se vê a mesma onda que afoga a um nauta, dar a outro o seu dorso para levá-lo à praia são e salvo; quando se reconhece, pela paciente investigação de Quetelet, que há uma média constante e invariável de desgraças e de crimes, e que a humanidade parece não poder evitá-la; insensivelmentn somos levados a pensar na boa e má estrela, nas circunstâncias que inclinam a nossa existência para a desgraça ou para a ventura!

“Não me criminem de querer, por complacência a um poeta, que me fez derramar lágrimas, apelar para a fatalidade.

“Não é esse o meu intento.

“Digo somente que a alma a mais lúcida tem tido noites de trevas e o coração mais valente horas de desfalecimento.

“Quem disser que nunca vacilou, esse nunca andou senão em planície bem alisada. Quando, pois, nesses momentos da dúvida, a morte não dá tempo a que nos recobremos, fomos seguramente menos felizes do que os nossos companheiros de jornada que chegaram à serenidade.

“E muitas vezes a diferença entre uns e outros não passou disto — maior espaço de vida que pôde ser aproveitado.

“Por exemplo, Marlowe e Shakspeare. Marlowe, poeta de inspiração ardente, inicia o drama inglês, engenha o primeiro Fausto conhecido, mas antes dos 30 anos morre apunhalado em uma taverna, sem ter podido vencer a miséria, e é considerado ateu porque traduzira Ovidio. Shakspeare aproveita a senda aberta, pode viver mais tempo, conquistar proteções, observar melhor o mundo. Morre sem ter sofrido privações, e por sua morte a Inglaterra verte o melhor pranto.

“Mas voltando ao nosso poeta, que tem o mundo que murmurar, se ele lhe deu tudo e nada lhe pediu?

“Deu-lhe os seus cantos e a sua vida, e não lhe pediu nem amor, nem tesouros, nem grandezas.

“As circunstancias têm grande influência sobre o nosso destino terrestre. O amigo que escreveu aquele obsequioso trecho a meu respeito, publicado na penúltima Semana, sabe acaso o que me arrancou à melancolia malsã do meu tempo de estudante?

“O estímulo de um dever moral, a necessidade de trabalhar para que tivesse repouso, a santa mão que por cinco longos anos me amparara com o seu trabalho.

“Sem esse estímulo da pobreza e do dever, quem sabe se eu teria merecido o bom conceito que o meu amigo exagerou?

“E também cumpre atender a que há organisações doentias, caracteres naturalmente tristes, como Giacomo Leopardi, um dos maiores poetas da Itália moderna, que sacrificou à musa do desespero as suas melhores inspirações. Essas organizaçõcs, esses caracteres, podem dar um Otway, um Byron, um Musset ou um Shelley; a literatura receberá um acréscimo de produções admiráveis; mas o mundo esquecerá na sua rígida moral, que tais produções requeriam que Otwai morresse engasgado com o primeiro pedaço de pão que comeu depois de uma fome de cinco dias; que Shelley fosse pelos tribunais despojado de seus filhinhos, perdesse a sua primeira mulher afogada e morresse ele mesmo afogado antes de completar 33 anos. Não falo de Byron e Musset, porque os transes por que passaram são muito conhecidos.

“Pobre Varela!

“O melhor é dizermos como Virgílio e Dante:

Volse cosi colà dove si puote

Quel che si vuol’; e più non domandare.[1]

“F. OCTAVIANO.“

Rio, 21 de Fevereiro de 1875.

FERREIRA DE MENEZES

 

NOTÍCIA BIOGRÁFICA

Luiz Nicolau Fagundes Varela, nasceu a 17 de agosto de 1841, na freguezia de Nossa Senhora da Piedade, hoje vila do Rio Claro, província do Rio de Janeiro.

Seus pais, o Dr. Emiliano Fagundes Varela e D. Emília de Andrade, interessaram-se muito pela sua educação, e felizmente encontraram em Angra dos Reis um hábil mestre de escola, José de Souza Lima, que sentia prazer especial em desenvolver e instruir o espírito juvenil entregue ao seu ensino.

Em 1852 foi o pai do poeta nomeado juiz de direito de Catalão, na remota província de Goiás. Durou a viagem semanas, e foi feita a cavalo através de um país sem estradas e quase destituído de habitantes. Ao meio-dia e à noite, o jovem poeta e sua família eram obrigados a tomar refúgio e refeição sob alguma árvore copada. Podemos facilmente imaginar seus sofrimentos durante tão penosa peregrinação.

O espírito do poeta recebeu, contudo, uma percepção duradoura e enérgica das belezas maravilhosas de um rico país tropical, que ainda florescia na sua primitiva majestade e aspecto agreste.

Durante a residência judiciária de seu pai em Goiás, o jovem poeta cultivou com grande proveito a lingua latina, mãe da portuguesa. Depois de sua volta de Goiás, entrou para um colégio em Petrópolis, sob a direcção de Jacinto Augusto de Matos, que discerniu em seu pupilo grandes talentos, e assiduamente os cultivou.

Tendo-se mudado a família para Niterói, começou o poeta os estudos filosóficos sob a direcção do desembargador aposentado João Cândido de Deus e Silva. Tentou este professor, como o pai de Ovidio, dissuadir o jovem pupilo de seguir a inclinação poética, porque a pobreza seria sua sorte, e, além disso, acrescentava o mestre: — “Nunca sereis bom poeta.”

Luiz Varela resolveu vingar-se do mestre por ter menosprezado as suas faculdades poéticas. No dia seguinte trouxe alguns versos originais onde escreveu o nome do grande poeta épico Camões, bem como a cópia de uma ou duas estâncias de Camões, assinada Luiz Varela. Ambas foram submetidas à apreciação do filosofo prosaico, que de pronto decidiu que a segunda cópia não prestava, e que a primeira era excelente.

Matriculou-se em 1862 na academia de S. Paulo. Ao ser examinado em Francês, coube lhe em sorte um trecho de poesia, que imediatamente verteu em excelentes versos portugueses, no meio de aplausos gerais.

Já era poeta reconhecido; estimulado pelos colegas, principiou a publicar as producções poéticas da meninice, que criaram uma escola nova, emanciparam a nova geração de imitar os poetas franceses, e lhes ensinaram a serem verdadeiros brasileiros, infiltrando-lhes nas almas ideias da grandeza do seu paraíso terrestre, e que seria crime imperdoável tornarem-se habitantes indignos de um país que possuía os dons mais escolhidos da natureza.

Abominava a escravidão, e não hesitou em publicar versos contra uma instituição que só acumulava

Tesouros sobre o sangue amontoados,

Paços sobre vulcões!

Frequentou a academia de S. Paulo durante dois anos.

Casou-se com uma moça bonita, de quem teve um filho, que concentrou todo seu amor fogoso. Resolvendo concluir os estudos em Pernambuco, embarcou no vapor francês Béarn, que naufragou na altura dos Abrolhos.

Luiz Varela desenvolveu grande energia, e graças à sua experiência de viajar através de um país agreste, dirigiu a construção de choupanas cômodas, mui artística e ligeiramente arranjadas, por meio de coqueiros, palmeiras e semelhantes produtos tropicais.

Passou um ano em prosseguir felizmente os estudos jurídicos em Pernambuco.

Ao voltar ao lar, durante as férias, sofreu mui cruelmente ao ouvir que a esposa e o filho não existiam. Foi golpe mortal para Luiz Varela; daí em diante vagueava pelos campos, abria caminho através de florestas, vadeava ribeiros e passava rios caudalosos a nado, condoía-se com os africanos, contava suas torturas, suspirava pela morte, e como em uma ocasião anterior, poeticamente exclamou:

Minha alma é como um deserto

Por onde o romeiro incerto

Procura uma sombra em vão;

É como a ilha maldita

Que sobre as águas palpita

Queimada por um vulcão!

Durante a tempestade de dor, compôs o Cântico do Calvário, em referencia à perda do amado filho. Citaremos alguns versos, notáveis pela beleza melodiosa:

Como eras lindo! Nas rosadas faces

Tinhas ainda o tépido vestígio

Dos beijos divinais, nos olhos langues

Brilhava o brando raio que acendera

A bênção do Senhor quando o deixaste!

Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos

Filhos do éter e da luz, voavam,

Riam-se alegres, das caçoilas níveas

Celeste aroma te vertendo ao corpo!

Pouco a pouco se extasiou de tal forma pelos costumes simples dos camponeses, que adotou suas maneiras e vestuário.

Descreve, segundo o seu modo de ver, os prazeres da vida campestre nas subsequentes linhas intituladas

A ROÇA

O balanço da rede, o bom fogo

Sob um teto de humilde sapé;

A palestra, os lundus, a viola,

O cigarro, a modinha, o café;

Um robusto alasão, mais ligeiro

Do que o vento que vem do sertão.

Negras crinas, olhar de tormenta,

Pés que apenas rastejam no chão,

E depois um sorrir de roceira,

Meigos gestos, requebros de amor,

Seios nus, braços nus, tranças soltas,

Moles falas, idade de flor:

Beijos dados sem medo ao ar livre,

Risos francos, alegres serões,

Mil brinquedos no campo ao sol posto,

Ao surgir da manhã mil canções:

Eis a vida nas vastas planícies

Ou nos montes da terra da Cruz,

Sobre um solo só flores e glórias,

Sob um céu só magia e só luz.

Esta agreste vida poética terminou em segundas núpcias, e da segunda esposa deixou duas filhas de tenra idade.

Contudo, nunca restabeleceu-se completamente do abalo sofrido pela morte do primeiro filho. Desaparecia às vezes durante semanas, procurando consolo nas florestas e choupanas dos camponeses pobres, e como era perito botânico, naturalista, e bem versado em medicina, as visitas eram recebidas com sincera afeição e gratidão. Podemos formar uma ideia do prazer que derivava dessas visitas errantes, pelas seguintes linhas, dedicadas ao amigo íntimo Dr. Betoldi:

Salve, florestas virgens! Rudes serras!

Templos da imorredoura liberdade!

Salve! três vezes salve! Em teus asilos

Sinto-me grande, vejo a divindade!

Não obstante o ser mal compreendido pelos seus numerosos conhecidos, que eram incapazes ou não queriam compreender a força do seu gênio e o vigor da sua imaginação, nunca retribuiu as opiniões errôneas com um merecido castigo poético; era magnânimo demais, como se vê pelos seguintes versos:

Na flor dos anos conheci da vida

Toda triste ilusão:

Embora os homens meu porvir manchassem

Não os detesto, não!

Embora o sopro ardente da calúnia

Crestasse os sonhos meus,

Nunca descri do bem e da justiça,

Nunca descri de Deus!

Foi estudante laborioso de livros e da natureza; preferiu estudar os homens quando tiravam o disfarce em banquetes joviais.

Sendo parco de alimento, foi fraquíssimo companheiro folgazão.

Desejou ardentemente estudar o rio oceânico Amazonas, e associar-se com as numerosas tribos indianas que nunca tiveram comunicações com os brancos.

Resolvera efetuar este projeto ousado, logo que tivesse completado a publicação do poema denominado — Anchieta, ou o Evangelho nas Selvas.

Um ataque apoplético, que terminou fatalmente no dia 18 pretérito, abateu este poderoso gênio antes que tivesse tempo de revelar o acumulado tesouro poético que a reflexão estava amadurecendo.

Suas principais obras publicadas são:

Notumas.

Vozes da América.

Cantos Meridionais.

Contos e Fantasias.

Pendão Auriverde,

Cantos do Ermo e da Cidade.

Entre sua grande coleção de manuscritos encontraram-se: um fragmento da vida dos apóstolos, três dramas intitulados, A Fundação de Piratininga, em verso, Ponto Negro, e 0 Demônio do jogo, também em verso, tirado dos contos fantásticos de Hoffman.

Vários fazendeiros possuem composições de Luiz Varela que reunidas dariam um volume de bom tamanho e interessante.

A feição característica da poesia de Luiz Varela é a imitação vívida e verdadeira da paisagem e vida do Brazil, em linguagem simples, mas vigorosa e agradável, que corria espontaneamente, mesmo na meninice, de uma imaginação fértil, altamente dotada da percepção de semelhança na dessemelhança.

Tinha maneiras tão simples que muitos não podiam acreditar que possuísse gênio poderoso e que às vezes se erguia tão demasiadamente alto que no ãpodia ser devidamente apreciado pelos contemporâneos menos favorecidos.

Gerações sucessivas hão de elevar, indubitável e merecidamente, a uma alta esfera poética e acariciada a fama de Luiz Varela.

Corte, 15 de março de 1875.

(The Anglo-Brazilian Times)

 

CANTO I

Que formosos são os teus pavilhões, oh, Jacó!

Que belas as tuas tendas, oh! Israel!

... O seu rei será rejeitado por causa de Agag, e o reino lhe será tirado!

Eu o verei, mas não agora eu o contemplarei, mas não de perto. Nascerá uma estrela de Jacó!

(NÚMEROS XXIV, v. 5, 17).

2 de Dezembro de 1871.

I

Árvore negra, pérfida, execranda!

Árvore infausta, cujos lisos pomos,

Loirejando no fundo aveludado

De macia espessura, seduziram

A nobre essência dos primeiros seres!

Cuja sombra sinistra e deletéria

Cobriu de luto e dor o leito ameno

Dos mais castos amores do universo!

Cuja seiva compõe-se das mais fortes

Peçonhas conhecidas! Cujos galhos

Representam os símbolos tremendos

Dos mais cruéis e lugubres suplícios,

Que hão inventado as tiranias todas!...

Árvore negra, pérfida, execranda,

Árvore abrigo do maldito gênio!

Não! Não és tu, que vejo nos meus sonhos,

Abrindo os vastos, protetores ramos,

Por essas regiões azuis, serenas,

Onde o nome de Deus fulgura escrito

Em rutilantes, assombrosas letras!

Não és tu, não és tu, em cujas frondes

Brincam os querubins de plumas de ouro,

Ora ledos descendo, ora subindo,

Tais como vira em sonho milagroso

O neto de Abraão, adormecido

Sobre uma dura pedra no deserto!

Não és tu, que nos tempos de desgraça,

De cruas provações, os povos buscam

Qual asilo de paz e de justiça!

Árvore da ciência e do infortúnio,

Tu não nos dás os frutos da Esperança,

E nem da Fé o bálsamo suave,

E nem o puro mel da Caridade!

Junto de ti a morte ergueu seu trono,

Em teus galhos fatais, em teus raminhos

Não geme a rola, — colibri não brinca,

Não pousa a abelha, — o rouxinol não canta,

Nem adejam travessas borboletas!

Amam-te, apenas, lutuosos mochos,

Larvas imundas, sanguinários corvos:

Visco de maldição transpiras toda!

Não; não entoarei meus pobres hinos

À sombra tua que Satã protege!

Nunca! Nunca!...

Mas, ai! como propicia,

Rodeada de glórias e esplendores,

Estendes no infinito os almos braços,

Oh árvore do bem e da verdade!

Oh árvore da vida e do futuro!

Como ao redor de ti revivem belos

Os justos que passaram, — as risonhas

Chusmas de loiros anjos, e as falanges

De claríssimas virgens, que a inocência

De grinaldas cingiu, imarcescíveis!

Quantos gratos idílios, quantas odes,

Repassadas de amor e de ternura,

Quanta excelsa harmonia, não repete

Tudo o que existe, oh Cruz, três vezes Santa,

À sombra de teu vulto abençoado!

II

Auriflama divina! Insígnia eterna!

Tu, que espancando as sombras da mentira

Ao grande imperador mostraste outrora

Do verdadeiro Deus o santuário;

Tu que do luso chefe às hostes bravas

Apontaste a vitória contra os servos

Dos mouriscos heptarcas, e formosa

Nos céus ocidentais, entre as estrelas

Brilhaste aos olhos do argonauta ilustre,

Mostrando a terra que tomou teu nome;

Tu, que proteges na soidão dos mares

A triste nau batida pelos ventos;

E dos átrios de pobres presbitérios,

Dos campanários de pomposos templos,

Consolas o cansado peregrino,

Quando os montes da pátria avista ao longe;

Tu, que nos descampados santificas

O leito do infeliz, que mão traidora

Feriu em noite escura, e o ermo sítio

Onde caiu exausto o viageiro;

Que da rósea criança o berço guardas,

E o seio da donzela, — e a régia fronte;

O catre do operário, e a dura enxerga

Do mísero cativo!... Oh! Cruz suprema!

Permite que o mais rude entre os cantores,

O mais rasteiro ser que te há beijado,

Dobre o joelho junto de teu soco,

E travando de mísero instrumento

Celebre a vinda suspirada, e os atos

Grandiosos, sublimes, — e os milagres,

As egrégias doutrinas, — os martírios

Atrozes, inauditos, — e a sagrada

Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho

Do Onipotente Deus! E contemplando

O longo espaço que separa o berço

Humilde de Belém, do escuro cimo

Do pavoroso Gólgota, relate

As maravilhas que aprendeu, criança,

Dos santos lábios de ministro santo,

Nas amplas solidões do Novo Mundo!

Que volva aos belos tempos que passaram,

E desvende o painel das matas virgens,

E mostre as multidões das grandes praças,

O ajuntamento de selvagens tribos

Do maná do Evangelho sequiosas,

Em frente da cabana hospitaleira

De sábio missionário, em idas eras,

Quando o colosso — América — sorria,

Apertando feliz nos meigos braços

A imagem de Jesus — o Mestre, e a Bíblia.

III

E tu, mimosa flor dos santuários!

Celeste Musa! Sócia imaculada

Dos profetas hebreus! Vem, corre asinha!

Rasga o pesado véu que a luz empírea

Furta a meus olhos ávidos de glória!

Liberta meu espírito medroso

Das cadeias do tempo e da matéria;

Leva meu gênio além... além da terra...

Além das nuvens e dos sóis ardentes...

Além, além... onde o pensar apenas

Pode chegar, com milagroso auxílio!

Oh! de Milton e Dante augustas sombras!

Gênio de Kempis!... governai meu estro!

IV

Sobre os verdes outeiros, sobre os campos

Meridionais das regiões brasílias,

A noite estende vagarosa e muda

O brando véu de estreitas salpicado.

Bela como a princesa do Levante

Quando ao cair do dia ergue-se fresca

Das marmóreas banheiras de seus paços,

E para em meio dos degraus lustrosos,

Sacudindo da fronte peregrina

Um chuveiro de líquidos brilhantes

Sobre os finos tapetes que a circundam:

Assim das alvas névoas do horizonte

Vem assomando a lua; e triste e bela,

Nas portas do Oriente equilibrada,

Derrama sobre as úmidas campinas

A feiticeira luz. Nas lisas pedras,

Onde murmura trêmula e sentida

A fonte do sertão, brinca e suspira

Alinhando os cabelos perfumados

A tímida mãe d’água, semi-nua,

A náiade das terras de Colombo.

Dormem na selva as aves descuidosas

Do dia de amanhã, que a Providência

Por elas velará; lentas volteiam

As aragens do estio sabre os vales

Da próspera e feliz Piratininga.

V

Onde vão esses livres caminheiros,

Adustos filhos dos sertões? Que buscam

Por estas horas, tantos e tão fortes,

Deixando as tabas, as aldeias mudas,

E as cabanas desertas? Que desejam?

Novo céu? Outro clima? Ares mais puros?

Campos mais férteis? Mais alegres prados?...

Não. A terra querida em que repousam

Os restos de seus pais é vasta e rica!

Nela nasceram, vivem, se conservam,

E nela hão de dormir o último sono.

O que procuram, pois, que assim caminham?

Que pensamento os guia? Porventura,

Dirigem-se às cabanas inimigas

Sequiosos de sangue, dominados

Pelo sombrio gênio da vingança?

Meditam planos de combate? Levam

A desordem, a ruina, o horror a morte,

Aos calados abrigos, onde o povo

Dorme, de seus trabalhos esquecido,

Entregue aos sonhos de um melhor destino?

VI

Oh não! a rude maça, o arco infenso,

O grosseiro carcás prenhe de setas,

Não lhes pendem dos ombros; em seus peitos

Não cai feio colar de humanos dentes,

Nem talismãs de estólido prestígio,

Mas o divino emblema do Calvário,

A Cruz da Redenção, a imagem santa,

Meu Deus, do lenho em que expirou teu Filho,

Dando aos homens em troca do martírio

A liberdade, a salvação e a glória.

VII

Caminha ao lado do marido a esposa,

A esposa, que a palavra do Evangelho

Tirou da condição cruel de escrava;

Ampara o moço forte o velho enfermo;

Marcha silenciosa a criancinha

Seguindo de seus pais os lentos passos.

VIII

À esquerda margem de profundo rio,

Em sitio ameno e plácido, coberto

De transparente areia, matizado

De formosas ilhotas de verdura,

Entre acácias virentes, moles palmas,

Alveja solitária e pobre ermida.

Silvestres flores dos portais aos lados,

Úmidas de sereno, abrem medrosas

À luz da lua as cândidas corolas,

Onde as brisas do estio ávidas libam

Suavíssimos bálsamos; na frente

Cercada de jasmins e maravilhas,

Mimos das mariposas forasteiras,

Qual um padrão da pátria em terra estranha,

Ela ainda! Ela sempre! Sempre bela!

A Cruz da Redenção protege os ermos!

IX

Detém-se os caminheiros e respirara,

Sobre a relva descansam as mulheres,

E as crianças alegres se espreguiçam;

Está finda a romagem: um velho chefe,

De voz autorizada e grave porte,

Chama os da sua idade e se dirigem

Para o modesto e venerando asilo.

Batem, pronunciando o santo nome,

O nome augusto de Jesus, e logo

Abre-se a estreita porta, e como outrora,

Nos belos tempos em que a fé suprema

Prodígios operava, aos olhos ávidos

Dos filhos das florestas, aparece

Formoso santuário, iluminado

De brancos círios da mais fina cera

Que as abelhas silvestres produziram,

Adornado de flores delicadas

E alfaias preciosas, nunca vistas

Das tribos do deserto. O grato fumo

De odorosas resinas sobe em rolos

Dos braseiros de argila, e pouco e pouco

Cerca o sagrado altar, onde pousada

Aimagem do Senhor, lívida e magra,

Coberta de feridas rubro-ardentes

Pende de negra cruz. — Louvado seja

O Redentor do mundo! — exclamam todos,

Homens, mulheres, velhos e crianças,

Unindo as grossas mãos, baixando as frontes.

 — Louvado seja o Redentor do mundo!

Por todas as nações, povos e séculos! —

Responde então no limiar da porta,

Súbito aparecendo, o nobre vulto

De austero missionário, moço e belo,

Mas triste como a estátua macilenta

De um mártir d'outras eras, esquecida

Em vasta catedral da meia idade.

X

Alma inspirada de Anchieta ilustre,

Espírito do apóstolo das selvas!

Sábio e cantor, luzeiro do futuro!

Tu, que nas solidões do Novo Mundo

Sobre as alvas areias, borrifadas

Das escumas do mar, traçaste os versos

Do — poema da Virgem — e ensinaste

Aos povos do deserto a lei sublime

Que ao reino do Senhor conduz os seres;

Ensina à minha musa timorata

A linguagem celeste que falavas!

Dá-lhe a doce expressão, a graça infinda,

A força, a eloquência e a verdade

Dessas singelas narrações, que à noite

Fazias nos outeiros, nas florestas,

Às multidões que ouvindo-te choravam,

E pediam as águas do baptismo!

E tu, oh! desditoso, exímio bardo,

Cujo leito final buscam debalde

As abelhas das verdes espessuras,

Para seu mel depor, como as do Himeto,

Do divino Platão sobre o moimento,

 — E cada novo estio o mar procuram,

E zumbem sobre as águas mugidoras

Que furtaram teu corpo ao pátrio solo!

Grande Gonçalves Dias! Desses páramos,

Onde viver sonhava, e vive agora

Tua alma gloriosa, envia, oh! mestre,

Envia-me o segredo da harmonia

Que levaste contigo!... Assim, apenas,

Meu santo empenho vencerei contente.

XI

Reina fundo silêncio. Passo e passo,

O homem do Evangelho se encaminha

Para o meio das gentes reunidas;

Qual o astro que as veigas ilumina

E faz abrir a flor, saltar o inseto,

Romper-se a bela e nítida crisálida,

Cantar o passarinho, e a leve corça

Pular pelas campinas orvalhadas,

Assim rebenta a vida e o movimento

À medida que o mestre se aproxima.

Sobre grande fogueira a chama brilha,

Robustas mãos arrastam duros cepos;

Outras mais frágeis pelo chão estendem

Lisas, moles esteiras, ramas frescas;

Ajoelham por fim, e o missionário

Para a imagem de Cristo se voltando

Repete as santas orações da noite.

Da noite as orações já terminadas,

As gentes abençoa, e então começa

Da Redenção a história sacrossanta,

Que a musa do poeta ornou de flores,

Tristes flores sem viço e sem perfumes.

XII

Oh! não! não morrereis, meus pobres cantos!

Não passarás nas trevas, deslembrada,

Musa Cristã, que peregrina foste

Pedir a inspiração ao frio solo

Do sombrio jardim das Oliveiras!

E do suor de sangue te molhaste!

Que subiste contrita, de joelhos,

Beijando as pedras, inundando a terra

De lágrimas de amor e de piedade,

A terrível montanha do Calvário!

Que entre os negrumes de sinistra noite,

Rotas as vestes, os cabelos negros

Soltos aos frios ventos do infinito,

Junto às santas mulheres pranteaste

Sobre a lousa do Deus supliciado!

Que o viste erguer-se vencedor da morte,

Buscar o mundo, consolar os tristes,

Prometer-lhes voltar no fim das eras,

E remontar aos céus em nuvens d'ouro!

Hão de te honrar os homens e as idades,

Senão por ti, por Esse, cujo nome

Santifica teus cantos maviosos!

Passarás ao porvir, oh! casta Musa!

XIII

Feitura do Senhor, senhor dos seres

Que os vergéis sempre verdes habitavam

Da região da paz e das delícias:

Irmão, dos anjos, como os anjos puro,

Jovem, feliz, imortalmente belo,

O rei da creação, — o esposo de Eva,

A glória, a vida, a luz da etérea corte,

Contra as ordens de Deus voltou-se ingrato,

Rendeu preito a Satã! — Tudo perdeu-se!

Os anjos, seus iguais, horrorizados

Apartaram-se dele: o Paraíso

Tornou-se mudo e se cobriu de sombras;

Apagaram-se os astros: convulsiva

A natureza estremeceu nas ânsias

De doloroso parto!... A fria morte

Apareceu na face do universo!...

Lavrando a justa e rígida sentença

O Juiz sossegou: o Pai clemente

Sentiu, porém, a queda de seus filhos,

E prometeu-lhes libertar um dia

Das cadeias da morte e do pecado.

XIV

Punidos os revéis, seus descendentes

Pelo mundo espalharam-se, assombrando

As eras e as idades com seus crimes!

Uma lágrima, então, não de tristeza,

Mas de indignação, brilhou nas nuvens;

Cresceu, cresceu, ganhou o firmamento,

Caiu com surdo estrondo sobre a terra,

Juntou-se ao mar, vingou os descampados,

Selvas cobriu, avassalou montanhas,

Tudo, tudo arrasara, se entre os homens,

Um homem justo não vivesse! O Eterno

Inda uma vez mostrou-se compassivo

Preservando Noé e mais seus filhos.

Passada a horrenda convulsão das águas,

Pelas imensas regiões, que ainda

Exalavam os úmidos vapores

Do sol brilhante aos protetores raios,

Se espalharam de novo!... — Mas, desgraça!

Os filhos de Noé continuaram

O que os filhos de Adão haviam feito!

E seu curso fatal seguia o tempo,

Volvendo ao nada séculos e séculos,

E nem santos avisos, nem promessas,

Milagres de clemência, atros castigos,

Pragas medonhas, servidões cruentas,

E horrores sobre horrores, atalharam

A progressão de abomináveis crimes!

XV

Já tremenda sentença, e a derradeira,

Ia lavrar o Eterno. Sobre o globo

Em vez da imensa lágrima d'outrora,

Imenso olhar fitou!... Raio seria

Que a terra fulminara, se, pousando,

Depois de atravessar os mundos todos,

Dos continentes na mais pobre nesga,

Não caísse bondoso e compassivo

No casto seio de formosa virgem!

Olhar onipotente! Olhar bendito!

Manancial de luz, vívida e pura!

Raio da salvação, não da vingança!

Tu levaste a verdade, o verbo santo,

A invisível essência do incriado,

Às entranhas puríssimas da esposa!

XVI

Era ao sol posto: no modesto asilo,

Prostrada, humilde, o pensamento entregue

Ao Deus de seus maiores, meditava

A mais pura, a mais bela entre as mulheres.

Mas, estremece de repente e cora,

Ergue os formosos olhos radiantes

De inefáveis delícias, e, surpresa

Vi um anjo do céu, todo esplendores,

Do pé a poucos passos; — enleada,

Cruza os braços, suspira, a fronte abaixa.

O etéreo mensageiro se aproxima

E fala deste modo: — Ave, Maria!

Virgem cheia du graça, é Deus contigo!

Bendita és tu, entre as mulheres todas,

Bendito o fruto de teu santo ventre.

E como a virgem pávida mirasse,

Continuou assim: — Sobre teu seio

Há descido do Altíssimo a virtude,

Terás um filho poderoso e forte,

E que — Filho de Deus — será chamado.

 — Eis a serva de Deus, — faça-se nela

Sua santa vontade, — diz a virgem.

E o celeste enviado abrindo as asas

Volta, entre nuvens de brilhantes cores,

À sidérea mansão. — Salvo era o mundo:

Tinha se feito a luz que alumiava

A matéria fecunda, ia fazer-se

A viva luz que alumiar devera

As almas imortais em seu caminho;

Ia chegar ao mundo o Prometido,

Aquele que esperava que viesse,

Que trouxesse um consolo aos que chorassem,

Que desse ao pobre um lar, ao triste um gozo,

Ao romeiro um bordão, ao nauta um leme,

Ao cego a luz, ao moribundo a vida,

Aos povos a verdade! — Era já tempo.

XVII

Da clara estirpe de Davi o grande,

A glória de Israel, o rei-profeta,

O ungido do Senhor, o herói, o sábio,

O mais nobre cantor que há visto o mundo,

Era a eleita de Deus, dos céus princesa,

Dos homens esperança, — era Maria,

Filha de Ana e de Joaquim, esposa

Do operário José. A nódoa infausta

Do vício original não maculava

A esplêndida candura de seu rosto,

Norma sublime, divinal modelo

Da perfeição dos anjos. A inocência,

A bondade infinitas, radiavam

Iguais a duas fúlgidas estreitas,

Em seu laurel de excelsa virgindade.

Seus gestos graciosos, os seus passos

Mais leves e sutis, eram medidos

Por suave harmonia. Um — que — de etéreo,

De indefinido e vago, derramavam

Por toda a parte seus olhares. — Almas

Tinham as rosas dos sarçais selvagens,

Se as tocavam seus dedos: as palavras

Que murmuravam seus divinos lábios

Eram guardadas pelos anjos, — nunca

Tão grata havia sido a voz humana!

Tanta consolação jamais vertera!

Jamais tantas promessas traduzira!

 — Bela e terrível! Ao mirar-lhe o rosto,

A espada flamejante, que guardava

Do Paraíso a porta, cairia

Das mãos de austero arcanjo, fulminando

A fronte mãe de um pensamento impuro!

Neta de um rei, mulher de um jornaleiro,

Pobre, singela, humilde, mas senhora

De toda a humanidade: desprezada

Dos escravos dos Césares nefandos,

Mas forte, gloriosa, triunfante

Ao lado de seu Filho e de quem sofre;

Eis a mulher que soergueu os homens

Do fundo abismo onde os lançara o erro!

Eis a predestinada, a quem o Eterno

Enviara seu lúcido ministro

Anunciando a encarnação do Verbo.

XVIII

Província escrava do Romano Império

Era a Judeia, então, a pobre pátria

Da formosa Maria; outrora forte,

Afamado, opulento e grande reino,

Berço de heróis, de iluminados sábios,

De inspirados profetas, e, ora, triste,

Miserável quinhão de servos torpes

Do mais torpes senhores. Entretanto,

Dos estandartes das nações, seus chefes

As tendas dos soldados fabricaram;

Seus reis ergueram majestosos templos,

Onde as riquezas todas do Oriente

Brilhavam misturadas; seus cantores

Não tiveram iguais, nem nesses tempos,

Nem hoje ainda, que saltério hebraico

Jaz desmontado à sombra funerária

Das brenhas de Sião. — Ai! nessa idade,

Todos os povos e nações do mundo

Tinham os olhos fitos sobre a terra,

Onde corre o Jordão, e rumorejam

Os altos cedros do soberbo Líbano!...

Alguma cousa de sinistro e grande

Agitava-se então naquelas plagas!

XIX

Por decreto fatal da Onipotência

O sólio de Davi desfez-se em cinzas;

A hera fria, a vil parietária,

Estenderam-se então nos velhos muros,

Onde o veludo e a seda, recamados

De ouro e pedrarias, encantavam

Os olhos do estrangeiro! As vastas praças

Tornaram-se ervaçais, e as belas fontes,

Onde ao sol posto a filha do operário

Ia o cântaro encher, onde os mancebos

As noivas escolhiam, correm turvas

Em turvo leito de sombrio lodo!

Assim estava escrito! — Roma! Roma!

Foste fiel verdugo! Executaste

Horrivelmente bem o mando eterno!

Só tu, pátria cruel das Messalinas,

Dos Neros e Tibérios, tu somente,

Tão nefário papel representaras!

Tu corrompida até vender teus filhos!

XX

Já de guerras inúteis enojado,

Soberano do mundo, o grande império,

Não no seio da paz, senão do gozo,

Buscava repousar. Desde as planícies,

Onde desliza o Eufrates venerando,

Até da Lusitânia os verdes campos;

Desde as ilhas remotas do Levante

Até da Mauritânia as rudes serras,

Tudo às águias romanas se curvara.

 — Era senhor então César Augusto:

Volvendo um dia os olhos sobre o mapa

Das nações que vencera e dominava,

Quis conhecer o número das gentes

Que pagavam tributo à sua espada.

Determinou então que o povo todo,

Cada qual procurando a pátria terra,

Se apresentasse logo ao magistrado,

Cujo dever e ofício era notar-lhes

As moradas, os nomes e a família.

Governava os judeus Cirino: logo

Fez publicar o insólito mandado

Que recebera de seu amo augusto.

XXII

Pálido, em pleno inverno, raras vezes

Rasgando os mantos de alvacentas névoas,

Deixava o sol cair furtivo raio

Sobre os cimos do Hermon, ou sobre os lagos

Azuis da Galileia; frios ventos

Sopravam dos desertos, sacudindo

Os retorcidos galhos da videira,

E lançando por terra as folhas murchas

Dos densos olivedos; as campinas,

Onde sobre macia e verde relva

No doce estio, os cordeirinhos brancos

Saltitavam contentes, se cobriam

De camadas de neve; os passarinhos

Tinham buscado novo céu; as árvores

Nem gratos frutos, nem cheirosas flores

Ostentavam à vista tediosa

Dos viandantes trêmulos; — apenas

O grasnar dos abutres esfaimados,

O ruído das lívidas queixadas

Do chacal temeroso, remoendo

De mortos animais os ossos frescos;

A luz medonha dos fuzis do inverno

Correndo sobre o gelo; o silvo agudo

Das serpentes vorazes se agitando

Danadas sobre o chão, — interrompiam

A triste cena do infecundo quadro!

XXII

Nem uma voz humana pelo espaço!

De angústia ao menos!... Porém, não, aos pouco,

Tropel confuso fez-se ouvir nos ermos;

Gritos, clamores, tresloucados cantos,

Imprecações tremendas, acordaram

Os ecos dissonantes; surdo estrondo

De duras patas, de pesadas rodas

Abalaram o solo: dir-se-ia

Que um poderoso exército voltava

De prolongadas, férvidas pelejas,

Vencedor, mas cansado. Em pouco tempo,

Grandes estradas, tortuosas sendas,

Atalhos desiguais, eram cobertos

Do buliçosas, palradoras turbas;

Velhos, mancebos, grandes e pequenos,

Trajando vestes das mais vivas cores,

Uns a pé, carregando ao ombro os filhos,

Outros graves, sisudos, cavalgando

Tardos jumentos; prazenteiros outros

Sobre pesados carros, atulhados

De negras arcas, de grosseiros sacos;

Estes rindo e cantando os doces cantos

De seu país natal, narrando aqueles

Lendas singelas, inocentes casos

Às lindas companheiras de jornada.

Os anciãos silentes, as crianças

Pulando alegres, sem sentir ao menos

Os rigores do inverno, caminhavam

Ao longo do deserto.

Atrás, bem longe

Da multidão ruidosa, lentamente,

Do bom marido aos ombros arrimada,

Maria viajava. — Melindroso

Era então seu estado, já na quadra

Em que o tempo decreta a angustiosa

Dor da maternidade; mas seu rosto,

Pálido como a nívea magnólia

Que desbrocha ao luar; os lábios meigos,

Onde um riso, mais doce do que a aurora

Da sazão estival, constante estava;

E os olhos mais formosos que as estreitas

Do céu meridional, reproduzidas

Na face das lagoas do deserto;

A cabeça mais linda e graciosa

Que da virgem primeira, que da terra

Subiu aos pés de Deus, ganhando a palma

Da bem-aventurança — ao pensamento

Acordavam ideias de outra vida,

Delícias de uma pátria que perdemos,

Vagas saudades do infinito, e ainda...

Oh! não posso explicar, mas creio e sinto

 — A presença de um Deus clemente e justo! —

XXIII

Segundo a era nova que seguimos,

Onze meses e dias vinte e quatro

Tinha marcado no quadrante imenso

O flamejante sol, desde o momento

Em que o santo enviado anunciara

A glória de Maria; seis jornadas,

Seis jornadas apenas, esperava

A mão cruel e rábida do tempo

Para a lousa abaixar do ano extinto,

Plantar um novo marco!... — Ingente marco!

Padrão sagrado! Hão de passar os séculos,

Hão de perder-se as gerações futuras

Do esquecimento nos profundos mares;

Há de abalar-se o globo nos seus eixos,

Sacudindo os colossos de granito

E os mausoléus das dinastias todas,

E os povos e as nações! Um outro mundo

O Senhor criará!... Mas, sobranceiro

Ao tempo, ao mundo, e aos povos, — os felizes

Desse mundo melhor hão de saudar-te

 — Padrão da eternidade! E penetrados

De respeito e de amor, dirão piedosos:

 — Até ali a sombra, a barbaria,

E dali até nós a luz, a glória!

XXIV

As multidões hebreias caminhavam,

O triste véu da noite inda mais triste

Tornava as soledades; pavorosa

A viagem seria, se a esperança

De próximo descanso e abrigo próximo

Não alentasse os ânimos e as forças.

Alguns passos ainda, e além dos campos

Frios, desabrigados, a cidade

Querida de Davi, a hospitaleira

E singela Belém, por entre as sombras,

Ia mostrar-se com seus gratos fogos,

Consoladora como um porto amigo,

Que do meio do pérfido oceano

Lobriga esmorecido, pobre nauta.

Tinha cessado a vozeria e os cantos;

De quando em quando, apenas, um suspiro,

Um grito de mulher ou de criança,

Cujos mofinos pés, intumescidos

Do muito caminhar, ou lacerados

Dos espinhos e pedras do deserto,

A neve entorpecia, ou brado forte

De impaciente, ríspido carreiro

Os vagarosos brutos incitando,

Erguiam-se dos ranchos abatidos

Daquele povo ilustre e desgraçado.

Depois... fundo silêncio. — Oh! quantas vezes

Nesse jornadear penoso e duro,

Se lembrariam de Israel os filhos

Da longa escravidão de seus maiores?

Das estiadas do Egito e Babilônia?

E das promessas de seu Deus?... Quem sabe?

XXV

Já de Belém as luzes bruxuleiam

Pálidas através dos nevoeiros,

Qual turbilhão de tênues vagalumes

Sobre as sarças escuras lampejando....

Um grito apenas, expansivo e forte

Pelos ares ressoa — o passo dobram;

Superam a fadiga. Estavam findas

As penas desse dia trabalhoso.

Chegam por fim. Das estalagens vastas

Os grosseiros portões rangem nos gonzos:

Gritam os amos; os serventes correm

De um lado e de outro; os viageiros entram

Nos largos palcos, insistentes estes

Pedindo de comer, — fracos aqueles

Suplicando um abrigo, um leito ao menos,

Chora a criança; o ancião tolhido

Implora brando lume a que se aqueça;

Acalentam as mães os filhos; bradam

Os condutores alijando os carros;

Ressoam na calçada as duras patas

Das mulas pacientes: — a desordem

Reina e a confusão por toda a parte.

Para tão grande número são poucas

As pousadas, e poucos os alvergues;

O que chegou primeiro, o mais esperto,

Ou traz mais cheio o cinto, ou prenhe a bolsa,

Tem o lugar melhor; ficam os outros

Na cozinha ou no alpendre; outros, apenas,

Acham mesquinha enxerga em que dormirem

No frio pátio ao lume das fogueiras.

Porém, José o pobre carpinteiro,

Porém, Maria a santa, a imaculada,

Só encontraram por abrigo — o teto

Do escura estrebaria, ou vil presepe!

Por leito — feixes de cevada e feno!

Por companheiros de hospedage — os brutos!

Nem um velho candil de frouxo lume,

Nem ligeiros gravetos acendidos

Entre grosseiras pedras clareavam

O miserável, negro pardieiro!

Em breve o sono amigo as gratas asas

Estendeu sobre os pobres viandantes.

XXVI

 — Calou-se o narrador, ergueu os olhos

Para a celeste abóbada, crivada

De estrelas rutilantes, depois triste

Abaixou a cabeça suspirando.

Todo o auditório contemplava mudo

Aquela bela imagem do profeta;

Todo o auditório respirava a medo,

Temendo interromper-lhe os pensamentos.

Por fim continuou:

 — Nas vastas terras

Que no centro da Ásia se dilatam,

Tendo ao Setentrião tribos ferozes,

Povos sem lei, sem crenças, sem governo,

E ao Meio-dia a Pérsia, a índia adusta;

Ao Oriente a China impenetrável,

Ao Ocidente a áspera Tartária,

Um poderoso império florescia,

Grande no meio de inimigas hordas,

Opulento entre reinos lacerados

Por discórdias e guerras, deslumbrava

Com seu fulgor os povos do Levante.

Nunca, segundo a tradição nos conta,

Mais altos torreões, mais ricos templos,

Mais vistosos eirados, levantaram

Braços humanos. Seus reais senhores

Tinham acumulado nas cidades

Esplêndidas, soberbas, os prodígios

Das artes, das ciências, dos trabalhos

Em que mil gerações se afadigaram.

Mas, desgraça! loucura! Os habitantes

De tão brilhante e opulento império

Não guardavam de Deus e da verdade

A mínima noção! Monstros horrendos,

Áureas, mas broncas, colossais estátuas,

A lua, o sol, as abusões falazes

Da louca fantasia, eram seus deuses!

Uma classe, contudo, ilustre classe,

Classe temida, professava, é certo,

De vedada ciência os exercícios;

Ela escrevia a lei, ela dispunha

Dos homens e das cousas, dominava

O rei e o povo, o exército e o comércio:

Era a classe dos Magos. O seu livro

Tinha por folhas os azuis espaços,

As estreitas por letras. Longas noites,

De enormes torreões sobro os eirados,

Olhos fitos no céu, acompanhavam

Dos claros astros os extensos giros.

Liam da natureza as maravilhas,

Os flagelos do tempo, a sina, o fado

Do mais rasteiro ser que a terra habita,

Na poeira dos mundos cintilantes

Que à noite argenta o Armamento escuro.

A pedido do rei, que feias lutas,

Iminentes perigos assombravam,

Reuniram-se os Magos: rubros fogos

Brilharam logo nos torrados todos

Dessas erguidas fábricas de pedra,

Glória dos grandes e terror do vulgo;

Rolos de espesso, de odoroso fumo

Por um momento espalham-se nos ares;

Estranhos cantos, harmonias vagas,

Como as de um sonho de alma enamorada

Passam nas asas dos noturnos ventos.

Amedrontado o povo, em vozes baixas

Repete então maravilhosos contos,

Fala de aparições de etéreos gênios

Habitantes dos astros, de colóquios

Com as sombras errantes, que das nuvens,

Sentadas descem sobre carros de ouro;

De espantosas visões, negros sigilos,

Revelações de pavorosos seres:

O segredo, porem, dessas alturas,

Os arcanos profundos que decifram

Os magos reunidos — ninguém sabe,

Ninguém tenta saber! Desventurado

Aquele que, de longe, procurasse

Perscrutar os mistérios dessas horas!

À meia noite, o tempo do preceito,

Eram findos os mágicos trabalhos,

Eram sabidos os futuros casos;

Guardam-se os tenebrosos instrumentos,

As lâmpadas apagam-se, os braseiros,

Onde a mirra e o incenso há pouco ardiam,

Deixam de fumegar; os Magos descem,

Mudos, severos, arrastando os mantos

Pelas escadarias de granito.

Não se fecha, contudo, a grande porta,

Ficam alguns serventes, que três sábios,

Doutos conhecedores das estrelas,

Aguardam a manhã: o mais provecto

Chama-se Baltazar, nobre, opulento,

Governa a terra onde abundantes brilham

As auríferas minas: o segundo

Domina a região das tamareiras

E das árvores altas que destilam

A cânfora saudável; o seu rosto

Tem do ébano a cor lustrosa e negra,

É Melquior o seu nome: o derradeiro,

Gaspar, vive entre as tribos do deserto,

D'onde a suave mirra, o brando incenso,

O grato beijoim descem, se espalham

Pelos grandes mercados do Oriente.

XXVII

Retirados os mais, os três sentados

No derradeiro andar da imensa torre,

Despertos, porem mudos, e absortos,

Buscam as horas iludir da noite,

Cada qual se entregando aos pensamentos

Ledos ou tristes, graves ou ligeiros,

Que o silêncio, o lugar, o acaso, o tempo,

Soem chamar à inteligência humana.

Este, talvez, recorda-se da esposa,

Ou da amante, dos filhos, dos amigos,

Da lareira querida que deixara;

Aquele de negócios complicados.

Ou dos pátrios destinos; aqueloutro

Nesse futuro que entrevira há pouco

Na face das estrelas... Mas, oh! numes!

Repentino clarão percorre o espaço!

Jorro de luz rebenta do infinito,

Seguido de um horríssono estampido!

O enorme torreão todo estremece.

Depois um coro de celestes vozes,

De instrumentos divinos, docemente

Nas nuvens faz-se ouvir, e aos olhos turvos

Dos Magos assustados aparece

De um querubim a esplêndida figura:

Mais alvas, mais brilhantes do que a neve

Incólume dos Andes, refletindo

A luz do sol nascente, eram as vestes

Que as formas lhe envolviam; mais festivas

Do que as faixas do íris, quando abraça

Depois da tempestade o céu e a terra,

Eram as longas asas. Da cabeça,

Prodígio de beleza, uma torrente

De fúlgidas madeixas desprendia-se,

Vinha tocar-lhe os pés; a eternidade

Terrível, mas sublime; a glória excelsa,

Mas assombrosa, das celestes cortes,

Dominavam-lhe os gestos e a postura.

 — Não tenhais medo, murmurou, erguei-vos,

Ajuntai as mais grátulas ofertas

E parti, caminhai: a mão do Eterno

Vai desvendar-vos os terrestres olhos.

Ide a Belém, o Salvador do mundo

Entre os homens está. — Disse, e agitando

As asas vigorosas, afastou-se,

Deixando os Magos trêmulos, atônitos.

XXVIII

Belém... Onde Belém? Quais os caminhos'.'

Quais os guias seguros? Quem pudera

Nessas horas caladas ensinar-lhes

Da romaria o norte? Quantos povos

Bárbaros de permeio, ou quanto tempo

De penosas jornadas e labores?

Depois quais os sinais? Quais os indícios,

E o nome do que buscam? Como achá-lo?

Em vão tentavam, ponderando o caso,

Resolver estas dúvidas tremendas.

Nada explicara o mensageiro augusto,

Nenhum rumo apontara, de que modo

Obedecer às ordens soberanas?

Porém — milagre!... nos sidéreos climas

Uma formosa estrela, nunca vista

Nas eras que passaram, fulgurante

Apareceu de súbito, inundando

O rio, os campos, os vergéis frondosos,

Os extensos jardins, e os elevados

Coruchéus dos palácios, da mais pura,

Da mais serena luz, que haja caído

Das empíreas alturas! Tristes, pálidas,

As mil constelações se tresmalharam

Quais errantes lucíolas: a láctea

Banda que o firmamento em dois divide,

Como um cinto de frágeis filigranas

Na vastidão perdeu-se! Os grandes lagos,

Os tanques primorosos, as colinas

Coroadas de vinhas e oliveiras,

Transformaram-se em mares encantados,

Ilhas de nácar, mágicos pomares,

Grutas de fadas e amorosos gênios.

XXIX

 — Eis o sinal divino, caminhemos!

Exclamaram os Magos, — o luzeiro

Que aparece no céu, à terra santa

Guiará nossos passos, faro amigo

Nos mostrará propício o asilo, o berço,

Onde repousa o Salvador! — E logo

Buscam os cofres de valores prenhes.

As áureas bolsas, os compridos mantos,

E fitando os olhares penetrantes

Na portentosa estreita, a torre deixam.

XXX

As horas passam como alados gênios.

O deserto medonho se ilumina

De rutilantes fogos; as montanhas

Aplainadas, transformam-se em caminhos

Orlados de jasmins e heliotrópios,

Lírios e rosas, dálias e tulipas.

Os rouxinóis despertos preludiam

Suavíssimos cantos; a floresta,

O campo, a fonte, o rio, a sarça, a relva,

O pequenino inseto que se aninha

No seio de uma flor, tremem, tocados

Pelo sopro de Deus! Hinos celestes,

Melodiosos cânticos, percorrem,

Nas asas leves de chorosas brisas,

A vastidão dos ares, e... lá em cima,

Lá em cima, além das nuvens e dos astros,

Abrem-se do Infinito os santuários,

E os querubins de alvíssimas roupagens

Junto ao trono do Eterno se debruçam,

Derramando felizes sobre o mundo

Um dilúvio de flores — Glória! Glória!

Glória ao Senhor supremo nas alturas,

E paz aos homens sobre a terra! — cantam

Ao inefável som de etéreas harpas.

XXXI

A luz tudo avassala. A festa imensa

Da natureza nessa noite santa

Dá vida às soledades; mas, ao longe,

Das bandas do Ocidente, em nuvem negra,

Um turbilhão de espectros macilentos,

Cobertos de farrapos purpurinos,

Lentamente atravessa o céu sereno;

Sibila o vento, e as ondas agitadas

Atiram contra a sombra que projetam

A baba salitrosa. Um grande brado

De polo a polo faz-se ouvir; — são mortos!..

São mortos os mil deuses, — é nascido

O Filho de um só Deus! — E lentamente

Desaparece a nuvem tenebrosa.

XXXII

Jubilosos, porém, cientes e firmes,

Fitos os olhos na propícia estrela,

Os três magos caminham pelos ermos,

Voam as horas; as manhãs e as noites

Em celeste consórcio se confundem:

À voz do Eterno estreitam-se as distâncias,

E chegam sem cansaço à nobre, à antiga,

Real Jerusalém. Seu grito estranho,

Seus estranhos vestidos e seus modos,

Dão pasto ao ócio e ao gênio curioso

De um povo estulto e vão. — D'onde vieram

Estes homens tisnados? Que procuram?

Trazem felicidade, ou semelhantes

Aos pássaros sinistros, pressagiam

Desgraças, infortúnios? — A notícia

Chega aos ouvidos do vaidoso Herodes,

Rei, então, e senhor. Chama-os e indaga:

 — De que terra saístes? Que negócio

Vos traz aqui? — Partimos do Oriente,

Os Magos lhe respondem, — habitamos

Além do Eufrates e do Tigre, e somos

Senhores, como vós, em nossos reinos.

Procuramos o pouso abençoado,

Onde o Rei dos judeus, recém-nascido,

Descansa agora: se o sabeis, dizei-nos;

Se não, deixai-nos ir, que sua estrela

Nos clareia o caminho. Isto escutando

Turba-se Herodes, seus ministros chama,

Convoca os anciãos, consulta augúrios,

Faz estudar das aves as entranhas,

As águas dos arroios, e a fumaça

Das ardentes fogueiras. Os prudentes

Anciãos venerandos lhe repetem

Dos antigos profetas as palavras:

 — Está escrito, dizem-lhe, que o Cristo

Em Belém nascerá, — estais contente?

 — Ide! — Herodes exclama, ide depressa,

Buscai o rei anunciado, e quando

Souberdes o lugar onde se abriga,

Vinde dizer-mo: pequenina oferta

Quero também depor junto a seu berço;

Ide depressa, os deuses vos protejam.

XXXIII

Os romeiros prosseguem; mas o bárbaro,

O apavorado rei logo reúne

Mil soldados cruéis, e lhes ordena

De invadir as cabanas e as herdades,

A casa do abastado e o vil tugúrio

Do infeliz, miserável proletário;

De derramar a morte onde encontrassem

Fecundos seios, puerícia inerme!

XXXIV

Então um grito uníssono, terrível,

Retroou pelo espaço! Aflitas, cegas,

Olhos sanguentos, desnudado o corpo,

As jovens mães as praças percorriam,

Como as leoas da abrasada Núbia,

Defendendo os filhinhos! O heroísmo

Do maternal amor fez-se loucura.

Renques de algozes recuaram frios,

Perante uma mulher! Rudes atletas,

Afeitos aos mais ásperos trabalhos,

Se estorceram no pó, aniquilados

Por delicadas mãos, destras apenas

No suave lidar de brandas sedas!

Mais de uma vez os lúgubres verdugos

Viram o ente frágil, timorato,

Objeto de luxo e de vaidade,

Tornar-se horrível, espumar de raiva,

Às feras disputar o antro escuro

Para esconder a prole ameaçada!...

 — Um coração de mãe produz milagres.

XXXV

Enquanto estas cruezas assombravam

Aldeias e cidades, descuidosos

Caminhavam os Magos, precedidos

Do luminoso guia, — e alfim chegando

Às portas de Belém, sobre o telhado

De mísero presepe, úmido e negro,

Viram-na se deter. — Vozes suaves

Ledos hinos cantavam, — brando lume

Clareava o recinto. — Entremos, vamos,

Dizem, volvendo para o céu os olhos:

Já não brilhava a fulgurante estrela.

XXXVI

Sobre grosseira, escura manjedoura,

Em alvos panos envolvida estava

Rósea criança; — à cabeceira um anjo

Mudo e severo, — aos pés Maria a santa.

Predileta do Eterno, o esposo ao lado,

À roda pobres, tímidos pastores.

Quando o indeciso olhar, porém, fitaram

No anjo que velava à cabeceira,

Reconheceram pasmos — o enviado

Que os visitara na sombria torre!

XXXVII

Prostremo-nos! — bradaram, e adoremos

Do Rei dos reis o sacrossanto Filho!

Louvemos o Senhor que nossa vida

Encheu de glórias, e espancou as sombras

Dos erros infernais que nos cercavam!

Glória ao único Deus, onipotente!

E abrem os cofres recheados de ouro,

Que aos pés colocam da criança augusta.

Derramam das navetas primorosas

Sobre o fogo vivaz o incenso e a mirra;

Lançam por terra os mantos e os adornos,

Curvam-se e adoram cheios de humildade

O filho de Maria. Os pegureiros

E os rudes camponeses que cercavam

A negra estala do divino Infante,

Como se a voz de Deus soasse perto,

Ajoelham-se trêmulos e entoam

Religiosos cantos — Ah! não foram

Os sátrapas das cortes do Oriente,

Cobertos de veludo e finas sedas,

Nem do Ocidente os príncipes soberbos

Seguidos de pomposa comitiva,

Os que desceram de seus áureos paços,

E saudaram de Cristo o nascimento!

Oh! não! Foram os pobres e os humildes,

Os simples corações, os gênios simples,

Aqueles que ele amou, que procurava,

E sempre defendeu contra a injustiça,

E a tirania indômita dos grandes!

XXXVIII

Mas o tempo voraz que não descansa,

Que embala os berços, que os sepulcros abre

Em um relance d'olhos, implacável

Seu giro continua. Aconselhados

Por celeste visão, voltam os Magos

Às regiões natais, menosprezando

O astuto aviso e o pérfido conselho

Do tenebroso Herodes, que esbraveja

Vendo-se deste modo postergado.

Para o Deus criador, justo, infinito,

Não existe passado nem futuro:

Tudo é — hoje, hoje sempre. — A eternidade

Forma o dia divino, mas o dia

Que não teve alvorada e não tem noite.

Era chegado o Salvador, — o Verbo,

A fecunda e suprema Inteligência,

A verdadeira luz: — de novo o mundo

Ia sair das trevas que o cercavam.

O santo mensageiro se apresenta

Novamente a José: — Toma a criança,

Ampara a virgem mãe, busca o caminho

Do hospitaleiro Egito; os dias negros

Do malfazejo Herodes são contados.

Quando a terra cobrir seus frios ossos.

Voltarás ao país de teus maiores;

Parte. — E dizendo assim, volta de novo

Aos paços do Senhor, d'onde baixara.

XXXIX

À segunda vigília de atra noite

Calça as sandálias de jornada, empunha

O bordão de romeiro o santo esposo,

Une ao seio o menino, e acompanhado

Da virtuosa, cândida consorte.

Busca dos Faraós o vasto reino.

XL

.........................................................................

Calou-se o pio Mestre. A madrugada

Vinha nascendo lúcida e serena,

Bela como a ilusão de um belo tempo,

Como um sonho da infância entre as tristezas

De frios desenganos. O deserto,

Que a noite povoara de duendes.

Festivo despertava. Um oceano

De purpurina luz, enxameado

De milhares de nuvens multicores

Ganhava o firmamento. A mata virgem,

Enamorada do clarão celeste,

As primícias das flores orvalhadas

Parecia ofertar-lhe. A loira abelha,

O colibri mimoso, a borboleta.

Ligeira amiga das silvestres flores,

Cruzavam-se volúveis, adejando

Sobre as folhagens úmidas de orvalho.

Mais longe, à margem de pequeno lago,

A garça branca, o tímido flamingo,

A travessa narceja, se banhavam,

Brincando entre as lustrosas espadanas.

XLI

 — Irmãos, é dia! — o missionário exclama,

— Adoremos o Eterno! — Obedientes

Curvam-se os filhos do deserto e oram,

Repetindo em voz alta as santas rezas

Que lhes ensina o venerando mestre.

Levantam-se depois, e aos ecos soltam

A saudação Cristã. — Ide tranquilos,

Ide em paz, meus irmãos, lhes diz afável

O amigo, o benfeitor, — finda a semana,

No dia do Senhor voltai de novo:

Guardai no coração e na memória

O nome de Jesus, — pronunciai-o

Quando a aurora raiar, quando mais alto

Brilhar o sol no imenso firmamento,

E quando a noite entristecer os vales!

Que este nome divino vos console,

Vossos atos inspire e vos proteja!

XLII

A multidão retira-se. Entretanto,

Uma singela filha das florestas,

Uma criança tímida, mimosa,

Bela como a inocência, pensativa

Senta-se à porta da tristonha ermida,

E considera atenta e longamente

A imagem do Senhor, onde repousa,

Como um olhar de amor e de piedade,

O suave clarão da madrugada.

 — Naída! — Padre, vos espero, vamos.

 — O que fazias, filha? — Me lembrava

Dessa criança que saudaram anjos

No pobre, escuro berço, e considero

Esta imagem sanguenta, descarnada,

Coberta de feridas horrorosas!

Responde a ingênua, cândida menina,

Ao caridoso mestre. — Oh! que bem fazes!

Diz este amargamente, — os sábios todos

Se assim pensassem quando os livros volvem,

E buscam monumentos no passado,

E perdem-se em audazes conjecturas,

Mais felizes seriam!... Vamos, filha.

Levanta-se Naída, e ambos caminham

Para a afastada, mísera choupana,

Onde a mãe da inocente, cuidadosa,

Grosseira refeição prepara, e espera

A delicada filha e o sábio mestre.

 — O sol nascente as selvas ilumina.

 

CANTO II

Este é o mesmo de quem eu disse: depois de mim vem um homem que me foi preferido, porque era antes de mim. E eu não o conhecia, mas por isso eu vim batizar em água, para ele ser conhecido em Israel.

(João I, v. 30, 31).

I

Das grandes catedrais nas altas torres

O sol Oriental bate festivo,

Dourando as primorosas esculturas

E as frechas atrevidas; jubilosos,

Os sinos colossais o espaço abalam,

Chamando o rico e o pobre, o fraco e o forte

Ao templo do Senhor. As oficinas,

Tornam-se mudas, mudas as roldanas,

A bigorna e a forja, a lima e a serra;

Depõe a enxada o honrado jornaleiro;

A menina do povo a agulha esquece;

Esquece o proletário as dores íntimas.

Deixam os lares, correm às Igrejas,

Aos públicos jardins, às belas praças,

Às risonhas campinas dos subúrbios.

Aqui, à fresca sombra das nogueiras,

Dançam ao som de rústico instrumento

Guapos mancebos, vivas raparigas;

Ali, sentados sobre toscos bancos

À porta da espaçosa hospedaria,

Os mais velhos praticam gravemente;

Mais longe, alegre chusma de crianças

Retorcia-se na relva aveludada.

Tudo descansa, folga e se diverte

No dia memorável do domingo;

Tudo, exceto o mesquinho encarcerado

Na fétida prisão, o pobre enfermo

Sobre o leito de angústias e martírios,

O esquálido avarento, fascinado

Pelo demônio do ouro, e o ente impuro,

Aleivoso, cruel, irmão da serpe,

Herdeiro de Caim, — sócio de Judas!

II

Mas os filhos das selvas não conhecem

Marmóreos torreões, sonoros bronzes,

Áureos altares, santuários ricos;

Não tem jardins, nem primorosos parques,

Calçadas ruas e adornadas praças.

O deserto é o templo, os astros círios,

Aras os montes, e sacrário o peito,

Depois... a natureza e a liberdade!

III

Qual medonho leão da Líbia ardente,

Quando deixa a caverna onde pousava,

E saindo às planícies requeimadas,

Para, sacode a juba e mede o espaço,

Enquanto, ao longe, as tímidas girafas

E os poldros aterrados, pressentindo

Das brenhas o senhor, bufam, relincham,

E arrojam-se velozes pelos ermos:

Assim o sol na extrema do horizonte

Majestoso aparece, e expele as sombras

Filhas da noite e do terror escravas.

Um novo dia os seres ilumina:

Belo, nos trouxe a claridade, belo

Seria se as tormentas o obumbrassem!

Salve, dia sagrado! Branca folha,

Macia, perfumosa e acetinada

Do calendário dos Cristãos! Sublime

Intermédio de paz e de repouso

Do poema brilhante do universo!

Cada sol, que te aclara, é círio amigo

No altar da natureza, que recorda

O complacente olhar do Onipotente,

Quando, formando a terra, o mar e os astros,

Os pássaros do céu, do ermo as feras,

Os monstros dos abismos e o terrível

Bruto que fala e pensa, concentrou-se

Na iminensidade da divina essência!

 — Salve, Bendito dia do domingo!

IV

Simples, formoso altar, limpo, e coberto

De alvíssima toalha, erguido à sombra

De graciosa tenda, entretecida

De lianas sutis e verdes palmas,

Avulta ao lado da pequena ermida.

Junto aos círios acesos, débil, frouxa,

A brisa da manhã volteia e brinca;

Sobre o missal fechado, estende as asas

Mimosa borboleta azul-celeste,

Alada flor do mato; aos pés da imagem

Sanguenta de Jesus, voa e revoa

Esperto colibri. Cantam à roda

Sonoros sabiás, e o manso vento,

De quando em quando, suspirando, passa,

E o chão alastra de cheirosas flores.

O ministro de Deus medita e ora

Na sossegada ermida; um velho padre,

De longa barba e descorado rosto,

Antigo companheiro, hoje de volta,

Sentado à porta sobre dura pedra,

Folheia grossa Bíblia; de joelhos

A seu lado, Naída, atenta e muda,

Considera as gravuras primorosas

Do mais belo entre os livros conhecidos.

V

Dos quatro pontos cardeais, aos poucos,

Arem chegando os fieis: — o velho imbele

Pelo filho amparado, — o infante frágil

Sobre os ombros do pai, — tristes extremos!

A mocidade alegre; a meia-idade

Séria e calada. O caçador das brenhas,

O sagaz armador de finos laços,

Trazem para o banquete o mantimento;

As matronas severas, doces frutos,

Saudáveis confeições; flores as virgens;

Delicadas ofertas as crianças.

A multidão recresce, a ordem reina.

VI

Mas, à porta da ermida, majestoso,

Trajando as sacrossantas vestimentas,

Sustendo o argênteo cálix, e seguido

Do velho companheiro, o missionário

Aparece, e caminha lentamente

Para o singelo altar. Longo sussurro,

Semelhante ao das ramas da floresta

Às primeiras rajadas da tormenta,

Corre entre as turbas, as mais altas frontes

Curvam-se, como as hastes da cecrópia,

Quando sopram do Norte os frios ventos.

Depois tudo emudece: ouve-se, apenas,

O brando ciciar da aragem mansa

Nos taquarais viçosos, os queixumes

Do cristalino arroio entre pedrinhas,

E a voz grave, solene e vagarosa

Do sábio do Evangelho, repetindo

As palavras do santo sacrifício.

Quadro sublime! Encantadora cena!

Era assim, ao ar livre, à luz suave

Do céu da Galileia, nas encostas

De relvosas colunas, ou nas margens

Verdes, risonhas, de serenos lagos,

Que o Homem do Martírio doutrinava

As multidões humildes que o seguiam!

Era à sombra dos altos sicomoros,

Junto das fontes gemedoras, longe

Dos rumores das praças, que os mais nobres

Os mais santos preceitos resvalavam

De seus lábios divinos! Seus olhares

Prezavam as campinas e os outeiros,

As cabanas dos vales sossegados,

O retiro dos bosques, e a beleza

Do firmamento azul, vaga e profunda!

Era da natureza nos altares

Que elevava su'alma ao Pai Celeste!

VII

Ardem fogueiras: — terminada a Missa,

Aviam as mulheres o banquete;

De lado a lado correm as crianças

Trazendo o musgo, as parasitas rubras

Do cimo dos rochedos, e as mais lindas

Frutas e flores das escuras matas,

Que aos pés do sábio mestre depositam;

Os homens reunidos junto à ermida

Discorrem seriamente; as moças cantam,

Não as lendas das tabas belicosas,

Mas da Musa Cristã saudosos hinos.

VIII

Acabado o banquete, farto e simples,

Depois de alguns momentos de descanso,

Ergue-se o missionário, avisa o povo,

E continua do Senhor a história:

 — Quando da aurora a doce claridade

O passado serão interrompeu-nos,

Eu vos contava, irmãos, deveis lembrar-vos,

Da Sagrada Família a retirada

Para o famoso e celebrado Egito,

Fugindo às iras do cruento Herodes.

Silêncio! E como sempre, ouvi-me atentos:

 — É morto Herodes. Arquelau governa

O desgraçado povo Israelita;

Cessam as sanguinárias diligências

Que seu pai ordenara: estulto conto,

Sonho falaz, a plebe e o rei vaidoso

Julgam dos sábios Magos as palavras.

O mundo está tranquilo, a paz Romana

Por Augusto instaurada, permanece

Deslumbrando as nações. Quem nesses tempos

De festas triunfais, brilhantes feitos,

Justas do gênio, exaltação das artes,

Poderio supremo: quem voltara

De tanto luxo, e gala, e pompa, e glória„

Os olhos receosos, timoratos,

Para ir buscar no meio do vulgacho

Da mais pobre província, uma criança,

Que gentios boçais apregoaram

Rei de Israel, destruidor dos thronos,

Inimigo dos Césares? — Tranquila,

Volta, pois, a Família abençoada

Da terra estranha à suspirada pátria.

IX

Correm semanas, meses, correm anos,

E o menino formoso e delicado,

A quem seus nobres pais deram no exílio

O nome de Jesus, torna-se forte,

Avisado e gentil. A etérea calma,

A candura dos anjos, resplandecem

Em seu rosto adorável; a prudência,

A graça, a discrição, em belas máximas

Dimanam de seus lábios. A doçura

Da palavra eloquente, os gestos meigos,

A expressão inefável dos olhares,

Cativam corações, que ardentes buscam,

Além daqueles dotes felicíssimos,

Um — que — de estranho e grande, que presentem

E os enche de alvoroço!... — Asas, quem sabe,

Ligeiras, invisíveis, se recurvam

Sobre aquelas espaduas! Misterioso,

Vedado aos olhos dos mortais, descansa,

Talvez, o diadema do Infinito

Sobre aquela cabeça imaculada!...

Dois lustros tinha apenas e dois anos,

Quando em Jerusalém seus pais zelosos,

Finda a festa da Páscoa, o procuravam,

Que a seu lado o não viam, — assombrados,

Foram achá-lo em meio de doutores,

Dos livros de Moisés volvendo as folhas,

Reduzindo ao silêncio os mais sagazes

E velhos sacerdotes. Tão profunda,

Tão vasta sapiência então mostrava!...

Dos serões estivais, das quentes sestas,

Dos folguedos do povo, ingênuo e simples,

Era Jesus o mimo, o encanto, a vida;

As jovens mães paravam junto à porta

Do pobre carpinteiro, e contemplavam

Suspirosas, a cândida criança:

 — Feliz aquela cujos seios puros

Te aleitaram, — diziam; outras vezes,

Traziam seus filhinhos inocentes

Para ouvirem o lindo companheiro,

Folgar com ele pelos verdes prados,

Crendo, oh! divina fé! que a inteligência,

A graça, a mansidão, a ingenuidade

Do afortunado, loiro Nazareno,

Passassem a seus tímidos amigos.

Longe, porém, de se entregar incauto

Aos loucos brincos dos primeiros anos,

Ou simular austeridade imprópria

Da ridente estação das esperanças,

Ele enchia de amor e de alegria

Tudo quanto o cercava! Seus olhares

Fariam desbrochar na sombra os lírios,

Cantar os maviosos passarinhos,

Que, do basto arvoredo, vinham mansos

Pousar sobre seus ombros! As torrentes,

As virações ligeiras, e os rumores

Dos silvados espessos, a seu gesto,

Das harpas e saltérios imitavam

As harmonias ternas e saudosas.

X

Como as rosas de um dia, como as flores

Da anêmona do monte, os anos passam

Da sonhadora infância; o Justo, o Santo,

Curva-se à lei fatídica do tempo:

Cede o lugar ao homem a criança.

Quinze anos havia que subira

Ao trono imperial Tibério César,

O abutre dos Romanos; governava

Outro sinistro Herodes a risonha,

A verde Galileia; eram os grandes,

Os príncipes, então, dos sacerdotes

Anás e Caifás, entes perversos,

Mercadores sacrílegos do templo.

Cruel como o primeiro, e mais doloso,

Nos vícios mais vezeiro, era o segundo

Senhor da Galileia, astuto Herodes:

Criatura sem crenças, sem virtudes,

Quebrando a fé jurada a cada instante,

Desprezara a prudente e fida esposa,

Filha do rei da Arábia, e fascinado

Pelos encantos pérfidos, lascivos,

Pelo amor criminoso de Herodias,

Mulher de seu irmão Filipe, cego,

Da casa do marido a arrebatará,

E com ela vivia em seu palácio.

XI

Ora, naquele tempo, dos desertos,

Das regiões incultas, que se estendem

Para o Setentrião, onde só vivem

Sinistros corvos, esfaimadas águias,

Venenosas serpentes; onde as pragas

Das eras de Moisés passam ainda

Pejando as soledades de terrores;

Das estâncias fatais, onde nem pousam

Do velho mundo as tribos forasteiras,

 — Implacável censor, áspero Mestre,

Desceu pregando às turbas depravadas

A palavra de Deus, chamando os homens

Às fontes do Batismo. Era mancebo,

Entrava na estação próspera e bela,

Em que o farol brilhante da esperança

Clareia até o fundo dos abismos;

Em que os prazeres, as paixões fogosas,

O vivo imaginar, a terra e as cousas,

Fáceis, transformam num jardim de fadas;

Entretanto, seu vulto e seu aspecto

Eram a encarnação, lúgubre e triste,

De tudo quanto há rígido, severo,

Acerbo e rigoroso neste mundo!

Duro couro de velho dromedário

De manto lhe servia, duro couro

Encarquilhado, cru, preso às ilhargas,

Servia-lhe de cinto. Era sozinho.

Não trazia sandálias, nem guardava

Dos rigores do sol a fronte altiva.

Tinha o rosto trigueiro, o corpo magro,

Crivado das picadas dos insetos,

Dos agudos espinhos dos silvados;

Habitava os fraguedos e as cavernas,

E passava seus dias meditando

Nas leis do Criador. Seu alimento

Era o silvestre mel, e os gafanhotos,

Que em densas nuvens, dos sertões da Síria

Baixavam da Judeia aos tristes campos.

João Batista chamava-se. Movidas

Pela eloquente voz, pelas doutrinas

Desse inspirado e ríspido mancebo,

E mais ainda pelo santo exemplo

Do santo proceder, de toda a parte

Vinham as gentes confessar-lhe as culpas,

E receber as águas do Batismo.

Era como o gigante dos profetas,

Como o assombroso Elias.

 — Raça impura!

Raça de negras víboras! — dizia

Aos fariseus e saduceus perversos,

Que divisava entre os humildes crentes:

 — Quem avisou-vos de fugir à cólera

Prestes a rebentar? Produzi frutos

De santa penitencia, e não, vaidosos,

Vos julgueis de Abraão diletos filhos!

Oh! filhos de Abraão serão as pedras,

Se o Senhor decretar! D'árvore ao tronco

Vejo inclinar-se o gume do machado:

A planta estéril cairá por terra,

Será lançada ao fogo!

 — O que faremos? —

Perguntavam-lhe as turbas ansiosas.

 — Sede puros, humildes, compassivos;

Se duas vestes possuís, dai uma

A vosso irmão mendigo; Si estais fartos,

Chamai-o à vossa mesa. Nunca pouse

A mentira e a calúnia em vossos lábios,

Nem oprimais, se poderosos fordes,

Os vossos semelhantes. Na verdade,

Com água vos batizo, mas não tarda

Alguém, alguém maior, cujas sandálias

Indigno sou de desatar, conheço!

Esse no Santo Espírito e no fogo

Vos há de batizar! — O povo insonte

Enleado escutava estas palavras.

XII

Um belo dia, ao alvejar d'aurora,

Às verdes margens do Jordão sagrado,

Entre as turbas solicitas, zelosas,

Que do Batista às vozes acudiam,

Veio também Jesus. Surpreendido,

Turba-se aquele: — Quem sou eu! exclama,

Para esta glória merecer! — Minh'alma

Devera ser por ti purificada,

Senhor! e tu me buscas!...

 — Não te inquietes,

Responde-lhe Jesus, — faze o que digo;

Quero plena justiça: é necessário

Que de minha pessoa o exemplo parta. —

Estas razões ouvindo, João Batista

Inclina-se e obedece. Oh! mas, apenas

Das águas do Jordão as gotas frias

Molham a fronte santa, as nuvens róseas

Afastam-se, quase trêmulas cortinas

Que vendassem o Empíreo, os céus se entreabrem,

E o Espírito de Deus, rasgando os ares,

Sob a corpórea forma de uma pomba,

Desce até o Senhor! No imenso espaço

Faz-se ouvir uma voz altissonante:

 — Eis o meu Filho muito amado! Nele

Hei posto minha eterna complacência!

XIII

Depois desta solene cerimônia,

Jesus deixa o Batista, o povo deixa,

Deixa os vales amenos, as campinas

Das bordas do Jordão, e solitário,

Imerso em pensamentos insondáveis,

Busca o deserto, as solidões agrestes,

Que para as bandas do Emaús se estendem.

João continua as prédicas severas.

XIV

Quarenta dias e quarenta noites,

No seio estéril de profundos ermos

Passou o Filho augusto de Maria

Um jejum rigoroso, em longas preces,

E vastas reflexões! Quarenta dias

Gastou no isolamento, assim mostrando,

Quanto o retiro e a paz, quanto o sossego,

As preces e orações são necessárias

Sempre ao começo das missões pesadas.

Quarenta dias e quarenta noites

Velou, sofreu, chorou, pediu o auxílio

De seu Eterno Pai! Depois... Mistério!

Semelhante aos mais homens, sentiu fome!

Então da sombra de espinhosa sarça,

Sinistra e pavorosa levantou-se,

Maculada de sangue, e lodo e cinzas,

Negra, hediondamente mutilada

De Satanás a esquálida figura!

 — Se és o Filho de Deus, zombando fala,

Ordena que estas pedras se convertam

Em outros tantos pães. — Jesus responde,

Fazendo estremecer o negro gênio:

 — Não só de pães os homens se alimentam,

Mas também das palavras que procedem

Da boca do Senhor! — Medonho riso

Partiu dos lábios do rebelde arcanjo,

Ouvindo esta sentença; pertinace

Continua, porém, tentando o justo,

E por fim o conduz ao alto cimo

De escarpada montanha, onde descansa;

Estende para o espaço a mão tisnada,

E com voz temerosa assim lhe fala:

 — Jesus de Nazaré, olha, contempla

Essas grandes nações, esses impérios,

Que brilham a teus pés, como os desenhos

Da um mapa gigantesco, iluminado

Por quantos sóis existem. Ao Levante

A portentosa China se dilata

Pelas terras de Sem, maravilhando

Com sua profusão, luxo e grandeza

Os estados do mundo, conhecidos.

Não guarda o tempo a mínima lembrança

De sua fundação, nem fala a história

Das dúbias tradições de seu passado.

Calam-se os reis, os sábios emudecem,

Considerando a antiguidade e a glória,

O poder e a opulência desse povo

Fastoso e original. Vê que províncias,

Que cidades extensas! Que muralhas

Rijas e monstruosas! Que palácios

Pomposos e soberbos! O granito,

O alabastro e o mármor de mil cores

Fulgem à luz do sol sobre os zimbórios

Dos tempos colossais; o ouro, a prata,

Os lúcidos cristais ornam as salas

Dos nobres alcaçares. Pelas praças,

O cetim, o veludo, o linho, a seda,

Os mais finos tecidos, que o Ocidente

Jamais imitará, rolam sem preço.

As angras desiguais, os fundos portos,

Os caudalosos rios, são pejados

De guerreiros baixéis, juncos mercantes.

 — Além — surge atrevido à flor dos mares

O vaidoso Japão; três grandes ilhas

Abrange seu domínio. Irmão nos usos,

E rival no esplendor, não tem, contudo,

Tão vasto território, e tanto povo

Como a pátria das sacras tartarugas,

Dos alados dragões. — Deixa a península

Mais extensa do sul, transpõe o golfo

Sereno, azul sombrio de Bengala:

 — Eis a sublime Ofir dos patriarcas,

O berço de Vishnu, de Shiva e Brahma,

A índia adusta, a inesgotável fonte

De etérea poesia, a grande mina

Das maiores riquezas do universo.

A seus pés, como a nítida esmeralda,

Caída do colar de soberana,

Jaz a verde Ceilão, mimo das águas,

Paraiso dos nautas levantinos.

 — Agora considera a bela Pérsia,

O vergel de Bulbul, plumoso amante

Da rosa purpurina; o doce asilo

Das fadas e princesas encantadas,

O antigo reino de Dario e Xerxes;

Tão vistosos jardins, fontes tão frescas,

Aves tão lindas, tão risonhas veigas,

Não doura o sol Oriental; as graças,

O gênio, o amor e a glória, abençoaram

Do velho Zoroastro a descendência...

 — Ali está Babilônia, — além a Pártia, [2]

Depois a Média, — a tenebrosa Assíria,

A Caldeia sombria, a Bactriana,

Abortos sociais, mesclas sinistras

De riqueza e poder, de luz e trevas,

De esplendor e miséria! À roda giram,

Sobre os mares de areia do deserto,

Hostes errantes, indomáveis povos,

Torvos herdeiros dos cruentos citas...

Ao meio-dia estende-se, apertada

Pelo Vermelho-mar e mar da Pérsia,

A rica, celebrada e livre Arábia.

Os suaves perfumes que vaporam

Os braseiros reais, os finos óleos,

Os bálsamos propícios, eficazes,

Que os feios golpes de cortantes ferros,

E as fundas chagas dolorosas curam,

Saíram de seus bosques; os mais fortes,

Mais ligeiros corcéis, que conquistaram

No campo da batalha, ou na carreira

A palma da vitória, por seus campos

Nitriram soltos, lestos e bravios...

 — Volta-te agora para o Norte, a Síria

Desdobra-se risonha, limitada

Ao Oriente pelo ameno Eufrates,

Pelos montes de Elão, ao Ocidente

Pelo mar Interior... Desde o reinado

De teu avô Davi, cruentas guerras

Fez sempre ao povo hebreu. Em seu circuito

Levanta-se Antióquia a hospitaleira;

Depois Damasco, a rosa do deserto,

Tear imenso das mais finas sedas,

Grande oficina de polidas armas;

Ao longe Tadmor, a obra-prima

Do sábio Salomão, deleita a vista

Dos cansados romeiros: — Heliópolis

A denominam hoje os peregrinos.

Desde Abila até Chaleis, desde as bordas

Do Orontes cristalino, até os vales

Que forma o grande Líbano, repara,

Quantas lindas cidades, quantas vilas,

Quantos casais e herdades derramados!..

 — Ao lado ocidental, próxima às ondas

Do buliçoso mar, ergue-se altiva

A próspera Fenícia, o grande empório

Do comércio do Sul e do Levante.

Foram seus filhos os primeiros nautas

Que afrontaram as ondas do oceano,

E as colunas de Hercules vingaram;

Foram seus filhos os primeiros mestres

Que o manejo das velas conheceram,

E a direção dos ventos, e a maneira

De computar as horas e as distâncias.

Em seus amplos depósitos e fábricas,

Vão procurar cativos mercadores

A púrpura que tinge os régios mantos,

E a madeira do Líbano, tão cara,

Para os tronos dos príncipes da Europa,

E para os templos de seus deuses mudos...

 — Deixa o mundo de Sem. Preso a seu flanco

Por uma nesga de terreno apenas,

O patrimônio de Caim se estende,

E espanta os continentes. Nos rochedos

De seus montes lavrados pelos raios,

O epitáfio da glória e do progresso

Avulta em letras hórridas; nas bordas

De seus rios malditos, se reúnem,

Sócios dos crocodilos e das boas,

Sinistros nigromantes, rudes magos,

Ervanários fatais que a morte plantam,

E o desespero vendem. Nos ladrilhos

Dos caídos palácios de Sesóstris,

Latem anúbis, adorados perros;

Broncas esfinges de granito rubro

Erguem dos areais a fronte morna,

E consideram mudas e surpresas

As gerações que passam... por seus lábios

Fala dos Faraós o gênio às vezes.

No fastígio das lúgubres pirâmides,

Delírios de grandeza, o feio abutre

Lança um grito de fero desafio

Às serpentes do Nilo. Não te agrada

Este escuro painel? — Bem, volve os olhos

Para a ruidosa Europa, o ilustre berço

Dos filhos de Jafé.... Oh! como airosas

Surdem à flor das vagas transparentes

As verdes ilhas da formosa Grécia!

São cestinhas de flores delicadas,

Que em momentos de ócio e desenfado

Soltara a natureza sobre as águas

Nos tempos primitivos; são risonhas

Constelações de mundos pequeninos,

Sobre a escuma dos mares flutuando,

Matizados de vinhas e olivedos,

Povoados de Sílfides lascivas

E fagueiros tritões. Naquelas praias,

Sobre aquelas colinas, coroadas

De mirto e de açucenas, largas horas

Cismaram Safo, Anacreonte e Mosco,

Teócrito e Bion, meigos cantores,

Amigos dos outeiros e dos vales,

Da vida pastoril. Quios e Samos

Coreira, Paxos, Ítaca, Zacinto,

Pátrias de heróis preclaros, se derramam

Quais leves, graciosas borboletas,

Sobre o sereno mar. Além, avultam,

Citera, o asilo da mimosa Vênus,

Chipre, o lagar dos vinhos os mais puros,

Creta, a prisão do Minotauro, — Egina,

Imbros, Siros, Eubeia, e centenares

De perfumados, lúcidos abrigos,

Gratos aos olhos, ao prazer propícios.

 — A terra gloriosa, a terra clássica

De Sócrates, Platão e de Aristóteles,

Inimitáveis sábios, se levanta

Vedando a luz ao Bizantino império.

O farol das nações, o insigne templo

Da beleza real, do gênio o berço,

A luminosa Atenas, lá descansa

No meio de prodígios. A seu lado,

Esparta, a destemida, encara ufana

A férrea estátua de Licurgo, e zomba.

Dos povos do Universo. Além, agita

O manto de florestas viridantes

A áspera Tessália: de seus montes

Os fundos ecos, abalados sempre,

lnda repetem de Alexandre o nome!..-

 — Filha e senhora, imitadora e mestra,

Ao flanco ocidental da Grécia ilustre,

Espreita os gestos das nações vizinhas,

Sequiosa de sangue, a grande Roma.

Tudo o que abrange seu olhar nefário

De negra escravidão conserva o selo!....

 — Mais longe, a linda e deleitosa Ibéria,

Fértil em doces pomos, estremece

Como se alma tivera, pressentindo

Nos sucessos proféticos da história,

Da Lusitânia o esplêndido futuro....

 — Além, vingando cerros que a limitam,

Avulta a Gália transalpina, escrava

Outrora dos gauleses e ligúrios,

Celtas e volcos, e dos francos hoje;

Quando o pesado ferro da charrua

Passar por esses campos desprezados,

Quando o martelo, a serra e as alavancas,

O cinzel e o malho ressoarem,

Afugentando o ócio das cidades,

Será dos povos do Poente o mimo.

Um lidador da têmpera de César,

Do gênio de Alexandre o Macedônio,

Da tenda de soldado irá sentar-se

No trono das antigas dinastias.

Tirano e popular, grande e mesquinho,

Magnânimo e baixo, escuro misto

De fereza e bondade, calma e raiva,

Ódio e clemência, de seus paços áureos

Fará tremer o mundo!... Retalhada

Por imensos marnéis, valas imensas,

Da Gália ao Norte estende-se a Batávia:

Herdeira da Fenícia, seus pilotos

Por virgens mares e remotas praias

Desfraldaram audazes, denodados,

O pátrio pavilhão... Mudas, nublosas,

Ao lado ocidental da Gália forte.

Surgem altivas das sombrias ondas

As ilhas da Britânia. A liberdade,

O poder, o comércio, a indústria, as artes.

Terão ali seu pouso predileto,

Quando rotas as bátavas bandeiras

Dos mastaréus caírem. Seus governos

Quebrarão as cadeias opressoras

De milhares do servos: sua esquadra

Será dos mares soberana... Ao longe,

Nos climas boreais entre neblinas

Ergue-se a Escandinávia, a rude filha

Das tormentas polares; depois dela,

A terrível Sarmátia se prolonga

Do Norte ao Meio dia dominando

A Europa oriental...

Por um momento

Guarda silêncio o gênio dos abismos:

Volve rápido olhar ao mar profundo,

Aos claros horizontes, e prossegue

Mostrando àquele, a cujos pés os reinos

Jazem como torrões, onde se movem

Os bichinhos do pó, — as várias zonas,

As regiões incultas, mas repletas

De auríferos tesouros, os impérios

Fortes e populosos, explicando

Sua origem, seus usos, seus costumes,

Seu lugar no porvir; depois se curva,

Estende a mão tisnada e denegrida

Para as remotas linhas indecisas,

Onde as águas e as nuvens se confundem:

 — Olha — Rei dos Judeus — Rei sem coroa,

Sem cetro e sem vassalos, olha! — exclama.

Oh! maravilha! O túmido Oceano

Torna-se firme, liso, alvinitente,

Como se de seu rumo transviada,

Longe do amigo sol, se congelasse

Toda a terráquea esfera! As sombras fogem,

O horizonte ilumina-se: milhares

De delicadas, vaporosas ínsulas

Pejam o azul puríssimo do espaço,

Quais flutuantes, primorosos ninhos

De brancos cisnes e alcions errantes;

E além, além, na solidão dos mares,

Aparecem os píncaros formosos

De vastas serranias, os ligeiros,

Esbeltos vultos das palmeiras altas,

Cujas copas virentes enlaçadas

Balançam-se nos ares, como as plumas

Vistosas dos pavões; as verdes selvas,

As campinas, e as praias alvejantes,

Como as túnicas brancas das armênias

À beira das torrentes estendidas;

E, qual no dia primo do Universo,

O mundo desbrochando à voz do Eterno

 — Um novo mundo brota do Oceano.

A terra e o mar, o mar e o firmamento,

Saúdam no seu berço de princesa

A jovem filha da imortal Cibele.

Lança-lhe aos pés o mar pérolas finas,

O céu acende as lâmpadas dos trópicos,

A terra esparge as flores mais cheirosas

Que produzem as maltas e os outeiros.

Se uma ilusão não foi, não foi um sonho,

Nem de um grande poema o belo esboço,

Essa fecunda região, chamada

 — Terra da promissão — descrita outrora

Pelo exímio Moisés, oh! certamente,

É nesses climas, sem iguais no globo,

Que ela deve existir!... A luz etérea

Inspira os passarinhos maviosos;

Acorda o reino mágico das flores

Irmãs dos colibris, que dão fagueiras

À viva abelha o mel, o aroma ao vento;

Beija os lagos de anil, e nas espumas

Das torrentes raivosas do deserto,

Serena transparece e amortecida,

Como vendada pelas asas brancas

De uma volúvel multidão de cisnes,

Que adejassem às bordas dos abismos.

Semelhantes aos príncipes fastosos

Das histórias do Irã, por toda parte,

Onde passam seus rios opulentos

Lançam de lado a lado ouro e diamantes.

A beleza, o prazer, a paz, o júbilo,

O ar festivo, a juvenil frescura,

A louçania dos primevos tempos,

 — Essa irradiação da natureza —

Virgem ainda, ainda soberana,

Não pelos homens profanada, — brilham

No azul do céu, na solidão das matas,

Nos fastígios dos montes, nas correntes

Dos arroios queixosos, e amenizam

Os livres campos, as aldeias livres,

Os livres lares de uma raça ingênua,

Senhora das florestas. — Indulgente

Jesus contempla o grandioso quadro,

Meigo sorriso os lábios lhe descerra,

Doce expressão de amor e de bondade

Anima-lhe o semblante. — Considera,

Prossegue Satanás, esse prodígio

Que dos seios das águas se levanta,

Igual aos sonhos das empíreas sestas.

Nenhum rei dos antigos continentes

Conhece-lhe a existência, nenhum padre

Das crenças todas que os mortais cativam,

Aí pregou as rígidas doutrinas;

Mundo esplêndido e forte, ao longe dorme,

Feliz, desconhecido dos tiranos,

E dos servos de Plutus, cobiçosos,

Entregue à eterna lei da Providência!

 — Pois bem, tudo o que viste e vês ainda,

Reinos, impérios, territórios vastos,

Regiões fecundíssimas, tesouros

Para comprar os tronos do Universo;

A força, o poderio, a fama, a glória,

Tudo, tudo te dou, se engrandeceres

Meu nome, pelos séculos maldito!

Se beijares meus pés, se reverente,

Prostrado sobre a terra me adorares! —

Ruga severa apareceu na fronte

Serena do Senhor, estranho lume

Correu no santo olhar.

 — Impuro gênio!

Responde, e se levanta, — escrito existe:

A Deus adorarás, a Deus somente

Humilde servirás! — Então, ouvindo

Este preceito memorando, eterno,

Que das sombras do tempo despertava

Negras lembranças de medonha culpa,

Sentindo ainda na cabeça horrenda,

Doerem as feridas incuráveis

Que os raios vingadores produziram;

Satanás emudece, abaixa os olhos,

Um momento depois, tomando alento.

Prossegue opiniático: — Sossega,

Não mais te enfadarei, mostrando o quadro

Das nações e dos povos; se quiseres,

Te levarei mais perto.... — Quero, vamos!

Lhe responde Jesus. — Nos largos ombros

Satanás o sustém, sacode as asas,

Eleva-se do chão e ganha o espaço,

Atravessa veloz os densos ares,

Chega a Jerusalém, por fim, e para

No fastígio do templo: — Precipita-te

Daqui ao chão, se do Senhor és Filho;

Também escrito está, diz motejando,

Que as celestes, inúmeras falanges

Te ampararão nos braços protetores

Para que não tropeces, nem molestes

Os pés nas duras pedras!

 — Ouve, escravo

Da mentira, do orgulho e da impureza:

Teu Deus não tentarás, — também foi dito! -

Afasta-te do mim! — Jesus ordena.

 — Forçado então a obedecer, vencido

Por um poder maior, Satã se curva,

Lança medonho e furioso brado,

E some-se entre lúgubres negrumes,

Deixando o ar infecto e o espaço turvo.

Mas de todas as partes do horizonte

Brilhantes legiões de anjos excelsos

Surdem, batendo as asas alvejantes;

Deixam o firmamento, e circulados

De etérea claridade, ao mundo descem,

E prostram-se, cantando augustos hinos,

Aos pés do Salvador. Depois se ajuntam:

Uns inclinam as cândidas espáduas

Onde Jesus repousa; outros, alegres,

Abrem as amplas, perfumadas asas,

Formando um grande pálio, que protege

Dos rigores do tempo a fronte santa;

Os outros em falanges divididos

Buscam a vastidão, rasgam velozes

As nuvens purpurinas do Oriente,

Derramando às aldeias e cidades,

Aos agrestes casais e às pobres choças

As bênçãos do Senhor. Por fim, serenos,

Baixam remoinhando, e ledos param

Da Galileia nos ridentes vales.

XV

Mas o clarão da aurora inunda o espaço;

Apagam-se as estrelas, as neblinas

Deixando os altos montes, se desdobram

Em véus ligeiros pelos fundos vales;

Cantam os passarinhos, desabrocham

As flores odorosas dos silvados.

Está findo o serão, cala-se o padre,

Faz o sinal da cruz e se ajoelha.

Prostra-se o povo humilde, e repetindo

As palavras do mestre, pronunciam

As santas orações da madrugada.

 — Ide em paz, meus irmãos, Deus vos conduza,

 — Fala; depois se erguendo: — ide tranquilos;

No próximo domingo vos espero

Para seguir do Salvador a história.

A benção do Senhor vos acompanhe.

 — Um momento depois, sozinho e mudo

Retira-se ao modesto santuário.

 

CANTO III

Quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia e prega a paz, do que anuncia o bem, do que prega a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus está para reinar!

(ISAIAS LII V. 7).

I

Símbolo eterno! — Rutilante escudo

No pavilhão celeste suspendido,

Como um troféu divino! Astro dos astros;

Senhor das estações, glória do espaço!

Fonte da luz, da vida e da esperança!

Farol da criação!... Alfim te mostras

Nas raias do Levante, afugentando

Da noite infausta os lívidos espectros,

E as sombras vis, do crime protetoras!

Oh sol! Oh sol brilhante, sê bem-vindo!

II

Atra tormenta, inundação medonha,

Derribaram a mísera cabana

Do ministro de Deus. Pesados troncos

Boiam ainda nas barrentas águas,

Represadas nos úmidos algares,

Que as enxurradas do verão cavaram.

Os arbustos vergados, encobertos

De lodo e solta argila, restos guardam

De pobres utensílios, móveis pobres,

Pelo furor da enchente arrebatados

Ao triste eremitério. Galhos secos,

Combros de areia elevam-se nos sítios

Onde mais bela a relva vicejava:

Mas, sobre a fina areia e sobre o lodo,

Nem sequer um sinal de humanos passos!

Senhor! que é feito do piedoso mestre?

Por que no santo dia de teu nome,

Quando os ingênuos crentes se reúnem

Para ouvir tua história e teus preceitos,

Tudo está frio, desolado e morto?

Porventura... Mas não: como suaves,

Repassadas de amor e de humildade,

Sobem aos céus as maviosas preces

Dos singelos conversos! Ei-los juntos

No topo de um outeiro, ajoelhados

À roda do piedoso missionário,

Cantando teus louvores! Ruja o vento,

Estale o raio, o temporal braveje,

Vingue a enchente voraz os altos montes,

Que importa! O zelo vencedor do tempo,

A crença viva que produz milagres,

Farão novos sacrários, novas aras,

Onde as almas fieis, Senhor, te adorem!

III

Como bendito lenho, arca bendita,

Depois da horrenda convulsão das águas,

Sobre risonha, plácida montanha,

Leves, tênues vapores exalando,

Ao suave calor do sol propício,

Pequena choça, sobre verde cole

Tranquila se levanta. Ali não chegam

As escumas do rio intumescido,

Pôde ali meditar, dormir sem medo

O apóstolo feliz do Novo Mundo.

O céu é todo paz, frescura o campo,

Sossego o bosque umbroso, — a tempestade

Como um sonho passou, — ei-lo, de novo

Rodeado dos seus, o mestre ilustre,

A sagrada missão continuando.

IV

Depois dos costumados exercícios,

Dos alegres folguedos, não vedados

Pelo pio varão, a cujos olhos

Nunca o riso e o prazer foram delitos,

Quando os preceitos da moral não ferem,

 — À voz do mestre ajuntam-se os conversos

Guardam silêncio, esperam ansiosos

Da narração cortada o seguimento.

V

 — A divina jornada no deserto,

Do sagrado Batismo a cerimônia,

Os austeros jejuns, as penitências

Em triste soledade, e as execrandas

Tentações de Satã, — deveis lembrar-vos

Irmãos, repete o narrador, — contei-vos,

No passado serão; direi agora

Como deixou Jesus o isolamento,

E apresentou-se aos homens, ensinando

Os preceitos da lúcida doutrina.

Prestai-me ouvidos, sabereis prodígios.

VI

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Não mais insiste o rígido Batista

Ao povo israelita predizendo

A vinda do Messias; não, agora,

Agora que Jesus reconhecera

Como o filho de Deus, e anunciado

Por todos os profetas, o apresenta

Às multidões surpresas: — Vede, exclama,

Eis o cordeiro do Senhor, que afasta

Os pecados do mundo! Oh! sim, é ele,

De quem eu sempre disse, e em toda parte:

Depois de mim virá o preferido!

Virá quem era, e é, quem eu não via,

Quem batizei com água, aparelhando

A grande estrada, que trilhar devera! —

Estas palavras escutando, o povo

Que o Batista respeita, corre, apinha-se

À roda de Jesus; modesto e simples,

Ele, porém, retira-se a outros sítios,

E procura mais tarde, finalmente,

Da linda Galileia os frescos vales.

Dois amigos de João, seguem-no logo;

Depois Filipe o pescador, e o lhano,

Meigo Natanael, seu companheiro.

Foram estes paupérrimos mancebos,

Paupérrimos dos dotes da fortuna,

Porém ricos de amor e de esperança,

Limpos de coração, mansos e crentes,

Os primeiros discípulos de Cristo.

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VII

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Triste como um sorriso compassivo,

Entre prantos de amor e de saudade;

Triste como um olhar de despedida,

Como um adeus de amigo que se ausenta,

Quando de longe da arenosa estrada,

Pela última vez contempla as serras,

E as campinas natais: assim no espaço,

Do sol quase a sumir-se, o frouxo lume

Descansa inerencório sobre os tetos

Da tranquila Caná, cidade humilde

Da humilde Galileia; e nessas horas,

Quando as vagas lembranças, agridoces,

Dos tempos que passaram, tumultuam

No pensamento humano, e a voz das aves,

O murmurar das fontes solitárias,

O ciciar das auras na espessura,

Casam-se d'alma aos fugitivos sonhos;

Quando as brilhantes ilusões da infância

Revoam pela mente do que sofre,

Como em tarde de estio, à flor dos lagos,

Um bando de andorinhas forasteiras;

Nessas horas de calma e de amargura,

De aflição e prazer, de riso e lágrimas,

Chusmas alegres de louçãs pastoras,

Camponesas gentis, zagais esveltos,

Em trajos festivais, brincam e dançam,

Cantam e jogam, do arvoredo à sombra,

Ou sobre as alcatifas de verdura,

Que a frente adornam de formosa granja:

É dia de noivado. Pressurosas

Acodem dos subúrbios e arredores

Dos maiorais mais ricos as famílias,

E as famílias dos pobres jornaleiros,

Aos folguedos das bodas; vem entre elas

A filha de Joaquim e o santo esposo;

Chega também Jesus e seus amigos.

VIII

Os tangeres de simples instrumentos,

Doces, melodiosos, e a toada

Dos tamborins sonoros, algum tempo

Medem da mocidade as ágeis danças,

E dissipam as mágoas da velhice;

Os bons vinhos depois, os bons guisados,

A fartura da mesa do banquete,

As condições confundem e as idades.

Os pais dos desposados, diligentes

Andam de lado a lado, as taças enchem,

Os criados incitam, e solícitos

Trazem novos manjares, novos pratos

Que aos convivas afáveis apresentam.

Tecem da noiva as cândidas amigas,

E os amigos do noivo o epitalâmio

Usado nessas eras. Entretanto,

Da noite as horas infiéis e tredas,

Que lentas esvoaçam sobre a fronte

Do solitário pensador, que cercam

A dura barra do infeliz cativo

De pavorosas sombras, e prolongam

Do lívido, aterrado agonizante

Os martírios cruéis, correm velozes

Onde brilha o prazer, soam os risos,

Onde o júbilo agita as asas de ouro!

O dia se aproxima. A grande mesa

Terceira vez coberta de iguarias,

Gostosos acepipes, doces frutos,

Não mais alegra os olhos, — a tristeza

Debuxa-se no rosto dos convivas.

Está findo o festim?... Estão vazias

As ânforas e taças! Vinho, vinho!

Dai-nos mais vinho! Um dos amigos grita.

 — Pois acabou-se o vinho? diz surpresa

A rainha da festa, — que desgosto!

Nem uma gota ao menos acharemos:

Os odres estão secos. Mais penoso

Mostra-se o enfado nos semblantes todos.

Então Maria volta-se a seu Filho,

Que ao lado estava pensativo e mudo,

Sobre um velho taburno recostado.

 — Vês? — murmura com gesto suplicante.

IX

Ora, no fundo da espaçosa sala

Sobre tosco alicerce ou rijo assento,

De forte alvenaria, colocadas

Seis grandes talhas de granito estavam,

Destinadas, segundo a lei antiga,

Às santas abluções; Jesus ouvindo

O materno pedido se levanta,

Acerca-se da mesa do banquete:

 — Enchei aquelas talhas d'água pura! —

Fala com voz sonora, imperiosa.

 — D'água?... todos exclamam? — Sim, responde

A esposa de José, ele não zomba,

Fazei o que vos diz, tereis o vinho —

Num volver d’olhos, servos e senhores

Incrédulos, mas lhanos e corteses,

Atendendo aos caprichos da amizade,

Que inocente capricho o caso julgam,

Enchem, a transbordar, as grandes talhas.

 — Tomai agora os cântaros e jarras,

Ordena o Salvador, — tomai os frascos,

E as ânforas também: — estão repletas

De vinho aquelas talhas. — Curiosos

À roda de Jesus todos se apinham.

Primeiro, enchem os servos grandes vasos,

Depois os canjirões, depois os copos

Que a seus amos entregam... Maravilha!

Em vez d'água das fontes, clara e fresca,

Tão grata aos caminheiros do deserto,

Aos cabreiros das serras, rubro vinho

Escuma e ferve nas vasilhas fundas,

Acordando o prazer e o regozijo

Entre os cansados, mudos bebedores.

Uma grita estrondosa e prolongada

Saúda o autor do portentoso feito.

Jesus, porém, esquiva-se aos aplausos,

E como d'antes, vai sentar-se calmo

Sobre o velho taburno que deixara.

X

Ora, quando estas cousas sucediam,

A nuvem negra de ódios, suspendida

Sobre a fronte severa do Batista,

Rebentara terrível! Os senhores,

Os magnates de então, cujos defeitos

Eram publicamente censurados

Pelo implacável, rígido profeta,

Uniram-se cruentos, e o lançaram

Nas fundas e pestíferas masmorras

De Macaur, sinistra fortaleza,

Nas terras de Megido levantada.

Recebendo Jesus esta notícia,

Nas aldeias tranquilas, se demora,

Da pátria Galileia, repetindo

O evangelho de Deus ao povo humilde.

XI

A fama de seu nome, e das doutrinas

Santas e luminosas que professa,

Das sublimes ações, e da doçura

Do trato, das palavras, voa, passa

Além das cordilheiras, que circundam

A província natal. As gentes simples,

Em cujos corações crentes ainda,

Da velha Roma o hálito gelado

Não crestou a esperança, os lares deixam,

Correm a ouvir a voz consoladora

Do jovem sábio de Israel, o amigo

Dos que gemem e choram neste mundo.

XII

Nas horas melancólicas da tarde,

Quando se esconde o sol entre as montanhas,

E a luz crepuscular povoa os vales

De tristezas, de amores, de saudades,

Um dia vagueando pensativo

À verde margem de sereno lago,

Vê sobre a areia dois batéis vazios,

E a pouco espaço sobre escuras rochas,

Tisnados e grosseiros pescadores

Lavando as finas redes. Ao mais velho,

Da Galileia habitador antigo,

Dirige-se Jesus: — Simão, que fazes?

Puxa ao lago o teu barco e lança as redes,

Quero te ver pescar. — Mestre, responde

Tristemente Simão, a noite inteira

Eu ontem trabalhei, e hoje, debalde,

Nem um peixinho achei; porém, tu mandas,

Cumpre-me obedecer. Ajunta as redes,

Chama os sócios e desce, o lenho impele,

Toma o Senhor consigo e faz-se ao largo.

XIII

Sobre as águas serenas, lança, estende

O tecido sutil de finas malhas;

Depois, aos poucos, lentamente o tira,

Dos amigos robustos ajudado.

Mas o peso excessivo as linhas quebra,

Quebra as delgadas cordas; outros barcos

Do barco de Simão se acercam logo.

Assombrosa fortuna! À tona d'água

Reluzem, pulam, turbilhões de peixes

Os mais estranhos no tamanho e forma,

Os mais apreciados nos mercados;

Uns agitando as barbas filiformes,

Encrespando as escamas de mil cores,

Fazendo resvalar nas turvas ondas

O dorso boleado, úmido e pingue;

Outros dobrando o prolongado corpo

Batendo as águas, como a lisa folha

De larga e forte espada damascena,

Lançando à roda inúmeros respingos;

Abrindo outros as asas matizadas

De azuis lavores, de cetíneas manchas,

Procurando transpor o móbil circo,

De instante a instante mais estreito ainda.

Depois se ajuntam, se misturam, rolam,

Ondas vivas represas por encanto

Nos limites de mágico desenho

Feito por mão de fada caprichosa.

Os barcos atulhados mal flutuam,

Deixando apenas as delgadas bordas

Fora das águas buliçosas, prestes

A passarem sobre elas; entretanto,

À direita, à esquerda, à proa, à popa

Os cardumes aquáticos pululam.

XIV

 — Retira-te de mim!... Simão exclama,

Retira-te de mim, Senhor, te digo!

Homem culpado sou, escuras nódoas

Minha vida enegrecem! — Não te assustes,

Responde-lhe Jesus, meigo e risonho,

Foste até hoje pescador de peixes,

Mas de homens pescador serás agora. —

Simão curva a cabeça e abaixa os olhos.

Chegando à praia as redes abandona,

Deixa o barco na areia, e acompanhado

De Thiago e de João, fieis amigos,

Em seguimento do Senhor caminham.

XV

Do sol do meio dia à luz dourada

Entram em pobre aldeia. O augusto Mestre

Em casa de Simão passara a noite.

Ao vê-lo o povo insonte se alvoroça,

Deixa as ocupações, à rua corre,

Saúda o Salvador. De vil tugúrio

Ao lado esquerdo de viela imunda,

Um hediondo vulto, esfarrapado,

Levanta-se gemendo, cai; de novo

Levanta-se, e caminha vacilante,

Fazendo recuar os curiosos,

Que a seu aspeto, horrorizados fogem.

Roxos tumores, pútridas feridas

Cobrem-lhe os pés, as mãos, o peito e o rosto;

Esverdeado pus, aguado sangue,

Empastam-lhe os andrajos asquerosos;

Não mais conservam pálpebras e lábios

As formas primitivas, ora, apenas,

Esponjoso tecido de tubérculos.

Mostram, oh Deus!... os últimos — um riso

De escancarada chaga... As chagas riem!

Aos pés do Salvador chega esta cousa.

 — Jesus de Nazaré! Se tu quiseres

Eu serei são!... Exclama roucamente.

Jesus guarda silêncio, encara o pobre:

A multidão se agita, treme, espera.

 — Quero! — ordena o Senhor. Ergue-se o enfermo,

Seu rosto empalidece, depois cora;

Afogueiam-se os olhos, os tecidos

Alisam-se e de peitos se guarnecem;

Nova circulação traz vida nova

Ao sangue arterial; a mocidade,

A saúde, o vigor, o todo animam

Daquele triste ser, que sobre a terra,

Passava pelas fases tenebrosas

Da noite dos sepulcros! Tanto podem

A santa fé e a lúcida esperança!...

XVI

Mas, o que são lauréis, coroas, palmas,

Triunfos, glórias, ovações mundanas,

Flores que mata o hálito da inveja,

Vítreas, brilhantes concreções das grutas,

Que, ao rugir do trovão, estalam, partem-se,

Em mil pedaços caem! Que são elas

Aos olhos do Senhor?... Que pensamento

Anima o rei do pó, quando se esbofa

Em louvores prolixos, vãos discursos,

E tenta insano com palavras frouxas

Celebrar de seu Deus a Onipotência?...

Evitando os aplausos e os encômios

Das turbas sequiosas de prodígios,

Todo entregue à missão que o trouxe à terra,

Afasta-se Jesus, busca repouso

Na pobre habitação de amigos pobres.

Não o deixa, porém, o lhano povo,

Segue-o, entra açodado, a casa ocupa,

Traz seus enfermos, pede-lhe conselhos,

A verdade lhe pede, e a luz celeste

Que ilumina o caminho do futuro.

XVII

Ao portão impedido, chegam, param

Quatro moços robustos, conduzindo

No próprio leito, sócio de dez anos,

De dez anos de dores e amarguras,

Um infeliz, exangue paralítico.

Falam à multidão, instam, suplicam

Que os deixe, até Jesus, levar o enfermo.

Baldado empenho! A multidão é surda:

A multidão é cega ou... deslumbrada:

A multidão só tem um pensamento,

Uma ideia, — um desejo: — ver o Mestre!

O Mestre ouvir!... O mais, pouco lhe importa.

Não descoroçoados, senão crentes,

Guiados pela fé, mãe dos milagres,

Removem para um canto o desgraçado,

Os amigos fiéis. — Escadas buscam:

Contra a parede as firmam, cautelosos:

Alçam o pobre leito e o pobre amigo;

Ouvido escrutador às telhas unem,

Soerguem-nas; aos caibros desnuados

Cordas amarram, pelas cordas descem,

À sala baixa onde Jesus pratica,

No pobre leito o mísero doente.

Um grito de terror quebra o silêncio!

Olham ao teto os circunstantes, olham

As sombras vacilantes nas paredes,

Olham para Jesus, para a mofina

E lívida figura do entrevado,

Imóvel, envolvida em alvos panos,

Semelhante ao cadáver macilento

Que levam a enterrar. — Senhor, curai-me!

Tende pena de mim, Senhor! — murmura

Com voz entrecortada de suspiros.

 — Homem, Jesus exclama, os teus pecados

Perdoados estão! — Ouvis? Cochicham

Os fariseus e escribas, vis hipócritas,

Que da lei zeladores se apregoam,

 — Ele fala em perdão! Ele se atreve

A competir com Deus! — Blasfêmia horrenda!

 — Loucos! Jesus responde, o que mais custa:

Dizer ao desditoso: os teus pecados

Perdoados estão, ou ordenar-lhe:

Levanta-te, caminha? — Agora, escuta,

Diz voltando-se ao mísero doente:

Ergue-te! Mando eu, — toma teu leito,

Vai para casa de teus pais, ouviste?...

 — Oh! Cristo! Os povos todos te bendigam

Louvem as gerações teu santo nome

Por séculos e séculos! — exclama,

De um salto levantando-se, e caindo

Aos pés do Salvador, o pobre moço!

 — Vai, — ordena Jesus. — Risonho, alegre,

Toma o mancebo a cama sobre os ombros,

E afasta-se levando a felicidade

A seus aflitos pais. Maravilhado

À roda de Jesus pondera o povo:

 — Hoje vimos prodígios inauditos! —

XVIII

Deixando os fariseus e escribas mudos,

Mudos os assistentes, boquiabertos,

Afasta-se Jesus; na larga praça,

Bem junto do Telônio, ou grande mesa,

Onde estavam então os cobradores

Dos dinheiros reais e dos tributos,

Vê, ao passar, sentado um publicano;

Detém-se, encara-o, fita-lhe no rosto

Um desses fundos, divinais olhares

Que aos seios d'alma rápidos penetram,

E laceram os véus da consciência.

 — Levanta-te, Levi, filho de Alfeu,

Que chamarei Mateus, e vem comigo. —

Mateus não titubeia e não vacila,

Ergue-se, deixa tudo, ao chão arroja

O próprio manto que trazia aos ombros,

Guia o senhor à casa onde reside,

Faz aprestar esplêndido banquete,

Chama os pobres à mesa, e alegres folgam

Por todo aquele dia. — Os vis escribas,

Os invejosos fariseus lhe dizem: —

 — Que! censurais os vícios e defeitos

Do vulgacho grosseiro, vós o Mestre,

E comeis no festim do publicano,

Sentado entre rasteiros pecadores! —

O Senhor lhes responde: — Ouvi, malévolos:

Os que estão sãos, sabeis, não necessitam

Dos socorros do médico, aos enfermos

São eles destinados. Neste mundo

Não venho aos justos ensinar, mas, vede,

Chamar à penitencia os pecadores! —

E outras santas verdades repetindo

Os reduz ao silêncio, envergonhados.

XIX

O tênue lume que animava a essência

De diminuto número de crentes,

Estende-se, flameja, os seios ganha,

E abrasa os corações. Tudo o que sofre,

Tudo o que espera e crê, tudo o que almeja

Das sombras do presente alçar os olhos,

Perscrutar o futuro, se coloca

Ao lado do Senhor. Já por milhares

São orçados prosélitos e ouvintes.

Cada dia um milagre, um belo feito,

Firmam a sã doutrina, ao povo mostram

Que sobre o homem perecível brilha

A grandeza de um Deus, de um Deus a glória.

Ora, é um doutor da lei, distinto membro

Do senado judeu, que vem à noite,

Cauteloso, solícito, implorar-lhe

Dos sagrados preceitos a ciência:

É Nicodemos que rejeita o erro,

E as verdades abraça do Evangelho;

Ora, mesquinhos seres que a doença

Furta ao trabalho e tolhe os movimentos,

Que à voz do Mestre, jubilosos andam,

E seu divino Salvador bendizem;

Ora, desamparadas criaturas,

Em cujos corpos legiões do inferno

Se agitavam raivosas, que libertas

Do tenebroso jugo, hinos entoam,

Volvem ao céu agradecidos olhos,

E o nome de Jesus prostradas louvam.

A esperança e a fé, anjos celestes,

Abrem as asas, e a tristeza expelem,

Por toda a parte onde o Senhor caminha.

XX

Uma bela manhã, clara e serena,

Depois das santas orações, descansa

Sobre formoso céspede, e chamando

Seus fiéis companheiros, doze escolhe,

Que denomina — Apóstolos — São eles:

Simão, que apelidou Cefas ou Pedro,

De todos o mais velho; André, Tiago,

João e Bartolomeu; Tomé, Filipe,

Outro Tiago, outro Simão ainda,

Chamado o Zelador; Maheus, o antigo

Levi o publicano; depois Judas,

Parente de Tiago; e, finalmente,

Judas de Queriote, que mais tarde

Veio a vender seu benfeitor e Mestre.

Depois, notando que se ajunta o povo,

Que ansioso o rodeia, se levanta,

E pronuncia o lúcido discurso,

 — Que sermão da montanha hoje dizemos.

XXI

 — Afortunados sois, pobres de espírito,

Pois o reino dos céus é vossa herança;

Afortunados sois, brandos e mansos,

Que sem disputa possuís a terra;

Afortunado sois, vós que chorando

Atravessais a estrada da existência,

Porque tereis das mágoas lenitivo;

Afortunados vós que tendes fome

E sede de justiça, sereis fartos;

Afortunados sois, oh! compassivos,

Pois achareis também misericórdia;

Afortunados vós que neste mundo

Tendes os corações limpos e puros,

Pois verão o Senhor os vossos olhos;

Afortunados sois, seres pacíficos,

Filhos de Deus vos chamarão os homens;

Afortunados vós que sem queixumes,

Por amor da justiça e da verdade,

Sofreis perseguições, pois vos pertence

O reino do Senhor: afortunados

Vós que gemeis ao peso das injúrias,

Das calúnias cruéis por meu respeito,

Afortunados sois, pois largo prêmio,

Recebeis além na eterna pátria!

Voltando-se depois a seus discípulos:

 — Vós sois o sol da terra e a luz dos povos.

Como um farol suspenso nas alturas

Aclare vossa luz a humanidade;

Vejam os homens vossas santas obras

E glorifiquem vosso Padre excelso!...

Quem, de mim se aproxima, e atento escuta

As palavras que brotam de meus lábios;

Quem, depois de as ouvir, seguro as guarda,

E as põe por obra no lidar da vida,

É igual ao varão prudente e sábio,

Que nas cavas de rígido penedo

Prende da casa os alicerces fortes:

Quando os tufões correrem pelo espaço,

Quando as caudais torrentes se arrojarem

Bravejando no dorso das montanhas,

Não terá que temer! — Triste daquele,

Triste daquele, que os ouvidos cerra

Às profundas verdades que professo!

Qual insensato, em terra levadiça,

Terá posto da casa os fundamentos:

Quando as torrentes rábidas passarem

Pelas chuvas do inverno intumescidas,

Vorazes lamberão a areia solta,

E o vaidoso edifício irá com ela! —

Depois destes santíssimos conceitos,

Cala-se o Salvador, abre caminho

Por entre a multidão que amiga o cerca,

E, seguido dos seus, desce do monte.

O sol do meio-dia abrasa os campos.

XXII

Já de Cafarnaum ao longe avista

As verdes eminências matizadas

De florentes arbustos, quando chega

Ofegante ancião a seu encontro.

 — Creio em vosso poder, Senhor, lhe fala,

Por isso corro a vos buscar, ouvi-me:

Um bom centurião suspira aflito

De moribundo servo à cabeceira;

Sabe quanto valeis... se vós quiserdes...

E embaraçado cala-se. — Não temas,

Responde-lhe o Senhor, — que bem obraste,

Mostra-me a habitação de teu amigo,

Irei ver o doente. E segue o velho.

Mas, o centurião apenas sabe

Que Jesus se aproxima, envia logo

Por alguns companheiros, que o rodeiam,

Esta humilde mensagem: — Não sou digno,

Senhor, de entrares em meu pobre asilo;

Manda, e meu servo ficará curado.

 — Oh! na verdade, o Salvador exclama,

Ao povo se voltando, longe estava

De supor tanta fé por estas terras!

Ide, ordena aos atentos mensageiros,

São achareis de vosso amigo o servo...

Glória ao Filho de Deus! No mesmo instante,

No sombrio aposento, onde inda há pouco,

Sob as garras da morte convulsava,

Ergue-se alegre sobre o morno leito,

Lançando ao chão as grossas coberturas,

O servo redivivo! Um tal prodígio

Liga o centurião à nova crença.

XXIII

Outros tristes, porém, outros enfermos,

Os enfermos do espírito, ansiosos,

A presença do Mestre além imploram.

Ei-lo de novo percorrendo as choças,

Os casais, e as aldeias, ensinando

A palavra de Deus ao povo rude,

Consolando os aflitos e oprimidos,

Derramando a benéfica esperança

Nos corações de todos que o procuram;

Ei-lo, trazendo escravo de seu gesto,

Um séquito que os reis jamais tiveram,

As portas de Naim transpondo agora.

XXIV

Torvo é o céu, a terra inda mais torva.

Negros bulcões não rolam pelo espaço

Nem raivoso tufão açoita as plantas,

E nuvens de poeira aos ares ergue:

Mas um lençol de baço nevoeiro

Furta aos campos molhados de saraiva

As carícias do sol meridiano.

Nem uma alegre rapariga brinca

Enquanto a fonte chora e enche a bilha,

Poucos, raros passantes atravessam

As praças solitárias. Frio, agudo,

Sibila o vento nos pesados tetos.

A tristeza do céu as almas ganha....

Oh! dai-me um céu azul, um sol de maio.

Vergéis floridos, passarinhos ledos,

E deixai-me sofrer! Almo consolo

Meu seio encontrará; não opulento,

Cheio de atividade e de esperanças,

Me lanceis sobre o gélido regaço

Da natureza muda, entorpecida!

XXV

Ao dobrar de uma quelha, infausto quadro

A vista magoou dos peregrinos.

Era uma procissão de moços pobres

Que levavam silentes, lacrimosos,

Ao derradeiro asilo um corpo amigo.

Em descoberto esquife, macilento,

Pálpebras roxas, deprimidas faces,

O mancebo dormia o sono imenso

Que não tem despertar sobre este mundo...

Ela tinha calcado muito e muito

Seu sinete real naquela fronte,

A tenebrosa filha do pecado!

XXVI

Único amparo de infeliz viúva,

Luz de seus olhos, sonho de su'alma,

Fio dourado que prendia à vida

O batel de seus dias desditosos,

Ele ali estava!... Lívida, sem prantos,

Aceso o olhar, os lábios ressequidos,

Desprendendo da trêmula garganta,

De quando em quando, um soluçar convulso,

Seguia a pobre mãe os frios restos

Do que mais estimava sobre a terra!

Aquela dor profética, sinistra,

Chegou até Jesus! A vista imensa

Do Filho de Maria, vence o tempo,

E vai cair no cimo do Calvário!...

Ai! se não fora um Deus, talvez chorasse!

Sai do meio dos seus, abre passagem,

Faz parar o funéreo saimento,

Volta-se à triste mãe, que ao vê-lo, treme:

 — Oh! não te aflijas, que teu filho dorme! —

Diz com voz maviosa e compassiva,

E depois acenando ao frio corpo:

 — Levanta-te, mancebo, eu mando! — exclama,

Senta-se o moço, encara os assistentes,

Lança por terra os lúgubres adornos,

E saltando do esquife, alegre e forte,

Aos pés do Salvador se prostra humilde!

XXVII

A fama desfez caso portentoso

Corre toda a Judeia, o ilustre nome

Do inspirado profeta nazareno

Passa de boca em boca, desde as salas

Do rico israelita e do romano,

Até o vil tugúrio do mendigo.

Entretanto, inflamado em santo zelo,

Do cárcere medonho onde definha,

O indomável Batista, envia ocultos

Dois emissários a Jesus: — Acaso,

Dizem eles, és tu quem vir devera,

Ou por — Ele — esperar nos cumpre ainda? —

Mas o Senhor ao povo se dirige,

Dá vista aos cegos, faz andar os coxos,

Falar os mudos, escutar os surdos,

Moverem-se os antigos entrevados,

E depois se voltando aos emissários:

 — Ide, lhes diz, contai o que hoje vistes,

Contai que os cegos veem, os coxos andam,

Os surdos ouvem, os leprosos saram,

Ressuscitam os mortos, e a pobreza

As palavras escuta do Evangelho.

Eis a minha resposta, ide tranquilos. —

XXVIII

E partiram de João os mensageiros.

Um fariseu do Mestre se aproxima:

 — Quero, Senhor, pedir-vos uma graça;

Mandei pôr mais um prato à minha mesa,

Encher de vinho velho um novo cântaro,

Venho buscar-vos; ceareis comigo,

E repouso achareis em minha casa;

Trazei vossos discípulos convosco;

Não me negueis o que vos peço, vinde. —

Jesus encara o fariseu e o segue.

XXIX

Ora, naqueles tempos ominosos,

Quando a raça perjura, abandonando

O templo de seu Deus, o altar da pátria,

Desvairada e febril tripudiava

Nas orgias fatais dos vencedores;

Naqueles tempos de vileza e opróbrio,

Vivia uma mulher, jovem, fastosa,

Esplêndida de audácia e formosura.

A nobreza de então, gemia escrava

Debruçada a seus pés; os magistrados

O fiel da balança quebrariam

Por um sorriso apenas! Muitos ricos

Adormeceram ébrios de volúpia

Nas fofas almofadas de seu leito;

Mas... despertaram pobres. Desgraçada!

Era como o arvoredo ameno e fresco,

Que enfeitiça o cansado viajante,

E o convida a dormir, mas cuja sombra

Derrama a febre, o desespero e a morte!...

Tinha visto Jesus e o tinha ouvido,

A glória de seu nome a deslumbrara.

Sabia onde Ele estava... Horrenda, escura

Tentação de Satã! Tartáreo sonho!...

Talvez!... falou consigo; e pressurosa,

Das mais finas roupagens se reveste,

Adorna-se de joias e de flores;

De aromas esquisitos se perfuma;

 — Solta os cabelos negros e profusos —

Sobre as níveas espáduas descobertas,

E tomando uma límpida redoma

De precioso bálsamo pejada,

Ganha ansiosa a rua e se dirige

Do fariseu à casa, a largos passos.

XXX

Era findo o banquete. Junto à mesa,

Sobre toalha alvíssima, pousando,

Meio inclinado o corpo, o esquerdo braço,

Praticava Jesus. Mudos, atentos,

Das taças, inda cheias, esquecidos,

Esquecidos que os rádios encostavam

Sobre as frias relíquias do banquete,

Os convivas ouviam. Era tarde,

Era fundo o silêncio, a hora solene.

As palavras de Cristo penetravam

Como as revelações de um outro mundo

Nas consciências todas. Nesse instante

De sagrado terror, na grande sala,

Cheia inda há pouco de arruído e vozes,

Se apercebera o farfalhar medroso

Das asas de noturna borboleta.

XXXI

Pé ante pé, ousada e comovida;

Corado o rosto, os olhos cintilantes;

A linda, rósea mão, quente, convulsa,

A medo os brandos seios comprimindo;

Bela como a visão de um elamita,

Que à noite dorme junto às almenaras,

E, sonhando, presente o airoso vulto

De uma ditosa filha de Oromásis

Girando ao derredor: surde, detém-se

No limiar da porta a pecadora.

Rápido olhar pelo recinto volve:

Espreita... convidados, mesa, alfaias.

Finalmente Jesus. Caso estupendo!

Uma luz divinal lhe fere os olhos!

Frio suor poreja-lhe no rosto,

Onde se estende a lividez da morte!...

Oh! nesse instante de inspirada angústia,

Toda sua existência, e seu passado

Esquecidos, ressurtem!... A cabana

De seus honestos pais, os áureos sonhos

Da descuidosa e santa meninice,

O céu azul, as balsas florescentes

Os serões da família, e... sobretudo,

Ai!... a inocência da primeira idade!

Crenças divinas que alimentam anjos!...

Tudo isto apareceu! de novo... ao longe,

À luz de um céu puríssimo, crivado

De milhares de estrelas refulgentes!...

Depois, volvendo os olhos a si mesma,

Examinando as nódoas indeléveis

Que de su'alma o espelho embaciavam,

Viu do colar as pérolas mudadas

Em lágrimas de fogo, e as ametistas,

Os graúdos rubis dos braceletes,

Em quentes gotas de fervente sangue!...

Então sobre as espáduas da perdida

Rebentaram de novo as asas de anjo!

Em soluços desata, dolorosos,

Lança-se compungida aos pés de Cristo,

De lágrimas e bálsamos os cobre,

E os envolvendo nas madeixas negras,

Os enxuga, prostrada, arrependida.

XXXII

 — Oh! não!... murmura o fariseu consigo,

Este mancebo zomba de nós outros!

Se ele fosse profeta, bem soubera

Quanto é rasteira e vil a criatura

Que pranteia a seus pés! — Jesus o encara,

E diz estas palavras: — Ouve, amigo:

Tinha um bom mercador dois devedores;

Um quinhentos dinheiros lhe pedira,

Outro apenas cinquenta; pobres ambos

Nunca puderam lhe pagar tais somas,

Ele, porém, as remitiu sem queixas:

Qual dos dois lhe devera ser mais grato?

 — Oh! certamente, o fariseu responde,

O que maior quantia recebera! —

 — Julgaste bem, o Salvador prossegue,

Estou sob teu teto, não me deste

Para lavar os pés um pouco d'água,

E nem me deste o ósculo fraterno,

E nem minha cabeça perfumaste

De bálsamos suaves; entretanto,

Ela banhou-me os pés com tristes lágrimas,

Ela os cobriu de beijos incessantes,

E os ungiu de perfumes preciosos!...

Por isso agora digo: os seus pecados

Remitidos estão, amou, e muito! —

E voltando-se à humilde pecadora,

Lhe diz: — Mulher, levanta-te, não chores,

Pois a fé te salvou! — Assim falando

Ergue-se e sai da sala do banquete.

XXXIII

Pura, como na infância, abençoada

Pelo Santo entre os santos, Madalena,

Que este era o nome da infeliz perdida,

Foge de seus amantes opulentos,

Entrega aos pobres, joias e riquezas,

Que Satã deparara, e mais formosa,

Descoberta a cabeça, os pés descalços,

Acompanha o Senhor por toda a parte.

XXXIV

Põe-se o sol; dos outeiros e dos vales,

Soltam as avezitas inocentes

Maviosos reclamos: — Vinde, vinde,

Vinde alegres cantores da floresta,

Dizem com seu falar melodioso,

A noite desce e as virações fagueiras

Perfumam nossos ninhos delicados

Dos mais gratos odores do deserto;

Da estrela do pastor a luz suave

O ermo encantará, quando saudosas

Pelo clarão d'aurora suspirarmos! —

Nas bordas dos regatos cristalinos

Abrem-se docemente os grandes lírios

E murmuram baixinho: — que mimoso,

Que peregrino, lisonjeiro silfo,

Passa junto de nós, nos beija e foge?

Ai! se voar pudéssemos, felizes

Iríamos brincar nas moles sedas

Onde repousa o beija-flor agora...

Mais longe um pouco, as borboletas negras,

Boêmias vagabundas, pairam, giram,

Descendo ao frio chão de espaço a espaço.

Medrosas cochichando: — estamos perto

Do lugar do festim? A loira fada,

Cuja varinha nossas danças rege,

Terá dado começo ao grande baile?

Descansemos aqui, sobre estas flores

Estendamos as asas de veludo,

Banhemo-nos de orvalho e de ambrosia!

Além, de manso lago à superfície,

Na corola dos mornos nenufares,

Ajuntam-se ligeiros vagalumes,

De azulado clarão iluminando.

As pétalas macias: — como é belo

Nosso palácio mágico! — murmuram.

 — E qual o cavaleiro armado de aço.

Das finas hástias dos compridos juncos,

Mira o rijo besouro luzidio

O castelo brilhante. — Curiosa,

Como a criança que o perigo afronta.

Fascinada debruça-se a lagarta

Da larga folha onde enroscada vive.

Mais longe ainda, nos sarçais oculto,

Bardo da solidão, tristonho canta

O lamentoso grilo; e além, travessos.

Pulam à flor do lago transparente

Os cardumes de pávidos peixinhos,

Ansiosos de ver nos céus tranquilos

As primeiras estrelas radiarem!...

Oh! nessas horas de poesia infinda,

Quem se despir da frívola ciência

Das vaidosas escolas das cidades,

E, filho amante, repousar a fronte

No regaço feliz da natureza,

Um mundo encontrará nunca sonhado!...

XXXV

Já, porém, muitas luas percorreram

Os páramos azuis do firmamento,

E mais bela estação à terra volta,

Trazendo aos seres a abundância e a vida,

Depois da cura do mesquinho servo

Do bom centurião, da gloriosa

Ressurreição do filho da viúva,

E do caso da bela pecadora,

A humilde Madalena. Acompanhado

Dos amigos fiéis, Jesus se arreda

Dos sítios conhecidos, se dirige

Ao de Genesaré extenso lago,

E tomando uma barca, aos remadores

Ordena que os transportem sem tardança

Do lado oposto às ribas verdejantes.

Soltam a branca vela, e o lenho airoso.

Qual engraçado cisne, as ondas singra.

Cantam os pescadores, e os discípulos

Ajuntam-se e conversam descuidosos;

Passa Jesus, à popa, e em fina esteira,

Estende os frouxos membros, e adormece.

XXXVI

Mas, pouco e pouco, as nuvens nacaradas

Que no céu do Ocidente refulgiam,

Conglobam-se rugindo, e se transformam

Em grossos rolos de funéreo crepe.

Frias lufadas de raivoso vento

Correm dobrando as árvores dos montes,

Erguendo turbilhões de folhas secas

Do chão revolto e negro. Aves sinistras

Voam, soltando pios lamentosos,

Em busca de um abrigo. O escuro lago

Encrespa-se, braveja, as ondas cerra,

Joga de um lado e d'outro o pobre lenho.

Sem leme, sem governo, a vela rota,

Alagado o franzino cavername!

E a noite estende lúgubre, medonha.

Sobre a face do abismo as amplas asas,

Retalhadas de rábidos coriscos!

 — Nossos esforços são inúteis! — bradam

Tristemente os barqueiros, e se agarram

Às tábuas vacilantes, esperando

A sentença da sorte. Porém, calmo,

Como o que dorme sobre um leito firme,

Ressona o Salvador deitado à popa!

 — Levantai-vos, Senhor, que nos perdemos! —

Gritam seus aterrados companheiros.

Abre os olhos Jesus, boceja, e senta-se

Sobre a molhada esteira, olhar austero

Lança aos medrosos, trêmulos amigos.

 — Onde está vossa fé? — clama, e estendendo

Para o nublado céu a destra santa:

 — Serenai! eu ordeno! — exclama. Os ventos

Param na vastidão do torvo espaço,

Curvam-se as ondas bravas, irritadas,

E quais humildes cães à voz severa

De severo senhor, o dorso abaixam,

E lambem mansamente a escura barca;

Os negrumes dissipam-se, e as estrelas

Aparecem formosas, rutilantes,

Do céu azul nos páramos sublimes!

 — Oh!... Quem é este que entre nós sentou-se

Como se nosso igual acaso fora? —

Dizem os remadores assombrados;

 — Manda aos ventos e os ventos obedecem;

Impõe silêncio às ondas, e vencidas

Abaixam-se gemendo; fala às nuvens,

Estende ao temporal a mão terrível,

E os bulcões se esvaecem, e os coriscos

Apagam-se no céu, e o céu fulgura

Recamado de esplêndidos luzeiros?

Quem é este que assim dispõe de tudo? —

Mudos, depois, e de pavor tomados,

Ligeiros remam, aproando a barca

Dos gerasenos às ridentes praias.

XXXVII

................................................................

A luz do dia, o gorjear das aves,

As aragens ligeiras, interrompem

O piedoso serão. Ergue-se o mestre,

Avisa a multidão. Prostram-se todos,

E tecem ao Senhor ações de graças;

Despedem-se do santo missionário,

E penetrados da mais viva crença,

Voltam a seus labores costumados.

 

CANTO IV

Lembra-te de teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venha o tempo da aflição e cheguem os anos, de que tu digas: — esta idade não me agrada:

Antes que se escureça o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva:

Antes que se rompa o cordão de prata, e se retire a fita de ouro, e se quebre o cântaro sobre a fonte, e se desfaça a roda sobre a cisterna.

ECLESIASTES XII, v. 1, 2, 6).

I

Quão aprazíveis são teus frescos vales,

Terra de Santa Cruz! Quão majestosos

São os teus altos cerros e teus montes!

Quão belos os teus rios, e os alpestres.

Fragosos alcantis das ribanceiras!

Quais os painéis de um sonho fugitivo,

Os diviso entre pálidos vapores,

E revolvo a memória enfraquecida

Buscando, o que... não sei! Alguma cousa

Que talvez existisse, ou inda exista,

Aqui, além, na terra, ou no infinito,

No seio impenetrável do futuro!

Vi! sim, alguma cousa que me falta,

Alguma cousa que minh'alma espera

Como certa, infalível, necessária.

E debalde procura e não encontra,

E tenta dar um nome, e os frios lábios

Não sabem que dizer! Meu Deus, acaso

Serás tu?... — Como a nau incendiada

Que, meia oculta em turbilhões de fumo,

De vermelho clarão as ondas tinge,

Tal das nuvens purpúreas do Ocidente

Dardeja o sol os raios derradeiros

Nas soledades dos sertões brasílios.

As campinas e as selvas clareadas

Pela mágica luz do cíntio globo

Arreiam-se de galas, e parecem

Cobertas de ouro em pó, e finas pedras.

II

Sentado sobre um céspede, no monte,

Contempla o solitário pensativo

Os vastos descampados, resplendentes

De cambiantes fogos; porém, quando

Desaparece além a ígnea esfera

A outras regiões levando a vida,

Ajoelha-se e ora; depois toma

O nodoso bordão que ao lado estava,

E desce da montanha. A seu encontro

Corre a formosa e tímida Naída.

Uma ligeira nuvem de tristeza

Empana os olhos da gentil menina.

 — Mestre, dizei-me, balbucia, os sonhos

Alguma vez traduzem a verdade?

Guardam algum sentido? — O que perguntas,

Insensata criança! Porventura,

Podem as ilusões loucas, falazes,

Da solta fantasia, apresentar-nos

Alguma cousa mais do que mentiras? —

 — Assim também o creio, porém, tremo!

Esta noite sonhei, sim, foi um sonho,

Mas um sonho terrível!... — Vamos, conta

Esse terrível sonho. — Não... mais tarde. —

O padre não insiste. Vagarosos

Caminham para o novo eremitério,

Onde os espera o povo impaciente.

III

Chegam. Um longo e jubiloso brado

Saúda o pio e venerando mestre,

Correm os velhos, e os robustos moços.

As jovens mais e os cândidos filhinhos

A receberem a paterna benção;

Os enfermos arrastam-se tardios

E as orlas beijam da sombria veste,

 — Salve! — todos exclamam prazenteiros.

Um momento depois reina o silêncio,

E o santo narrador assim lhes fala;

 — No passado serão, quando assomava

No céu azul a estrela matutina,

Eu acabava, irmãos, de relatar-vos

O milagroso caso da tormenta,

O terror dos barqueiros, e a mudança

Operada no espaço à voz de Cristo;

Eu vos dizia como alegres, salvos,

Saltavam no país dos Gerasenos.

Prestai ouvidos: mais pasmosos fatos,

Cheios de assombro, sabereis agora.

IV

Oh! meus irmãos, por certo nunca vistes,

Nem Deus permita que vejais um dia

A figura sinistra de um possesso!

Se a tivésseis mirado, a vida inteira

Tremeríeis de horror!... — Apenas descera

O Salvador e os seus à lisa praia,

Quando um grito estridente e pavoroso,

Como rugir de fera em antro escuro,

De imigo sangue pressentindo o cheiro,

Abala o espaço e chega a seus ouvidos.

 — Céus! — Não temais, olhai à nossa destra;

Vedes aqueles densos ciparissos? —

Diz o Senhor, — é um cemitério, tristes,

Entre a espessura os túmulos alvejam;

Não distinguis?... — Senhor! — Olhai de novo.

Então da mesta sombra do arvoredo,

Sanguentos membros, retorcida boca,

Lábios cobertos de espumosa baba,

Cheios de lodo e cinzas os cabelos,

Um homem seminu surdiu, bramindo;

Lançou-se às plantas, arrancando as folhas,

Lançou-se às tumbas, levantando as lousas,

Arrojou-se no chão mordendo as pedras,

E nas convulsas mãos esfarelando

Torrões calcários, carcomidos ossos!

Depois ergueu-se; gotejava o sangue

Dos pés, do peito, do inflamado rosto;

Volveu à roda as hórridas pupilas

Onde o fogo do inferno chamejava,

Rangeu com fúria os dentes, e avistando

A poucos passos o Senhor: — Oh! vai-te,

Jesus, Filho do Deus, não me atormentes —

Gritou torcendo os braços macerados.

 — Qual é teu nome? — o Salvador pergunta:

Responde, que te ordeno! — Uma voz rouca,

Feia e destemperada, não dos lábios,

Mas das entranhas fez-se ouvir, e disse:

 — Chamo-me — Legião — tua virtude

Reconheço, bem vês, e teu império;

Mas não me obrigues a voltar, te rogo,

À negra estância das eternas dores!

Era uma multidão de infensos gênios

Que assim falavam numa voz apenas!

Ora, a pouca distância, na planície,

Suja manada de animais imundos

Grunhia revolvendo a verde relva,

Vendo-a, Jesus, dirige-se aos demônios:

 — Deixai meu pobre servo, ido alojar-vos

Daqueles brutos nos nojentos corpos! —

No mesmo instante a cáfila tartária

Ganha, silvando, a sórdida manada,

Que enfurecida e cega, salta e corre,

Se encaracola, morde-se, esbraveja,

E galgando um rochedo íngreme, bronco,

No mais fundo das águas se despenha.

V

Tinha baixado a noite. Alguns pastores

Que soíam dormir em pleno campo,

Junto de grandes fogos; rudes servos,

Fugidos dos casais da vizinhança;

Vários barqueiros que arrastado haviam

Para a funda calheta os frágeis lenhos,

Foram deste prodígio testemunhas.

Tomados de terror, erguem-se, partem,

E vão contar à gente da cidade

O sucesso inaudito. O povo simples,

Amigo das legendas milagrosas,

E os semi-sábios, que de tudo zombam,

Cobardes fanfarrões que um nada espanta,

Ajuntam-se em magotes, tomam fachos,

Descem à margem do sereno lago

E vão verificar o estranho caso.

VI

Quadro sublime! Sobre dura pedra,

Qual primorosa estátua levantada

Por mãos agradecidas, radiava

Do divino Jesus a bela imagem;

Prosternado a seus pés, tranquilo, humilde,

Em muda adoração, fitos os olhos

Nos olhos do Senhor, d'onde caíra

A luz da salvação sobre su'alma,

O possesso de outrora descansava.

Aqui, ali, silentes, os discípulos,

Irmãos amados que uma ideia anima,

De inefável amor embevecidos.

Contemplavam sorrindo o grande Mestre.

VII

A chusma curiosa para e treme,

Não crê nos próprios olhos; entretanto,

Ele ali está, sereno, manso, afável,

No olhar a fé, nos gestos a humildade,

Nos lábios a oração, o torvo escravo

Dos gênios infernais, o horror das praças,

A pantera indomável, cujos pulsos

Grilhões partiam, rebentavam grades,

Derribavam fortíssimas muralhas!...

 — Não sabemos quem és, mas o que vemos,

Quanto és temível nos revela! O sangue

Gela-se em nossas veias, ai! a morte

Nossas pobres cabeças ameaça! —

Fala em nome do povo um homem velho:

 — Perdoa-nos, mas deixa estes lugares,

Deixa esta triste gente, em cujos peitos

Lançaste o medo, a inquietação e a febre!

Perdoa-nos e vai-te! — Desgraçado!

O Salvador exclama, tranquiliza

Esse povo infeliz que o bem assusta,

E a palavra de Deus enche de assombro!

Eu partirei, retira-te, não temas! —

Ao alvejar d'aurora do outro dia

Pisa Jesus, de volta, as flóreas ribas

Da bela Galileia, onde saudoso

O rebanho fiel há muito o espera.

VIII

Da vinda do Senhor, logo a notícia

Voa de casa em casa; num momento

Correm de toda parte, pressurosos,

Milhares de doentes, implorando

A cura de seus males. Nesse dia

Salva pobre mulher, que abandonada

De práticos e médicos, gastara

Toda a fortuna em vão, e em vão, chorava

Há doze largos anos; ressuscita

Uma filha de Jairo, hebreu potente,

Chefe da Sinagoga; fala às turbas,

Explicando os preceitos do Evangelho,

E depois, entre os seus, põe-se a caminho

Para os cerros azuis da pátria terra.

IX

Ave, Maria! — Como um templo imenso

Depois das pompas de solene ofício,

Majestoso, severo, inda fremente

De cânticos divinos, quando tristes

Nos candelabros de ouro os círios dormem,

E a lâmpada sagrada a medo brilha

Entre nuvens de incenso, derramadas

Pelas naves sombrias; horas graves

Em que muita oração, muito soluço,

Soam atrás dos dóricos pilares,

Tal nos parece a terra, quando ao longe

Fenece o dia, e a noite se apropinqua...

 — Ave Maria!... O pavilhão celeste

Sobre nossas cabeças se arredonda,

Puro como a ilusão de uma criança!

No pórtico sublime do Oriente

Surge fagueira a estrela vespertina,

E, além, de nossas pobres freguesias

Nos altos, alvejantes campanários,

Soa, pausado e lento, o velho bronze

Dobrando: — Ave Maria! — O viajante

Que vem de terra estranha, e a pátria busca,

Se ajoelha na beira do caminho,

 — Ave Maria — suspiroso fala.

O cabreiro que desce das montanhas,

Ao redil conduzindo a grei singela.

Para, levanta para os céus os olhos,

E diz: — Ave Maria! — A mãe querida

Chama zelosa a prole abençoada,

Junto à lareira da tranquila choça,

E lhes repete a saudação divina.

 — Ave Maria!... na soidão dos mares

Murmura o navegante. — Ave Maria!

Reza o triste mendigo nos alpendres

Dos paços festivais! — O rico e o pobre,

O poderoso, o humilde, o rei e o povo,

 — Ave Maria! — nessas horas dizem!...

 — Ave Maria! — Pálida e chorosa,

Ela medita à porta da cabana,

A mais formosa e pura entre as mulheres.

Quando, volvendo à estrada os belos olhos,

À luz incerta e frouxa do crepúsculo

Avista o Filho amado e seus amigos,

X

Cala-se o narrador. Alguns momentos

Conserva-se indeciso e pensativo

Como buscando um fio, que aproxime

Dois afastados, diferentes fatos.

O penoso labor do entendimento

Nas austeras feições se manifesta.

— Espírito dos tempos que passaram!

Diz, inclinando ao peito a nobre fronte.

Tu que aviventas o cansado gênio

Dos bardos hodiernos, e propício,

Espancando das eras os negrumes,

Os mistérios da história nos desvendas,

Inspira minha voz, minh'alma inspira!...

 — No doce clima da risonha estância,

Onde correram da primeira idade

As belas estações e os belos dias,

Deixemos o Senhor, abençoando

Do honrado carpinteiro a pobre casa.

Volvamos ao Batista o pensamento.

XI

Sobre os tetos dos míseros tugúrios,

Dos palácios reais sobre os eirados,

Estende a noite escura a sombra imensa,

Que nem sempre derrama a paz e o sono.

Aves de Deus, as virgens e as crianças,

Adormecem risonhas, ocultando

Nas asas da inocência as frontes santas.

Voltam os velhos ao passado, em sonhos,

Em sonhos o futuro os moços galgam.

Mas os ímpios não dormem! Fulgurantes

Ardam embora perfumados círios

Junto dos leitos de ouro: embora brilhem

Dos estucados tetos penduradas

Alâmpadas riquíssimas! Embora!

Não há luz que afugente as trevas d'alma!

Nos vapores do vinho e nos banquetes,

Nas orgias febris, nos jogos loucos,

Um momento se abranda e se entorpece

O verme dos remorsos... — Mais faminto

Acordará nas horas do silêncio.

XII

Os primores da Europa, o luxo d'Ásia,

O fausto desta, a profusão daquela

De Herodes o palácio aformoseiam.

Mil candeeiros, transparentes tochas,

Argênteos lampadários, iluminam

As vastas arcarias, marchetadas

Dos mais lindos mosaicos do Oriente,

E as colunas de mármore, as pilastras,

Cobertos de lavores, e as paredes

Ornamentadas de brasões pomposos.

Os gratos sons das harpas e doçainas,

Dos cítolos e frautas, repercutem

Fora na larga praça, onde confusa

Cochicha a multidão maravilhada.

Celebra o rei vaidoso e dissoluto

Seu dia natalício. As salas todas

Estão cheias de amigos e convivas:

Ricos hebreus, latinos cavaleiros,

Senhores do Ocidente e do Levante.

As mais belas romanas da soberba,

Mas depravada corte do tirano,

As mais airosas filhas da Circássia,

E as ninfas mais gentis das ilhas Gregas,

À lauta mesa reclinadas ouvem

Os torpes, desonestos galanteios

Dos escravos de César. Petulante,

De louro coroado, e verde mirto,

Do amor emblema, e símbolo da glória,

Em macia camilha repimpado,

Excita à ebriedade o rei da festa

Seus libertinos, cínicos parceiros.

Bela, apesar do vicio, a fronte esbelta

Aos joelhos do amante repousando,

Herodias sorri. De espaço a espaço,

Gracioso escanção, ágil, travesso,

Demônio de malícia em tenra idade,

As taças de ouro que a seus pés reluzem,

De excitante falerno enche, dizendo

Imodestos gracejos. Nenhum pajem

Do mais devasso camarim do império

O vencera em audácia e desvergonha!

Entretanto, meu Deus! é uma menina,

No albor da adolescência, rósea, loira,

Olhos azuis brilhantes, lábios de anjo!

E esta menina é filha de Herodias!...

XIII

Mas, pouco e pouco, se entibia e passa

O ardor da saturnal. Ébrios e fartos,

Estiram-se e bocejam sonolentos,

Os heróis do festim: a vil preguiça

Vence a voraz e crassa intemperança...

Então, como entendendo os pensamentos

Que da mãe tediosa a fronte nublam,

Corre a menina astuta, a sala deixa,

Deixa os vestidos leves que trajava,

Cinge de rosas a gentil cabeça,

Desnuda os seios, a cintura enfeita

De perfumadas e vistosas faixas,

Toma um ebúrneo tamboril, coberto

Dos mais finos e artísticos lavores.

E do espelho fiel se despedindo,

Volta faceira à sala do banquete.

XIV

Os tangedores, avisados, rompem

Nas mais doces e ternas harmonias;

Os convivas levantam-se surpresos:

Derramam servos nos braseiros ricos

Perfumes sem iguais. Senta-se Herodes,

Estremece Herodias. Entretanto,

Escrava da cadência, mas senhora

Das requebrados, lânguidos meneios,

Sobre as flores dos séricos tapetes,

Mais ligeira que a leve borboleta,

Mais bela que os espíritos errantes.

Que à noite brincam nos rosais cheirosos,

Ela volteia — a doida bailadeira!

Na dança figurada, aos ágeis passos

Mistura os mais garridos movimentos,

Os gestos mais lascivos. Arquejante,

Às vezes para do salão no centro,

Suspira e cerra os olhos... vai, quem sabe,

Sucumbir de cansaço! Mas engano!

Reanima-se, ri, levanta os braços,

Flexível como a serpe encurva o corpo,

E num rápido giro se aproxima

Do fascinado Herodes, sacudindo

Sobre seus pés as rosas da grinalda,

Entre os aplausos mil dos assistentes.

Depois, qual passarinho caprichoso,

Que das nuvens descendo, em tarde estiva,

Modera o voo, quando a terra avista,

Ela os passos afrouxa, e segue a medo,

O mais lento tanger dos instrumentos.

Imita a corça, quando alegre salta,

Quando corre veloz; é viva abelha

Sobre os lírios dos vales adejando;

Mimoso colibri, quando descansa,

Tão leve, que não dobra das alfombras

A mais delgada flor! Por largo tempo,

Assim deleita a vista dos convivas;

Ofegante por fim, extenuada,

Faz um último esforço, e mansamente

Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.

XV

 — Oh!... Pede o que quiseres, não vaciles!

Inda que sejam meu governo e erário,

Juro que tos darei! — grita enlevado

O romano senhor, — eia, responde! —.

Então do ódio escuro o escuro gênio

Aos ouvidos murmura de Herodias:

 — Lembra-te do Batista! — Estranho lume.

Da régia libertina inflama os olhos,

Vivo rubor lhe sobe ao lindo rosto;

Chama a filha imprudente, ao colo a estreita,

E um conselho cruel lhe dá baixinho.

XVI

 — Oh rei! diz a volúvel dançarina,

Se a promessa que parte de teus lábios

Um gracejo não fosse... — Pelos deuses,

E deusas imortais! — Herodes brada,

Seja eu ludíbrio do plebeu mais rude

Se alguma cousa te negar! — Desculpa,

Se duvidei de ti, — pois bem, atende:

Sabes quantas afrontas recebemos

Do protervo Batista, — diz a moça, —

Que punição lhe deste? Descuidoso

Nos terrados de vasta fortaleza,

Em risonha colina levantada,

Escarnece de ti!... Agora escuta,

E cumpre como um rei o que juraste:

 — Dá-me a cabeça do Batista! — Herodes

Treme, os olhos abaixa, e não responde.

 — Hesitas?... E da mesa do banquete

A filha de Herodias se aproxima,

Lança mão de uma salva primorosa

Que ao tirano apresenta: — Nesta salva

Quero a cabeça do Batista — O bárbaro

Chama o chefe da guarda que o servia:

 — Escutaste? — Escutei. — Parte, e obedece!

Eis meu anel, te servirá de senha. —

O sinistro emissário a sala deixa.

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XVII

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Vai alta a noite. Os ventos do deserto

Engolfam-se, gemendo, nas seteiras

De Macaur, o lúgubre castelo

Onde pena o Batista. As névoas passam

Sobre as grossas ameias, semelhantes

A soltos flocos de algodão silvestre,

Dispersos pelo espaço. Nas cimalhas,

Que as borrascas e o tempo enegreceram,

Agitam-se as estriges agoireiras,

As videntes da sombra. Ao lado ruge

Feia torrente em broncas penedias.

XVIII

Carregado de ferros, junto às grades,

Amortecido o olhar, lívido o rosto,

João comtempla uma estrela solitária,

Que pouco a pouco apaga-se e se afunda

Nos véus caliginosos do Ocidente.

Nem um amigo, um sócio de infortúnio,

Nem uma voz humana, as longas horas

Amenizam do pobre encarcerado!..

Do teto escuro e baixo, gota a gota,

Ressuma, estala e cai no chão lodoso

Condensada humidade; nos recantos

Da cripta tenebrosa, livremente

Passeia o escorpião, a osga brinca,

Arrasta-se tranquila a treda víbora.

Que pungentes lembranças, que saudades

Amargas e cruéis, que pensamentos

Sinistros e aflitivos não torturam

Do filho de Isabel a mente e o peito!

Quem pudera saber o que se passa

Naquela fronte heroica? — Porventura,

À luz da bela estrela que cintila,

Qual uma gota de amoroso pranto,

No triste véu da noite, ao longe avista

As montanhas natais, frescas e umbrosas,

O vale do Jordão, e os verdes bosques

Das encostas do Hermon? Os lindos campos

Dos terrenos de Dan, cheios de flores,

Cobertos de rebanhos? — Porventura,

Lembra-se de Jesus e seus amigos?

Das santas penitências do deserto?

Dos primeiros milagres do batismo?

Chora os tempos felizes que passaram?

Ou, tomado de horror, mede o futuro,

E só vê dissabores e amarguras,

E talvez o suplício?... — Oh! não! a morte

Não amedronta o rígido profeta!

O martírio... não teme, antes o aspira

E aguarda, como a prova gloriosa

De seu zelo e fervor; o mais... que importa!..

XIX

Qual, entre os nevoeiros do Oceano

Some-se a vela que a remotas praias

Leva nossos amores e esperanças,

Tal, entre a cerração desaparece

A solitária estrela, a casta amiga

Das noites do profeta. Quebrantado

Pela longa vigília, João descansa

Sobre a gélida mão a fronte ardente,

E cerra, suspirando, os turvos olhos....

Mas, uma luz esplêndida, divina,

Da sombria prisão clareia os muros,

E um anjo do Senhor pousa tranquilo

Entre os grilhões do pálido cativo.

João estremece; a imagem do verdugo

Ao pensamento acode-lhe. — Estou pronto,

São horas de partir? — severo indaga

Sem levantar o rosto. — Sim! — responde

O celeste enviado, ergue-te, e vamos

Para o seio de Deus! João abre os braços....

O anjo do Senhor desaparece.

XX

Um profundo rumor, triste, confuso,

Pelas negras abóbadas retumba;

Rangem as chaves e as pesadas portas

Movera-se sobre os quícios, vagarosas;

Surdo tropel e vozes misturadas

Espalham-se nos longos corredores;

Vivo clarão derrama-se nos cantos

E esverdeados, úmidos pilares,

De sanguinosa cor tingindo as lájeas;

Um magote de esquálidos esbirros

E sequazes de Herodes se aproxima,

E rodeia o profeta. — Ilustre mestre,

Grita um ébrio soldado, motejando,

Rende graças à amásia de teu amo,

Está findo o teu triste cativeiro!

.............................................................................

Ai! O que então seguiu-se, a língua humana

Não pôde descrever! Meus lábios tremem,

E minha voz não passa da garganta!...

XXI

A rósea luz, porém, da madrugada

Furtiva e triste ganha os aposentos

Do régulo cruel: mais receoso

Não entra olhar de virgem timorata

De vil bordel no sórdido recinto.

Por novas libações estimulados,

Cantam loas nefandas, tripudiam,

Como tomados de delírio insano,

Cavaleiros e damas; quanto a Herodes,

Ébrio, despido, a bacanal preside!...

XXII

Mas.... Silêncio! Um sussurro temeroso

Soa nas ante-salas, tinem armas,

Batem pesados, numerosos passos

Sobre o sonoro chão; os cantos cessam,

Cessam as danças e os clamores loucos,

Voltam-se todos para a grande porta.

 — Vossas ordens, senhor, estão cumpridas! —

Diz o chefe da guarda aparecendo

À frente de seus lúgubres sicários,

 — Eis aqui a cabeça do Batista! —

XXIII

Horror!... Horror!... Um grito de surpresa

Parte dos lábios todos. Boquiabertos,

Deixam alguns cair as áureas taças

Das esquecidas mãos; outros se agitam

E saltam sobre a mesa, espedaçando

Os vasos de cristal, os belos pratos,

As ânforas e jarras preciosas;

Outros se precipitam cegos, tontos,

Tropeçando nos bancos e almofadas,

E à roda do tirano se aglomeram.

XXIV

Esplêndida e festiva, a luz d’aurora

Clareia a sala, então, e cai suave,

Carinhosa, talvez, na argêntea salva,

Onde, serena e calma, semelhante

À fronte de uma estátua alabastrina,

Jaz do Batista a pálida cabeça.

As artérias e veias pouco sangue

Sobre a luzida prata derramaram

Nem uma contração, nem uma ruga

Desfiguram o cândido semblante,

Onde, em vez do terror, deixou a morte

A placidez do sono da inocência!

Ligeira sombra lhe circula as pálpebras,

Docemente cerradas; meigo riso

Parece lhe animar os frios lábios!...

É, que, no triste instante, a alma divina

Contemplava o infinito! Ouvia as harpas

Dos anjos do Senhor, preludiando

De sua exaltação os belos hinos!

Folgava, e os lábios riam!... — 'Stás contente?

Pergunta o rei à filha de Herodias.

Mas a jovem pantera não responde:

Como a pantera que uma luz espanta,

Olhos parados, suarento o rosto,

Presa a voz no laringe, anseia e treme;

Recua aos saltos; quer falar, não pode;

Quer afastar a vista fascinada

Do pavoroso quadro, e em vão se esforça!

Por fim, erguendo os braços convulsivos,

Solta um grito pungente e angustioso,

E cai sobre os coxins desfalecida.

.............................................................................

Esta inaudita atrocidade assombra

Os discípulos de João. Mudos, errantes,

Chorando a ausência do inspirado mestre,

E prevendo, talvez, igual destino,

Buscam as mais remotas soledades,

E depois de trabalhos excessivos,

De amargos sofrimentos, se dirigem

Da Galileia às plácidas campinas,

Procurando Jesus e seus amigos.

XXV

Na terceira jornada, à hora sexta,

Chegam por fim ao desejado termo;

De um lago à borda o Salvador encontram,

E antes ainda de o saudar, assistem

A pasmoso milagre. O Mestre excelso,

Compadecido do esfaimado povo,

Que o seguira escutando as santas prédicas,

Com cinco pães apenas, e dois peixes,

Sacia a fome a cinco mil pessoas,

E restos deixa, sobre a relva esparsos,

Que doze cestos volumosos enchem.

Mas os pobres amigos do Batista,

Depois da refeição, tristes, humildes,

Baixos os olhos, a expressão dorida,

Se aproximam de Cristo; copioso

O pranto, lhes alaga o branco rosto.

 — Oh! não choreis, o Salvador lhes fala.

Mais feliz do que vós, eterno vive

Aos pés do Onipotente o amado mestre! —

 — Pois que! Senhor, sabeis?... — Ah! sei de tudo,

Responde o Salvador, — ficai comigo.

XXVI

As multidões, porém, maravilhadas

Por tão altos prodígios, novo plano

Formam, ventilam, rápidas resolvem.

 — Jesus de Nazaré! logo exclamam,

Tu és forte, potente, sábio e justo,

Sê nosso rei. Liberta-nos do jugo

Pesado e férreo do pagão Romano!... —

O Salvador sorri, afaga o povo,

Mas depois mansamente se retira

E entrega-se à oração em ermo sítio.

XXVII

Meia-noite!... Hora lúgubre e sinistra,

Quando entre a luz e a sombra, vacilante,

Junto ao marco de bronze, para o tempo,

Fazendo à noite e ao dia esgares turvos!...

Meia-noite!... no seio das florestas

Repousa o passarinho, a fera dorme,

Suspira a viração. É mudo o campo.

A lua desvendada, e mais formosa

Do que o nácar marinho, o céu percorre,

Como um cisne alvejante em manso lago.

Sobre o tapiz da relva, sonolentos,

Os companheiros de Jesus descansam;

A poucos passos, entre verdes balsas,

Ora e medita o Mestre. Longas horas

De silêncio e terror sobre eles passam.

 — Irmãos, diz um baixinho, — porventura

Dorme o Senhor? — Talvez, outro responde.

 — Vejamos, fala Pedro, os outros chama,

Erguem-se e cautelosos se aproximam

Do perfumado, verdejante abrigo:

Mas, ofuscados param, débil grito

Em seus lábios fenece; apavorados,

Uns contra os outros cerram-se, tremendo...

Que viva luz feriu-lhes as retinas?

Que flamejante gládio ergueu-se à frente

Dos servos do Senhor? Que ferro em brasa

Lhes roçou pelas carnes?... Pobres seres!

É que o meigo Jesus, o lhano amigo,

O modesto e singelo companheiro,

Pela primeira vez se revelava

Em toda a glória da divina essência!...

Oh! não há duvidar! É ele o Cristo!

Mas seu corpo, seu rosto, os belos olhos,

O sorriso, a expressão, não são terrestres!

Da humanidade o sangue não anima

Aquelas formas lúcidas, etéreas,

Onde a celeste perfeição fulgura,

Não à corpórea vista, mas à vista

Sublime da razão!... Loucos poetas!

De límpido cristal, de neve fúlgida,

À luz do sol nascente refletindo

As pompas mil do primitivo mundo,

Diríeis as brilhantes vestimentas;

Diríeis, das mais nítidas estrelas,

Nos primores do íris, semeadas,

Formado o resplandor da fronte augusta!

Fontes de luz, auroras do infinito,

Oceanos de graças inefáveis,

Seus olhares diríeis!... Vãs palavras!

Frias imagens de precário sonho!

Afadigoso esforço!... Aves da terra,

Águias das brenhas, rasgareis o espaço,

E o sol contemplareis na imensidade;

Copiareis do prisma as lindas cores;

Da aurora boreal a refulgência

A vossos quadros passareis; dos astros

Dareis a claridade a vossas obras...

Mas a grandeza do Senhor... Loucura!...

 — Aos pés do Salvador, em áurea nuvem,

Mais leda que o arrebol da madrugada

Os páramos polares clareando,

À destra, humilde e majestoso a um tempo,

O nobre vulto de Moisés descansa,

Como outrora no cimo da montanha,

Sobre as tábuas da lei, ouvindo o Eterno;

À sinistra, o colosso dos profetas,

O espanto de Israel, grave e severo,

Como em seu ígneo carro triunfante,

Repousa o ilustre e venerando Elias!...

Uma luz implacável tudo envolve.

Qual imenso bulcão, em cujo bojo

Ruge e circula a férvida matéria

D'onde procede o raio, a terra treme,

E funda, e surdamente brama e ronca!

 — O espírito de Deus abala o espaço.

XXVIII

Os companheiros de Jesus recuam,

Voltam os olhos, nada mais enxergam!

Possuídos de medo, e refletindo

Que a cegueira os tocara, ao chão se arrojam,

E nas úmidas mãos o rosto ocultam.

Quais infantes que sonham, quais enfermos

Cujo cérebro vário a febre escalda,

Soltam palavras ermas de sentido,

Assim falam na relva debruçados:

 — Senhor! Senhor! contigo ficaremos!

Exclama o velho Pedro, — cumpre agora

Levantarmos três tendas que protejam

A vós, a Elias e a Moisés!...

Apenas

Estas estultas expressões dissera,

Que uma nuvem medonha se desdobra

Tudo envolvendo no trevoso seio,

E da nuvem terrífica rebenta

Um brado atroador: — Este é meu Filho

Amado e predileto, hei posto nele

Toda a minha infinita complacência!..

 — Erguem-se então os trêmulos amigos

Mas Jesus está só, e tudo é lindo.

XXIX

Descai a noite santa, a fulva aurora

Dos umbrais do Levante expele as sombras.

Lança um chuveiro de ouro nas campinas;

Cantam as aves; sobre os mansos lagos

Brincam os martinetes e as cegonhas,

E os búfalos robustos se refrescam

Nas ondas transparentes; sobre os vales,

Sobre os prados e bosques, desce a vida,

Leda filha da luz, da luz nos raios.

Busca o Senhor os campos orvalhados,

E detendo-se à margem de um ribeiro,

Dos discípulos os doze que elegera

Chama junto de si, e assim lhes falta:

 — Como a luz que rebenta do Oriente

E alumia as nações e os povos todos,

São da Lei os preceitos imutáveis,

São as grandes verdades do Evangelho.

Vai começar vossa missão penosa:

Ide por esse mundo, e ao pobre, ao rico,

Ao senhor e ao escravo, ao forte e ao fraco,

Anunciai de Deus o eterno reino.

O poder dos milagres vos transmito;

Curai o enfermo, esclarecei o indouto,

E tríplice farol que vos inspire

Sejam as mais sublimes das virtudes:

 — A Esperança, — a Fé, e a Caridade!

Caminhai sem cuidados, nem receios,

Não leveis sobre vós pelas jornadas,

Pão, vitualhas, roupas, mantimento,

Nem valores em prata, ouro, ou dinheiro;

Mas tomai um bordão, calçai sandálias,

Trajai apenas uma pobre túnica.

Na casa hospitaleira onde parardes,

Nas aldeias, nas vilas, ou cidades,

Demorai-vos aí, não busqueis outra,

Até o instante de marchar de novo.

Se entre os homens alguns vos despedirem,

Negando-vos repouso em seus albergues,

Se zombarem de vós, menosprezando

Os sagrados preceitos que ora ensino,

Retirai-vos sem ódio e sem queixumes;

E quando longe fordes de seus tetos,

Sacudi a poeira das sandálias,

Que vos há de servir de testemunha.

Ide, e sede fiéis ao que vos manda!

 — Cheios de santo ardor e santas crenças,

Afastam-se os discípulos de Cristo,

Buscando opostos rumos, e espalhando,

Por toda parte onde seus passos levam,

As promessas divinas do Evangelho.

Alguns dias depois, entre os que restam,

Setenta e dois o Salvador convoca,

Dá-lhes as mesmas instruções que aos outros,

E, pobres de moeda, porém ricos

De ciência e virtude, os abençoa,

E os envia a pregar a Lei divina.

XXX

Cala-se neste ponto o missionário,

E como sói fazer, despede as gentes,

Deixando para a próxima semana

O seguimento da Sagrada História.

 

CANTO V

Imprimirei a minha lei nas suas entranhas, e a escreverei nos seus corações...

E não ensinará daí em diante varão ao seu próximo, nem ao seu irmão, dizendo:

Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão desde o mais pequeno deles até ao maior, e perdoarei a sua maldade, e não me lembrarei mais de seu pecado.

(JEREMIAS XXXI, v. 33, 34).

I

Oh Natureza! Oh Glória do Universo!

Musa da criação! Mãe compassiva

Dos simples corações, das almas puras!

Quais são da vida as penas e desgostos

Que teu condão sublime não dissipe?...

Nessas colmeias sociais, sem conto,

Onde o frio egoísmo e a vil cobiça

Libam o grato mel, deixando as fezes

Aos deserdados filhos da fortuna,

Vi o pai de família angustiado,

Fugindo a esposa, a prole, em cujas faces

Plúmbeas nódoas lançara a fome horrenda,

Agitar-se raivoso, entre as mãos frias

Convulsivo apertar o brônzeo tubo

De fatal instrumento, e rir-se!... e rir-se!...

Vi à borda do abismo onde a pusera

O delírio, a loucura, pobre moça,

De escuro vaso em cristalina taça

Gota a gota entornar o negro sumo

De venenosa planta, e muda, e triste

Considerar a cor, sentir o aroma

Do liquido funesto!... Junto aos muros

De vasta fortaleza, onde medonhos

Cem canhões colossais desafiavam

As fúrias de inimigos sanguinários,

Vi o velho guerreiro retalhado

De nobres, gloriosas cicatrizes,

Sacudir a cabeça, duvidoso,

Tirar da cinta a reluzente espada,

Inda quente do fogo dos combates,

E dirigi-la ao peito!... Oh Natureza!

Musa da criação! Mãe compassiva

Dos simples corações, das almas puras!

Nessas horas de febre e desespero,

Quando os sábios dormiam, tu vieste

Em socorro dos tristes! Carinhosa

Sobre eles estendeste o vasto manto,

O manto protetor. Ao pai aflito

Mostraste a santa luz da Providência,

O lábaro divino, o céu, a terra,

E fontes de riqueza em toda a parte,

Em toda parte fontes de esperança!

À mulher desditosa os belos quadros,

Os lares da família, os quentes ninhos,

Onde pousam as rolas amorosas,

Cantando junto aos filhos inda implumes,

As doces emoções que santificam,

E tornam forte um coração materno!

Ao bravo postergado, sem amparo,

Sem galardão, nem glória, o vale umbroso,

O retiro das serras, e os desertos,

Onde, ao lado do pássaro e do inseto,

Da verbena e da faia, existe sempre

O pequeno lugar de uma choupana!...

Oh Natureza! Oh Guarda vigilante

Dos pobres, dos aflitos!... Quão risíveis

São da sociedade honras e galas,

E prêmios pueris! Que montam festas,

Que montam festas de vaidade e fumo,

Quando a esperança, o faro derradeiro

Que entre os parcéis da vida os seres guia

Perde-se em nevoeiros?... Tu, somente,

Nos alentas, fiel, inalterável!

Novas ideias a nossa alma inspiras!

Novos, santos prazeres nos procuras,

E nos ensinas mais feliz linguagem,

A linguagem de Deus e da verdade!...

II

 — Sobre esse escuro e carcomido tronco,

Onde os velhos da tribo descansavam

Para os conselhos presidir d'outrora,

Senta-te, e enquanto diligente e sábia

Aos cuidados da casa a mãe acode,

Conta, Naída, o sonho pavoroso

De que alhures falaste. — Assim ordena

Da porta da cabana, onde nascera

A formosa conversa, o ilustre mestre.

Obedece à donzela e assim começa:

 — Eram horas da noite adiantadas,

Eram horas pressagas, horas mortas;

Já pela vez segunda a voz soltara

O galo, a voz rouquenha e feiticeira.

Nem eu dormia, nem desperta estava:

Fundo terror tolhia-me os sentidos.

Intentava gritar, porém meus lábios

Recusavam mover-se, e minha língua,

Presa à garganta pelo nó da morte,

Parecia gelada em minha boca!...

Fiz um supremo esforço: levantei-me.

Então.... Calou-se a virgem do deserto,

E nas mãos escondeu o lindo rosto.

 — Então? que viste? — lhe pergunta o mestre.

 — Sobre mim debruçado... a fronte horrenda,

Qual horrendo rochedo escalavrado

Pelo fogo do céu... rubros os olhos;

A formidável mão pesada e fria,

Fria e pesada qual medonha pedra

Do leito funerário de um precito,

Sobre meu peito angustioso estava...,

Ele estava!... — Ele, quem? — O negro gênio

Da perdição eterna! O anjo rebelde!

Tal como nos pintaste, sobre o monte

Tentando o Salvador! — Um ledo riso

Aos lábios assomou do missionário.

 — Graças a Deus, Naída, estou tranquilo,

Algo mais sério acreditei que fosse!

Tiveste um pesadelo; mas, prossegue. —

 — Oh, se eu então sonhava, sonho ainda!

Exclama a ingênua moça. — Mestre, ouvi-me.

Ossos, carnes, tremi!... Então ao longe,

Um grito ressoou, profundo, imenso,

Como a voz do trovão por sobre os mares!

 — Maldito! — E as selvas todas se abalaram,

E das grutas, das serras, e dos campos,

E dos mais afastados horizontes:

 — Maldito! — os ecos todos repetiram!

.............................................................................

 — Vi depois um deserto, um mar de areias,

Sem animais, sem plantas, sem regatos,

Sem um indício que lembrasse a vida,

Porém milhares apontando a morte!...

Por toda parte amarelados ossos,

Carnes corruptas, putrefatos restos!

Restos de escravos, restos de senhores!

Restos de ovelhas, restos de panteras!

Restos de abutres, restos de serpentes!

E o tigre e a presa agonizando juntos,

O verdugo e a vítima esquecidos

Na mesma confusão, no mesmo cabos!...

Um céu de ferro em brasa, um sol do inferno,

Um espaço sem nuvens, sem neblinas,

Sem vendavais, sem raios!... sempre calmo!

Horrendamente calmo e luminoso!

E esta palavra escrita, em toda a parte

 — Caim! — Cerrei por um momento os olhos,

Quando os abri de novo, era mudada

A face do deserto: — irado vento

As montanhas de areia arrebatava

Qual a brisa do estio as folhas secas.

De rubro incendiado em flavo baço,

Mais ominoso ainda, o céu tornou-se!

De instante a instante monstruosos galhos,

Arrancadas palmeiras, sibilavam

Como flechas sutis, atravessando

Nas asas dos tufões o torvo espaço!...

Daquela imensa confusão no meio

Eu vi passar um homem: seu semblante

Era grosseiro e negro como a rocha

Que branqueiam de escuma as frias vagas:

Seu corpo como o tronco do vinhático

Onde a chama brincou; sarça coberta

De pisado carvão a dura grenha.

Mãos e braços de sangue eram manchados!

De lado a lado olhava suspeitoso,

Parava aos sobressaltos, e tremia,

Não pela tempestade sacudido;

Porém... — Um brado assustador ergueu-se

Daquela horrível solidão de areias:

 — Caim! — Como o jaguar atravessado

Pelo dardo certeiro urra, e volvendo

Nas órbitas os olhos chamejantes,

O cauteloso atirador procura,

Assim ele rugiu! — Um véu de sombras

Tudo cobriu. Depois, qual nos abismos

Traidores e funestos do Oceano,

Contém o respirar, calcula as forças

O audaz mergulhador, o destro búzio,

Assim ele ficou!... Do pobre leito

Tudo eu via e sentia! O mar de sombras

Também caiu então sobre minh'alma!

.............................................................................

Mas o bulcão passou. Do vento as iras

Acalmaram-se logo. O descampado,

Onde os montões de areia se moviam,

Tornou-se liso e plano como um lago

Em tarde de verão. O homem sinistro,

Se ali estivera, sepultado estava. —

E Naída calou-se. O missionário

Tinha a cabeça baixa e refletia,

 — Está findo o teu sonho? — Oh! não ainda!

A virgem respondeu cobrando alento,

Ouvi mais um instante: — Ao longe, ao longe,

Além dos areais, vi levantar-se

Uma cadeia de alterosos montes

Cobertos de palmares graciosos.

Leves colunas de ondulante fumo

Erguiam-se do meio das folhagens;

Doces, ternas canções acompanhadas

De tangeres estranhos, ressoavam

Por aqueles sertões. Era distante,

Bem distante o lugar d'onde partiam,

Mas eu tudo escutava. Francos risos,

Brados alegres, compassados cantos,

Longo tempo minh'alma apavorada

Propícios distraíram. — Deus bendito!

Murmurei suspirando, — ali ao menos

Algum povo feliz habita e folga!

.............................................................................

Desgraçada ilusão! O homem sinistro

Nas montanhas surdiu, medonho, enorme,

Semelhante a um penedo alcantilado,

Que nas tardes de inverno as nuvens rasga

 — Caim! — bradou a voz da imensidade!

 — Caim! — Tudo findou-se, atro negrume

Rolou do céu, cobrindo as cordilheiras;

Escutei um rumor profundo e mesto,

Semelhante ao das águas das torrentes

Cavando o seio escuro dos abismos!...

E esse rumor crescia e atordoava

Os vales, as rechãs e as serranias!

E daquelas montanhas encobertas

Precipitou-se um rio impetuoso,

Ganhou os areais, ganhou as praias,

Vingou as vagas do Oceano irado,

Chegou a nossas terras, inundou-as,

Chegou até aqui, até meu leito!

Ergui-me, olhei... o rio era de sangue!

 — Caim — bradou a voz da imensidade!...

Senti nas faces o suor da morte,

Volvi ao céu os olhos ansiosos

Ele ali estava, o Filho de Maria,

Radiante, sublime! Ele ali estava!

De seu rosto divino, de seu corpo

Também caía sobre a terra o sangue,

Mas desse puro sangue rebentavam

Rosas e lírios, palmas e grinaldas,

Diamantes e rubins, e um povo imenso

Bradava jubiloso: — Liberdade!...

Está findo o meu sonho. — O missionário

Tinha a cabeça oculta entre os joelhos.

Pouco tempo depois ergueu-se. — Vamos,

Disse enxugando os olhos lacrimosos,

Nossos irmãos esperam-nos inquietos.

III

Rociada de orvalho, as plantas nuas,

Nuas as belas, cândidas espaduas,

Sobraçadas as vestes, desce a virgem

Dos climas tropicais, juncando a terra

De goivos e saudades. Salve, noite!

Salve, noite da América! Formosa,

Pura, em tua nudez, deixas o espaço

E vens-nos visitar; não guardam névoas,

Nem densas cerrações os teus encantos;

Se à fria Escandinávia, à fria Escócia

Baixas em longos mantos envolvida,

E triste, e muda, e tiritando passas,

A nosso ameno céu chegas risonha,

E nossas solidões buscas fagueira

Como a filha de um rei seus verdes hortos.

Salve, noite propícia! — Reunidos

Estão há muito os filhos do deserto,

E a voz aguardam do zeloso apóstolo.

É belo o céu, a terra sossegada,

Brando e odoroso o vento do deserto

Que nas folhagens úmidas farfalha,

E volteia travesso, e caprichoso,

Sobre o vermelho lume das fogueiras.

 — O ministro de Deus senta-se e fala,

Continuando a história interrompida.

IV

 — Além de muitos casos milagrosos,

Irmãos, contei-vos no serão passado,

Da transfiguração o alto prodígio,

A eleição dos apóstolos; e as santas

Instruções que lhes dera o amado Mestre

Fiel vos repeti. Ouvi-me, atentos.

O espírito de Deus nos ilumine,

E inspire minha voz: em vossas almas

Caiam minhas palavras, semelhantes

Às sementes fecundas do Evangelho.

 — Firme, incansável no divino empenho,

Prossegue o Salvador; desde as vizinhas

Aldeias da Itureia, até os montes

Da Judeia escabrosa, agreste e seca;

Desde as praias do mar, ‘té as campinas

Centrais de Traconites, corre a fama

De seu grande poder e de seus feitos.

Entre soldados mil, nos fortes paços,

Herodes estremece. — É João Batista,

Que mandei degolar!... medroso exclama.

 — É João Batista que deixou dos mortos

A sombria mansão, e volta ao mundo

Mais terrível ainda... — Oh, não! respondem

Os perjuros hebreus, que humildes beijam

Os degraus de seu trono — é um profeta

Igual aos d'outras eras! É, quem sabe...

É Elias, que desce das alturas

E traz consigo o raio da vingança! —

 — Quê? — murmuram os mais, este mancebo

Não nasceu entre nós? Não conhecemos,

Porventura, seus pais e seus parentes?

Que letras aprendeu? Aonde? Quando?

Como se atreve a professar doutrinas?

Porém Jesus responde-lhes apenas:

 — Entre seus comarcãos e conterrâneos,

Na casa de seus pais, nenhum profeta

É crido e bem aceito! — E imperturbável

Passa, e os ouvidos cerra a tais rumores.

V

Deixando os verdes prados e as campinas

Da Galileia superior, tristonho

Desce o Jordão, e em meio de seu curso

Perde em Genesaré, escuro lago,

O nome e a cor das águas celebradas,

Para depois seguir mais cheio e forte

Até o leito impuro do Mar Morto,

Em cujas ondas fétidas, sulfúreas,

Segundo a tradição, jazem os restos

De Sodoma e Gomorra. Às férteis bordas,

Da banda ocidental, entre a frescura

Dos bosques florescentes, lindas veigas,

Levantam-se choupanas de pastores,

Belos casais e aldeias aprazíveis,

Apriscos e currais, ledos retiros,

Onde saltam formosos cordeirinhos,

E a voz dos pegureiros se mistura

Às singelas cantigas das zagalas.

Cafarnaum alveja entre as folhagens

Das balsas odorosas, Betsaida

Espelha-se nas águas sussurrantes

Que lambem-lhe as muralhas. Nesses sítios

Onde do mundo as ambições não chegam,

E a doçura do clima, a luz macia

De um céu sempre sereno alegra as almas,

Demora-se o Senhor por algum tempo.

Surdos boatos, agoureiras vozes,

Chegam a seus ouvidos. Os sequazes

Dos grandes de Israel o povo iludem

E açulam contra o filho de Maria.

Buscam para o matar por toda parte.

 — É cedo ainda, — o Salvador murmura,

E descansa entre os seus calmo e tranquilo.

VI

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0 silêncio e a sombra a terra invadem.

Calam-se as aves. Descoradas, frias,

Sobre as hásteas inclinam-se as boninas.

Gemem as fontes nas escuras penhas,

E no meio dos ásperos fraguedos

Piam da noite os pássaros sinistros,

Livre das multidões impacientes,

E dos censores importunos livre,

Detém-se o Salvador do lago à borda:

Explica aos seus os íntimos intentos,

E os manda a Betsaida, ao lado oposto.

Quando juntos os vê, e o leve barco

Ao compasso dos remos, pouco e pouco

Faz-se ao largo, singrando as ondas mansas,

Busca o fastígio de escarpado monte,

E aí, sobre um penedo enegrecido,

Largo tempo sozinho ora e medita.

VII

Vai alta a noite. As pálidas estrelas,

Medrosas da manhã que se aproxima,

Apagam-se no azul do firmamento.

Tudo repousa... Não! Pelos caminhos

Ingratos do deserto, erram perdidos

Muitos pobres romeiros; muitos nautas

Vogam sem rumo na soidão dos mares!

Muitas frontes vigiam suarentas

Sobre a mesa do jogo, ou sobre os livros,

Sobre o leito de angústia, ou sobre o berço

Da infância inconsciente! O sono amigo,

O sono irmão da morte, a poucos seres

As doçuras concede do descanso!...

Descem do espaço os brancos nevoeiros,

E sobre o monte, o vale, a praia e o lago

Espalham lentamente os véus fugaces.

Esperando que a luz da madrugada

Clareie a terra e os seres reanime,

Os sócios do Senhor deixam os remos,

Ateiam fogo sobre um grande vaso

De argila recozida, e reclinados

Sobre as pranchas do barco flutuante,

Se aquecem conversando. Já, de longe,

Nos pátios dos casais das verdes margens

Soltam a voz os vigilantes galos,

Anunciando a aurora que não tarda;

Já o cansaço e o sono os olhos turvam

Dos singelos amigos, e adormentam

Os membros fatigados, quando um grito

De assombro e de terror os chama à vida.

Quem brada assim? Foi a ilusão de um sonho,

Ou imprevisto mal que ao peito humano

Esse grito arrancou!... — Ah! és tu, Pedro!

Pedro! Pedro! que tens? — perguntam todos.

Mas Pedro não responde, branco, imóvel,

Fixos os olhos, estendido o braço

Para o meio do lago: arqueja e treme.

Todas as vistas se dirigem logo

Para o ponto indicado, e todos soltam

Um pavoroso grito. — Quê! amigos,

Diz uma voz suave, porventura

Posso causar-vos medo? Ao frio susto

A surpresa sucede: — Mestre! Mestre!

Sois vós! — Eu sou, não receeis, quedai-vos.

.............................................................................

Qual em fino tapete ou verde relva,

Firme, de pé, o rosto resplandente,

Jesus caminha sobre a lisa face

Do lago adormecido. — Ao vê-lo calmo,

Meio vendado pelas brancas névoas,

Dir-se-ia que as águas cristalinas

Tinham-se congelado, ou braços d'anjos

Invisíveis sustinham sobre o abismo

Seu puríssimo corpo. As longas vestes

Na fria superfície enxutas roçam,

Nem um respingo molha-lhe as sandálias

Que fundos frisos sobre as águas deixam

A cada movimento; auras suaves

Agitam-lhe os cabelos mansamente

E nas dobras do manto alegres brincam;

Um meigo olhar, um cândido sorriso

Animam-lhe o semblante gracioso.

VIII

 — Se uma ilusão não és — exclama Pedro,

Se não és um espectro vagabundo

Que nos vem assombrar, senão o Mestre

Que servimos e amamos, manda, ordena

Que forte como estás sobre estas águas

Eu mova-me também, também caminhe

E me acerque de ti! — Vem, pois, eu quero,

Responde o Salvador, mas não duvides! —

Pedro agarra-se à borda, inclina o corpo,

Galga as tábuas delgadas, cauteloso

Estende os pés, e achando firme pouso

Desembaraça as mãos, e ei-lo contente,

Surpreso caminhando sobre as ondas!...

Mas, desgraça! Uma rábida lufada

De subitâneo vento silva e passa,

Atirando-lhe ao rosto a fria escuma

Das águas agitadas; a lagoa.

Até então serena e transparente,

Torna-se negra, encrespa-se, sacode

Como um brinco infantil a frágil barca!

Pedro para, estremece, enruga a fronte,

E tomado de horror, sente-se abrirem

Sob seus pés as vagas mugidoras,

E quase a perecer, grita: — Salvai-me!

Senhor! salvai-me! que me afogo! — e estende

Para Jesus os braços convulsivos.

 — Criatura sem fé! — por que duvidas? —

Lhe diz o Salvador; vem, não te assustes. —

E trava-lhe da mão, põe-no a seu lado,

E de novo caminham sobre as águas

Até chegar à barca. — Oh! na verdade,

É o Filho de Deus!... exclamam todos

Que este milagre viram; e aterrados,

À voz do Salvador, erguem-se prontos,

Tomam dos remos, a lagoa fendem,

E sobre as ondas resvalando asinha

Pouco tempo depois à praia abeiram.

IX

A vinda de Jesus alegra o povo

E as gentes alvoroça. Pressurosos,

Correm a vê-lo aflitos e doentes

Que a fama de seu nome alenta e move.

Ninguém chora debalde, ninguém pede

Seu auxílio debalde, ninguém segue

Debalde os rastros de seus pés divinos,

Ninguém aos lares volta sem consolo!...

Ora, entre o povo humilde que se ajunta

Para ouvir as verdades do Evangelho

Ou implorar do Mestre os benefícios,

Os fariseus e saduceus avultam:

Sempre invejosos, refalsados sempre,

Tecendo enredos, invertendo os fatos,

Buscam nos modos, nas ações, nas faltas,

Na vida do Senhor e em seus princípios,

A sombra de uma ofensa à lei, aos usos,

Ou às ordens cruéis de seus tiranos.

 — Mestre, fazei-nos ver algum milagre,

Dizem dolosamente, as turbas contam

Que heis operado inúmeros prodígios,

Nada porém sabemos; atendei-nos,

Pois creremos em vós. — Não há cegueira

Como a daqueles que rebeldes cerram

As pálpebras à luz, responde o Mestre.

Abri os olhos, contemplai o mundo

E milagres vereis por toda parte!

Quando se esconde o sol, e o firmamento

De rubra e viva cor brilha e fulgura,

Convosco murmurais: — calmo e sereno

Será o dia de amanhã, pois rubro

E formoso é o céu; mas, quando a aurora

Descorada aparece no Oriente

Entre nuvens vermelhas, porém tristes,

Dizeis convosco: — hoje haverá tormenta.

Quê! Sabeis ler no céu, mas neste mundo

Não decifrais dos tempos os mistérios!...

Oh! geração adúltera e perversa!

Um milagre pedis em altas vozes,

Mas só tereis de Jonas o milagre,

Que três dias passou no frio ventre

De monstro horrendo em tenebroso abismo,

E à luz voltou de novo! — Assim falando

Afasta-se o Senhor, deixando-os pasmos.

X

Dos amigos fiéis acompanhado,

Sequioso de paz e de sossego

Para as santas doutrinas explicar-lhes,

Busca Jesus os lúcidos retiros

De Cesareia de Filipe. O tempo

Corre veloz, e o prazo necessário

De seus dias na terra se restringe.

Uma tarde, ao sol posto, refletindo

Sobre a cegueira e perversão dos homens,

Volta-se aos companheiros e interroga:

 — O que se diz de mim por essas vilas

E por essas cidades? O que pensa

E fala o pobre povo a meu respeito?

O que julgam aqueles que me cercam,

E pedem meu auxílio, e atentos ouvem

Da Nova Lei as máximas fecundas! —

 — Dizem uns que és Elias, lhe respondem.

Outros que és o Batista, outros ainda

Que és Jeremias, mas ninguém duvida

Que tu sejas do Eterno um mensageiro.

 — E tu, quem dizes que sou eu? — pergunta

A Pedro o Galileu — Tu és o Cristo,

O Filho de Deus vivo, — lhe responde

O velho pescador no mesmo instante.

 — Oh! bem-aventurado és tu, pois creste,

Não no que o sangue revelou e a carne,

Senão meu Pai que está no céu, — exclama

Comovido Jesus; — e pois, te digo

Que tu és Pedro e que serás a pedra

Sobre a qual fundarei a minha Igreja,

E nunca poderão do inferno as portas

Prevalecer contra ela! — Ouve, não tremas.

Do eterno Reino te darei as chaves,

E tudo o que ligares sobre a terra

Será no céu ligado, e tudo aquilo

Que sobre a terra desligado houveres,

Desligado será no céu. — Por ora

Cumpre sobre o que ouvis guardar silêncio:

Os dias do martírio se aproximam,

Vai rebentar o temporal da ira

Sobre o Filho do Homem! Perseguido,

Preso, julgado, condenado à morte,

Aos verdugos entregue, o extremo alento

Soltará nas angústias do suplício!

Mas, ao terceiro dia triunfante,

Quebrando a dura lousa do sepulcro,

Ressurgirá dos mortos. Necessário

É que a vontade eterna se execute,

XI

Depois destas proféticas palavras,

Caminha o Salvador, anunciando,

Pelas casas dos pobres e infelizes,

O reino do Senhor, e a Lei divina.

 — Eis o homem de Deus, — eis o profeta,

Os fariseus murmuram, eis o santo!

Censura os vícios, repreende os grandes,

E se aquece ao fogão dos publicanos,

Dos pecadores se recosta à mesa!

Jesus deixa-os falar, depois responde:

 — Quem possui cem ovelhas, mas um dia

Sabendo que uma corre desgarrada

Nas grandes solidões, não deixa as outras

E voa a procurá-la? E quando a encontra

Não põe-na aos ombros, e não volta alegre,

E não folga, dizendo a seus vizinhos:

Julguei perdida minha pobre ovelha,

Perlustrei o deserto, pressuroso,

E topei-a por fim, ei-la em meus braços!...

Oh! maiores serão do céu as festas

Por um só pecador arrependido

Que volte à santa grei, do que por justos

Noventa e nove que ditosos vivem!

 — Ouvi-me ainda, o Salvador prossegue:

Tinha dois filhos um varão preclaro,

O mais jovem dos dois, gênio versátil,

Louca imaginação, enfeitiçada

Pelas glórias do mundo e seus deleites,

Chega-se ao nobre pai e assim lhe fala:

 — Dá-me a parte dos bens que me compete.

Moço e robusto, rico de esperanças,

Quero trilhar da vida os mil caminhos,

Sondar todos os mares da fortuna —

Tristonho e pesaroso o pai os chama

E com eles reparte os seus haveres.

O mais velho tranquilo permanece

No bendito solar de seus maiores:

O mais novo, porém, ave inconstante,

Bate as asas, volteia, o ninho deixa

E voa pelo mundo. Os anos passam,

Passam da mocidade os vagos sonhos,

E o mancebo infeliz de erro em erro,

De vício em vício tropeçando rola,

E cai no lodaçal medonho e fundo

Da mais feia miséria! Os sócios torpes,

Os parceiros de orgias e banquetes,

Vendo estancada a fonte dos prazeres,

Voltam-lhe as costas, cautelosos fogem,

Evitam encontrá-lo, arreceando

Pedidos importunos. A tristeza,

A nudez e a fome o pobre cercam!...

Cansado de esperar melhor destino,

Suplica a proteção de rico herdeiro

Que a distante casal o manda, e entrega

De imundos porcos o cuidado e a guarda.

Ora, pesando as cousas, refletindo

Sobre o mísero estado em que se achava,

Exclama suspirando o desgraçado;

 — Quantos criados, quantos jornaleiros

Na casa de meu pai vivem à farta,

E aqui pereço à míngua! Irei, contrito

Prosternar-me a seus pés; direi chorando:

Oh! meu pai! Oh! meu pai! Pequei, bem vejo,

Contra Deus, contra ti! Já não mereço

De filho o doce nome... não me afastes

De teus olhos, senhor, muito hei sofrido.

Dá-me um pobre lugar entre os teus servos

Ou entre os jornaleiros dá-me emprego!...

Firme neste propósito, caminha,

Caminha resoluto e o pai procura,

 — Quê!... Tu voltas a mim? Oh sê bem-vindo! —

Diz o nobre ancião, e alegre corre,

Estreita o filho nos amigos braços,

Beija-lhe a fronte e lágrimas derrama

De júbilo e prazer! — Vinde, meus servos!

Vinde depressa! — Ordena alvoroçado,

 — Tirai-lhe estes andrajos e vesti-lhe

Os mais belos vestidos que encontrardes!

Lavai-lhe os pés molestos, e calçai-lhe

Macios borzeguins, ponde em seu dedo

Um precioso anel enriquecido

Do mais fino lavor!... Ide, vós outros,

Escolhei dentre o gado, o mais formoso,

O mais nédio novilho que retoiça

Por esses vastos campos, e matai-o,

Trazei-o sem demora! O dia de hoje

Será dia de folga e regozijo:

Era morto meu filho, e ei-lo que volta

Redivivo a meus braços. Longas noites,

Longas noites chorei, crendo-o perdido,

E Deus mo restitui! Vamos, folguemos!

E corramos um véu sobre o passado!...

Ao descair da tarde, o irmão mais velho

Voltando do trabalho, os brindes ouve,

Ouve os cantos alegres, vê festivas

A casa e as dependências. — Porventura

Sonho, ou desperto estou? — surpreso exclama,

E para, chama um servo, a causa indaga

Dessas doces canções, desses folguedos.

 — Pois não sabeis? Correi, lhe diz o servo,

É vindo vosso irmão que longe andava,

E vosso pai festeja-lhe a chegada. —

Ouvindo esta notícia, abaixa o moço

A cabeça e suspira; tristemente

Volta sobre seus passos. Entretanto,

O pai desce a buscá-lo, e roga, e pede

Que o acompanhe à mesa do banquete.

Ele, porém, responde: — há tantos anos,

Que zeloso e fiel vos sirvo e ajudo,

Nunca me destes um cabrito, ao menos,

Que eu pudesse ofertar a meus amigos!...

Mas depois de uma vida vergonhosa,

Nodoado de vícios, miserável,

Vem meu irmão e o recebeis contente;

Matais, para o brindar, o mais nutrido,

O mais belo novilho destes campos!...

Que prêmio pois mereço, eu que trabalho,

E nunca me afastei do bom caminho?

Mas o pai lhe responde: — Em minha casa

Sempre viveste, e satisfeito vives,

Tudo o que tenho é teu, e nossos servos

Entre nós ambos distinção não fazem;

O que mandas, eu mando; o que desejas,

Desejo que se cumpra. O que te falta,

Que também não me falte? O que te sobra,

Que também não me sobre? Dize, filho!

Mas teu irmão por morto eu reputava!

O Senhor o guardou e no-lo envia;

Folguemos, pois, nossa alegria é justa.

XII

Continua Jesus propondo ainda

Mais algumas parábolas singelas

Que resumem a lúcida doutrina,

Simples, mas palpitantes de verdade.

Os contrários vencidos emudecem.

Ora, entre o povo imenso que se ajunta

Ao redor do Senhor, trazem os pobres,

Os graciosos, inocentes filhos,

Para que vejam seu divino rosto,

Para que aprendam seus preceitos santos,

Para que toquem seus vestidos. — Basta

Se quereis ser felizes, bons e sábios,

Que lhe beijeis do manto a escura fímbria, —

Dizem as mais às lindas criaturas.

XIII

Qual formoso rebanho derramado

Em denso matagal, procura unir-se,

E surde aqui, ali, entre as folhagens,

E de novo se perde, assim loirejam

De quando em quando entre as cerradas turbas,

As airosas cabeças, incansáveis,

Daquela grei de anjinhos curiosos.

— Que vem aqui fazer parvos infantes

Senão interromper a voz do Mestre,

Ou estorvar o povo? Por ventura

Em brincos pueris nos entretemos?

Dizem do Salvador os companheiros

Afastando as crianças. — Não! exclama

Vivamente Jesus, deixai que venham,

Que se acerquem de mim as criancinhas!

Não lhes embaraceis jamais os passos,

Pois o reino dos anjos lhes pertence!

Então um rico hebreu se aproximando

Pergunta-lhe solícito: — Bom Mestre,

O que devo fazer sobre este mundo

Para alcançar a salvação e a glória?

— Só Deus é bom, e sábio, e justo e grande!

Responde-lhe Jesus; — porque me louvas,

E me chamas de bom? Dize-me, acaso

Desconheces os santos mandamentos:

Não mates, nem cometas adultério,

Não calunies teu irmão, nem furtes,

Preza e honra teus pais, e sobre tudo

Ama teu Deus, teu Criador venera?

— Senhor, desde a mais tenra mocidade,

Prosegue o rico hebreu, tenho guardado

Estes sacros preceitos. — Oh, não basta!

Continua Jesus, falta-te ainda

Para seres melhor alguma cousa.

Vende quanto possuis, dá seu produto

Aos pobres, teus irmãos; deixa teus lares;

Lança mão de um bordão e me acompanha. —

Isto escutando, o hebreu torna-se triste,

Que era senhor de cabedais imensos.

— Quanto é custoso! o Salvador pondera,

Quanto é difícil conquistar-se a posse

Das delicias do céu, quando a riqueza

Fascina a vista e o coração cativa!

Mais ampla entrada um dromedário achara

De fina agulha pelo estreito fundo,

Que no reino dos céus um homem rico!...

— Quem poderá salvar-se, então? perguntam,

Alguns dos circunstantes. — Pobres cegos

Exclama o Salvador, pensais acaso

Que para o Deus Eterno haja impossíveis?...

Depois disto, o Senhor chama de parte

Os doze companheiros, longo tempo

Sobre a missão divina os aconselha,

E abandonam de novo aqueles sítios.

XIV

As formosas parábolas, ungidas

Da mais suave e doce poesia,

Os singelos painéis, onde a verdade,

Simples como a expressão da natureza,

Os mais rudes espíritos cativa,

A linguagem concisa, porém bela

Do divino pastor, melhor ensinam

Do que das Sinagogas orgulhosas

As extensas lições, e os vãos discursos.

— Ouvi, diz o Senhor ao povo amigo

Que por todas as partes o acompanha:

Havia um homem poderoso e grande,

Grande no vício e grande na opulência.

Vestia-se de purpura e de seda,

De brilhantes e pérolas se ornava.

Em seu vasto palácio, dia e noite,

Rodeado de torpes lisonjeiros

Folgava descuidoso. Em seus banquetes

Fortunas despendia, e mais felizes

Que muitos filhos de Abraão, viviam

Seus mastins e lebréus, cheios e fartos

De manjares custosos e esquisitos.

Também havia um sórdido mendigo

Que Lázaro chamava-se, e coberto

De pústulas e chagas, suspirava

Faminto e esfarrapado sobre as lajes

Da porta do palácio do opulento;

De dia enxames de nojentas moscas

O descanso vedavam-lhe, de noite

Vinham lamber-lhe as úlceras doridas

Os vagabundos cães das vizinhanças...

Ora o pobre morreu, e do infinito

As falanges angélicas desceram

E o levaram nos braços. O opulento

Morreu, morreu também, mas dos infernos

As legiões de Satanás surgiram

E arrastaram-no às chamas. Dos abismos

Ergueu olhos febris, e viu, tranquilo

No seio de Abraão, Lázaro o pobre.

— Abraão! Abraão! Grita ansioso,

Dize ao ditoso Lázaro que molhe

A ponta de seu dedo em água pura

E me refresque a língua incendiada:

O fogo eterno abrasa-me as entranhas!...

Abraão lhe responde: — Sobre a terra

Viveste na abundância, e o pobre Lázaro

Só conheceu desgraças e martírios!

Goza por isso agora, e tu padeces.

— Abraão!... Abraão! brada o precito.

— Uma ponte infinita nos separa,

Diz o santo Abrahão, nós não podemos

Passar, e dar-te a mão. A eternidade

Assentou-se entre nós. Assim quiseste! —

Calou-se o Salvador, a passos lentos

Caminha, dos apóstolos seguido,

E vai a Jericó, velha cidade,

Cujos pesados bastiões, outrora

Caíram com estrondo, ao som da tuba

Do Arcanjo vingador, nos belos tempos

Quando inda Jeová sagrava as hostes

E depunha nas mãos de seus guerreiros

O gládio flamejante da vitória.

Chega Jesus, e o povo se atropela,

Ajunta-se e o rodeia. A uns incita

A vã curiosidade; a outros guiam

A esperança e a fé. Um publicano

A quem chamam Zaqueu, homem de posses,

Mas de estatura pequenina e frágil,

Não podendo de perto olhar o Cristo,

Qual travessa criança aos galhos sobe

De um alto sicômoro, e dentre as folhas

Espreita cuidadoso... num relance

O Salvador o vê. — Zaqueu, lhe fala,

Desce e vem ter comigo, muito importa

Que na tua morada hoje eu pernoite. —

Apressasse Zaqueu, desce, e contente

Guia o Senhor à casa hospitaleira.

Novas murmurações, novas censuras

Partem dos fariseus e dos escribas,

Vendo Jesus seguir um publicano

E albergar-se debaixo de seu teto.

Zaqueu diz ao chegar: — Quero, metade

Dar, Senhor, de meus bens aos infelizes,

E quatro vezes mais darei, se acaso

Meu próximo lesei em seus negócios.

— Hoje, exclama Jesus, em teu asilo

Entrou a salvação! Sobre teus lares

Do Eterno Padre as bênçãos se espalharam!

O seio de Abraão pulsou de júbilo,

Pois o Filho do Homem veio ao mundo

Buscar o que nas sombras vacilava,

E salvar o que havia perecido!

.............................................................................

XX

.............................................................................

A luz acorda o mundo. A natureza

De seu berço levanta-se formosa

E saúda o Senhor. Sobre as montanhas,

Nas grimpas do arvoredo, e sobre as ondas,

O glorioso príncipe dos astros

Feliz esparze as dádivas primeiras.

Perdem-se ao longe nas viçosas matas,

Nos altos dos outeiros e nos vales

As turmas dos conversos. Triste, mudo,

O apóstolo das selvas se levanta

Do escuro tronco onde passara a noite,

E se recolhe à sossegada ermida.

 

CANTO VI

E rasgai os vossos corações, e não os vossos vestidos, e convertei-vos ao Senhor vosso Seus...

(JOEL II, 13).

I

O rúbido clarão do sol no ocaso

Doura da serrania as eminências

E as grimpas da floresta, e já formosa

Embora descorada, se equilibra

No Armamento a lua. Que sucesso

Lutuoso e sinistro a mente ocupa

E incita a diligência, a atividade

Dos pobres sertanejos? Que trabalhos

São esses que executam pressurosos.

Junto do eremitério, sobre as gandras

E lezírias vizinhas? Por ventura

Novos perigos e aflições aguardam?

Longe, porém nas humildes campinas

Avultam mudas, sobre o chão revolto

As cruzes sepulcrais, na terra fria

Estendem-se os perímetros incertos

De funerárias covas, sobre a relva,

Sobre os torcidos galhos dos arbustos

Negrejam pastas de coalhado sangue;

E além, junto do rio, o triste povo

Chora os filhos e irmãos sacrificados,

Enquanto reza o apóstolo dos ermos

As preces por finados. Vai-se a tarde,

O céu desmaia, as aves emudecem,

E os fiéis se reúnem lentamente

Junto do templo humilde do deserto.

II

Medonha fora a noite que passara!

Medonho fora o dia! Intensas turbas

De feros inimigos do Evangelho,

Rudes cabildas de remotas brenhas,

As veredas cercaram das planícies

Onde soem passar os malfadados

Para ouvirem as prédicas do sábio,

E uma luta travaram sanguinosa,

Desleal e covarde! Sobre o campo

Muitos ficaram, bravos combates;

Muitos também caíram, cujos pulsos

Não podiam vibrar ligeira flecha

Nem suster um carcás: débeis crianças

Que das míseras mais o doce nome

Balbuciavam tímidas ainda!

Velhos inermes, trêmulos enfermos,

Que os prudentes conselhos do profeta

As dores e os pesares mitigavam!

Depois d'este nefário morticínio

Se espalhavam, rugindo pelas matas,

Sequiosos de sangue, ébrios de raiva!

Cruenta provação! Fortes, embora,

Proibia a vingança a lei sagrada

Aos que da Cruz o lábaro seguiam,

Era a defesa o único partido

Que cumpria tomar: para a defesa

Preparavam-se, pois, infatigáveis

Se outras afrontas e agressões tentassem

As hordas dos demônios vagabundos.

O estoicismo do Mestre assombra as tribos!

Nenhum guerreiro contemplara a morte

Tão sereno, tão firme, e tão seguro

Como o homem da paz. Quem recuara

Quando dele partia o nobre exemplo?

Porém, reina o silêncio entre os conversos,

As fogueiras flamejam, derramando

Na espessura das silvas odorosas

Vacilantes clarões, — o missionário

Levanta a voz suave e assim se exprime:

— Deixemos repousar os lidadores,

Os heróis que morreram defendendo

A verdade e a fé: bravos cumpriram

O dever de Cristãos e de guerreiros.

Destemidos como eles, neste solo

Onde o sangue verteram, descansemos

Confiantes no Deus das almas puras.

Fiquem de parte as clavas formidáveis,

Os finos dardos, a cruel vingança,

O ódio que prepara ervadas flechas,

E olhos fitos na estreita fulgurante

Que outrora protegia os velhos magos,

Prossigamos de Cristo a santa história.

III

Ora, depois dos fatos mencionados

No último serão, fatos sublimes

Que eternos viverão no pensamento

Das gerações remidas no Batismo,

Perseguido o Senhor pelos tiranos

Retira-se a Betânia, aldeia humilde,

Onde Martha e Maria aflitas choram

Junto do pobre irmão, Lázaro, enfermo

Do mal terrível que tomou seu nome.

Sabendo que Jesus próximo estava,

Mandam logo avisar-lhe as infelizes:

— Teu amigo perece, vem salva-lo!

Amava Cristo o cândido mancebo.

Sócio de infância, ingênuo companheiro

De seus belos serões da mocidade;

Se, Mestre, havia eleito outros discípulos

Para a grande missão, nos seios da alma

A lembrança de Lázaro guardava

Como um favo de mel, como um perfume,

Ou como um talismã que o viandante

Guarda zeloso em ásperos desertos.

Não se abalou contudo à triste, nova!

Dois dias descansou no mesmo sitio,

De alheios casos se ocupou tranquilo,

E por fim resolveu: — Bastante tempo

Nestes almos retiros divagamos,

Voltemos a Judeia. — Então surpreso

Ponderou Simão Pedro: — vede, Mestre,

Os judeus contra vós se declararam!

Que pretendeis fazer? — Não tem o dia

Doze horas, dizei? — Quem anda à noite,

Pela falta de luz não anda às cegas?

E quem anda de dia? Oh! Não se perde

Que o sol brilhante aclara-lhe o caminho! —

Mas depois destas místicas palavras,

Qual um fraco romeiro deslembrado,

A quem súbito açode o pensamento,

E a consciência do dever acorda

A memória infiel, diz em voz alta:

— Lázaro dorme!... — Se ele dorme, vive,

Se ele vive, não sofre! — atalha Pedro.

— Expressão pueril de um gênio simples!

Exclama o Salvador, nem sempre o sono

A vida revelou: — Lázaro é morto!

Quis a fé conhecer que vos anima,

Deixei que sucumbisse; agora vamos,

Vereis de perto a lúcida verdade. —

— Vamos, Tomé murmura, vamos todos,

E nós todos com ele morreremos! —

Ver para crer! — Estólido provérbio!

Depois seguindo o soberano Mestre

O caminho tomaram de Betânia.

IV

E chegaram enfim, tarde, bem tarde!

Já quatro vezes expelira o dia

Os lêmures da noite, e quatro vezes

A noite pavorosa desfraldara

O pavilhão de sombras pelo espaço!

Já quatro vezes sob o olhar de fogo,

Implacável olhar que tudo alcança

Do arbitro da luz, sobre si mesma

Hidra cativa, se volvera a terra,

Procurando romper o circo imenso

Das doze colossais brônzeas muralhas!

E Lázaro dormia e não sonhava

Em seu leito de pedra, hórrido leito,

Onde os vermes somente não repousam!...

Quando, deixando o corpo, a alma divina

Libra-se logo aos pés do Onipotente

Laureada de esplêndidas virtudes,

Brilhante de inocência, a morte é bela!

Na face da matéria inanimada

Ficam ainda plácidos vestígios

Daquela que passou. — É belo sempre

O cadáver do justo, embora triste,

Um-que-de inteligente, um-que-de nobre

Guarda estampado nas feições serenas,

Onde o artista e o sábio acham mistérios

Que a vida desconhece. O estatuário

Na brancura dos túmulos se inspira.

Mas, a dissolução tardia e lenta,

A agonia terrífica das formas,

A podridão das carnes, a mudança

De um corpo gracioso em feio monstro;

De monstro em massa informe, escuro acervo

De rotas fibras, líquidos impuros,

Enovelados pelos, frias bolhas,

E sobre tudo, oh Deus! e sobre tudo

Esse mundo de vermes asquerosos

Cevando-se de sânie e de imundice…

Miséria! A morte então desperta o nojo,

Molesta o coração, derrama o tédio,

Que aniquila a vontade e o pensamento

No espírito assombrado! Oh! por ventura,

Serás uma ilusão, serás um sonho,

Fluido impalpável, sopro fugitivo,

Alma, celeste luz!... Musa, silêncio!

Já quatro dias decorrido haviam

Que Lázaro cerrara os olhos baços,

Quando Jesus chegou. Cheia inda estava

A pobre habitação fechada e muda

De lembranças do morto: o frio leito

Inda guardava as formas de seu corpo,

Inda tingia as velhas coberturas

O sangue dos tumores lacerados.

As sandálias no chão, no canto as roupas,

O nodoso bordão, e os utensílios

Do trabalho usual no mesmo banco,

Onde os deixara a noite derradeira,

Tudo falava do infeliz mancebo!

V

Como o clarão de solitária estrela

Entre os feios bulcões da tempestade

Consola os transviados navegantes

Na vastidão dos mares ominosos,

O doce aspecto do divino Mestre

Reanimou as decaídas frontes

Das lacrimosas, pálidas mulheres.

— Ah! se aqui foras, dizem suspirando,

Não fenecera nosso irmão tão cedo,

Teu amigo, Senhor! Mas tudo podes,

O que a teu Pai pedires será feito! —

— Não vos entristeçais, — responde Cristo,

Ele há de ressurgir. — No fim dos tempos,

No dia horrendo do juízo eterno,

Meu Deus, eu bem o sei! — Maria exclama.

— Sou a ressurreição, a excelsa glória,

Prossegue o Salvador, — fonte da vida,

Quem ouve minha voz, sepulto, embora,

Triunfará da morte; o que respira,

E sente, e pensa, e crê, durma tranquilo,

Jamais perecerá! — Onde puseste

O frio corpo desse pobre amigo? —

— Vem, e verás, responde a ingênua Martha.

Depois chamando a irmã silenciosa

Guia o Senhor ao túmulo de Lázaro,

Negro jazigo entre rochedos fundos.

VI

Nas nuvens inflamadas do Ocidente

Mergulhava-se o sol, — quente era a terra,

E os píncaros dos montes escabrosos,

E as grimpas dos salgueiros e ciprestes,

Ao purpúreo clarão do céu do estio

Pareciam de sangue borrifados.

Um longínquo trovão, rouco, sinistro,

Tredo como o bramir das grandes onças

Nas amplas furnas de fragosas serras,

Soava nas extremas do horizonte.

Nem uma leve aragem pelos campos!

Nem o piar de um pássaro nas frondes

Dos bastos olivais! Nem o balido

De uma ovelha medrosa nos outeiros!...

Então Martha parou mostrando a gruta

Onde jazia o irmão: — Eis o sepulcro,

Senhor, de vosso amigo! — Ardente pranto

Corria-lhe dos olhos; — arredada,

Maria soluçava entre os arbustos.

Bem no fundo da lapa cavernosa,

Frio abrigo das aves agoureiras,

Avultava entre lúgubres rochedos

O túmulo de Lázaro. Na sombra,

Como um gênio cativo, murmurava

Oculto veio d'agua; sobre a lousa

Cruzava-se agitando as asas frouxas

Um turbilhão de estriges e morcegos,

Híbridos filhos dos trevosos antros,

De lado a lado esverdeadas penhas,

Broncos pedaços de granito escuro

Alongavam-se, rudes, como os dorsos

De feios crocodilos que guardassem

Furna de pavorosos malefícios.

VII

Porém, a vasta cúpula celeste,

Momentos antes abrasada forja,

De pesada caligem se cobria;

Rijas lufadas dos raivosos ventos

Sibilavam das bandas do Mar-Morto,

Despindo os arvoredos seculares,

Nuvens de areias erguendo pelo espaço.

Deteve-se Jesus, volveu os olhos

Para a grosseira pedra que encerrava

Quem tanto amara neste ingrato mundo;

Abaixou, suspirando, a fronte augusta,

Inclinou-se e chorou. — Surpreendidos,

Viram correr seus fátuos companheiros

No belo rosto as lágrimas divinas.

Pérolas do sacrário da amizade,

Que no reino dos céus, fúlgidas brilham

Na coroa imortal do pobre Lázaro!

Quem, anjo, ou santo, mereceu tal prêmio?

Vós, que passais alegres sobre a terra,

Diletos da fortuna, e inebriados

Pelos fumos do incenso da lisonja

Ou pelos brilhos de falazes glórias,

Não guardastes no cofre dos afetos,

Uma pálida rosa, um triste goivo,

Uma lembrança fugitiva ao menos

De tão feliz, tão puro sentimento;

Desconheceis, vaidosos, a doçura

E o valor dessas lágrimas sublimes!...

— Vede quanto o prezava o grande Mestre! —

O povo murmurou. — Erguei a lousa!

Erguei a lousa que seus restos cobro! —

Ordena o Salvador aos circunstantes,

Numerosos então, — erguei eu mando! —

— Senhor!... já quatro dias decorreram

Depois que faleceu, fétido cheiro,

Cheiro de podridão exala o corpo,

Talvez coberto de asquerosos vermes!

Deixa que se consuma! — disse Marta.

— Não duvides, mulher, a fé sincera,

Abre do céu as portas luminosas!

Eia, vós outros, levantai a lousa! —

Com soberano gesto ordena o Mestre.

Num volver de olhos, a pesada pedra,

Rangendo sobre as bordas do sepulcro,

Descia ao chão da gruta funerária,

E a luz vermelha de fumoso archote

Que Maria acendera, muda, horrenda,

Como a garganta de tartáreo monstro,

Cheia de sangue e de polutas carnes,

Mostrou a tumba escancaradas faces!...

A eu eterno Pai volveu-se Cristo

Nesse instante solene: — Padre, Padre,

Por me haveres ouvido eu te dou graças! —

Depois, erguendo a mão sobre o sepulcro,

Essa mão invencível que aplacava

As convulsões do mar, do céu as iras,

Resoluto bradou: — Ergue-te, Lázaro! —

Abalaram-se os rígidos penedos

Com terrível fragor! O chão lodoso,

Talvez movido por secreta chama,

Tremendo se fendeu! Correu nos ares

Uma listra de fogo, e à luz sulfúrea

Que rápida aclarou a funda gruta,

Viu a gente mover-se o branco espectro

Do desgraçado moço de Betânia,

Firmar as mãos nas bordas da jazida,

Sacudir o sudário, abrir os olhos,

E entrar de novo na mansão dos vivos!...

Como negar a esplêndida verdade?

Rejeitar o prodígio? O povo humilde

Sentiu passar o hálito do Eterno

Por aqueles rochedos, prosternou-se

Aos pés do Deus que os mortos animava,

Bendisse a Cristo, a aurora do Evangelho.

VIII

Mas, a inveja roaz, o ódio cego,

Verdadeiros demônios, rebramaram

Nos corações dos fariseus protervos;

Todo o veneno da tartárea estância,

Verteu Satã nas veias dos escribas,

E no seio dos ímpios sacerdotes.

— Em que pensamos nós? Dizem raivosos,

Que deixamos em paz o Nazareno

Pregar doutrinas, operar milagres,

E seduzir a plebe inconsciente?

O que é feito de nossa autoridade?

Onde está nossa força? Por ventura,

Seguindo a multidão que nos despreza,

Iremos nós também beijar as plantas

Do filho do mesquinho carpinteiro?

Então falou Caifás, hebreu soberbo,

Pontífice arrogante, ergueu-se e disse:

— Nada entendeis. Obrais como insensatos.

Desconheceis as práticas dos sábios.

Não refletis que a salvação do povo

De sangrenta lição depende apenas?

Que é necessário que pereça um homem?

Que a nação abalada não sucumba?

Que o tempo pede sangue, e a lei decreta

Que neste caso se derrame sangue? —

Disse... e no pensamento de seus sócios

A morte do Senhor foi resolvida!

Tinha profetizado um dos algozes!

Cumpria que sofresse o grande Mestre!

Que esgotasse de um trago a taça negra

Dos terrestres martírios! Que gemesse

Ao peso imenso da maldade humana!

Que beijasse, ferido, as duras pedras

Daquele escuro chão, não pelo povo

Ingrato de Israel, mas pelo mundo,

Pelo porvir das gerações cativas!

Pelo triunfo eterno da verdade!...

Na região do infindo desespero

Satanás exultou. Ao feio riso,

Porém, daqueles lábios requeimados

Sucederam esgares pavorosos!

Nas hórridas cavernas ressoaram

Furibundos mugidos. — Oh! miséria!

Bradou, se retorcendo ébrio de raiva!

— Miséria!... — nas angustias do suplício

O Cristo morrerá. Porém que importa

Se perdoa, expirando, a seus verdugos!

Se lava com seu sangue os crimes todos

E os perversos arranca-me das garras!

Se desce a meus domínios triunfante

Trazendo a luz, talvez, e almo conforto

Onde jamais sorrira uma esperança!

Miséria! — E debatia-se convulso

No circo abrasador das próprias chamas.

IX

Jesus, porém, prevendo o fero intento.

Dos pérfidos ministros, retirou-se

Para as bandas de Efrém, pobre cidade

Isolada no meio dos desertos.

Não temia o furor dos inimigos,

Não fugia medroso, antes tranquilo

Esperava seu fim. — Próxima estava.

Da Páscoa a grande festa: os sacerdotes,

Escribas e doutores, agastados

Pela ausência da vítima inocente,

Encheram de espiões os arrabaldes,

E prometeram pingues recompensas

A quem seu novo asilo descobrisse.

Seis dias, entretanto, antes da Páscoa,

Volvendo Cristo aos ares de Betânia,

Entrou na casa de Simão — leproso,

Onde à noite ceou. Lázaro estava

Nesse tempo a seu lado, e a irmã querida,

Marta, os servia na modesta mesa.

Discorria o Senhor sobre o futuro,

Sobre o reino dos céus, a glória eterna,

A beleza inefável da virtude,

O brilho imaculado da inocência,

Quando, trazendo um vaso de alabastro

Cheio de essências finas, preciosas,

Chegou Maria, e palpitante ungiu-lhe

A fronte sacrossanta. — Desperdício!

Esbanjamento inútil! — grita Judas.

Não podias vender esses perfumes

Dos pobres em favor? Oh! certamente

São trezentos dinheiros que perdemos!

Era duro, mesquinho, interesseiro,

O taciturno hebreu; trazia a bolsa

Da humilde companhia; e mais prezava

Que a própria, inútil vida, esse pecúlio

Que de todos provinha, era de todos.

— Judas, porque censuras e molestas

Esta ingênua mulher! O Mestre exclama.

O que ela fez seu coração revela:

Mostrou-se boa e crente. Neste mundo

Sempre tereis os pobres e infelizes,

Quanto a mim... — leve sombra de tristeza

Nublou os olhos límpidos de Cristo,

Que prosseguiu depois baixando o rosto:

— Oh! ela ungiu meu corpo antes que desça

À fria sepultura, e vos afirmo:

Em todas as nações, em toda a parte

Onde se repetir este Evangelho,

Seu belo proceder será louvado! —

Como soía, se afastou da mesa,

Buscando um ermo sitio onde sozinho

Pudesse meditar. Era alta a noite...

X

Era alta noite, e os pobres campesinos,

E os mendigos da aldeia, se apinhavam

Da casa de Simão no estreito pátio.

Muitos doutores, fariseus, e escribas,

Vindos dos arredores, curiosos

Se acercaram de Lázaro, e aterrados

Murmuravam baixinho: — Ei-lo! seu rosto

Conserva ainda a lividez das tumbas!

Ei-lo, ressuscitou! — É seu fantasma, —

Diziam outros, apalpai-lhe as vestes,

Tocai o frio corpo, e tênue fumo,

Ou branca névoa de invernosa aurora

Se desfará depressa. — Mais afoito

Adianta-se e brada um velho escriba:

— Lázaro d'onde vens? D'onde saíste?

Pelo Deus que adoramos te conjuro,

Deixa o mistério que te envolve, fala! —

Houve, um momento de mortal silêncio,

Ninguém ousava se mover, o medo

Tolhia o respirar aos assistentes.

Então qual muda estátua a cujos membros

Por milagre do céu descesse a vida,

Voltou Lázaro o rosto descarnado,

Onde em cheio bateu a luz formosa

De azinhavrado, antigo candeeiro.

XI

— Porque me obrigas tu, velho insensato,

A revelar mistérios de além mundo?

Disse, fitando amortecidos olhos

Sobre o ousado judeu. — Me interrogaste

Em nome do Senhor, cala-te e escuta:

Eu jazia prostrado e sem conforto

No leito da doença, e como a chama

Vacilante de um círio que se extingue

No silêncio da noite, pouco e pouco

Fugia-me da vida o frouxo lume.

No céu crepuscular, — no céu dos mortos, —

Eu via ao longe, turvas, indecisas,

Perderem-se do mundo as ribanceiras

Como ilusões brumosas do deserto...

Sumira-se o passado; instável gota

Pendida à borda de profundo abismo,

Quase a cair, librava-se o presente;

E além, no seio horrendo do infinito,

Avistava o futuro, horrenda porta

Coberta de decretos insondáveis,

Negra, e sempre fechada!... Áspero inverno

Vertera o gelo dos polares climas

Em minhas veias túmidas... As horas

No quadrante do tempo se apagavam...

Como o cedro gigante das montanhas

Range, estorce-se, estala, oscila e tomba,

Senti dentro em mim mesmo alguma cousa

Estalar e cair!... Alva sublime

Às trevas sucedeu do pensamento:

Achei-me leve, cândido, impalpável

Como o éter sutil que me cercava!

E dessas regiões da eternidade,

Vi num canto da terra, inerte, mudo,

0 que fora meu corpo: imundo andrajo

Esquecido num antro de misérias!...

Busquei debalde no meu novo estado

Contemplar as esferas fulgurantes

Que sentia rolar no imenso fluido

Das supernas alturas, e as palavras

Decifrar das esplêndidas cantatas

Que enlevavam minha alma suspirosa!

Só percebia os lúgubres soluços

Que subiam do abismo, as vozes débeis,

E as queixas magoadas que diziam:

— Quando virás nos consolar, oh Cristo!

— Quando verás quebrar os duros ferros,

Que nos vedam voar à pátria amada!...

Súbito um mar de pavorosas sombras

Ergueu-se rebramando, um sopro ardente

Pelas trevas correu... — Sobre meu corpo

De novo estava a lousa do sepulcro,

E a voz do Mestre me chamava ao mundo!...

Credes agora, ou duvidais ainda?

Contemplai-me, aqui estou! — Qual de vós outros

Ousará rejeitar este prodígio?...

E Lázaro calou-se. Os circunstantes

Conservavam-se mudos, assombrados.

Muitos hebreus então se converteram

À lei da Redenção, muitos escribas,

E rudes publicanos, jubilosos,

Viram cair a venda enganadora

Que lhes furtava a luz, e se curvaram

Ao sublime estandarte do Evangelho 1

Porém, negra loucura! os sacerdotes

Contumazes no erro e na mentira,

Concertaram, cruéis, tirar a vida

Àquele que o Senhor tinha salvado!

A tanto a inveja e o ódio se abalançam!

XII

Longe, porém, ralada de saudades

Chorava no retiro a Virgem santa,

Do Filho amado a prolongada ausência.

Anjo de amor no vale das tristezas,

Pelo augusto mistério ao céu ligada,

E à terra pela dor; símbolo eterno

De inefável pureza e alma piedade,

Grande na compaixão e na doçura

Como o Filho na glória e no martírio,

Via se apropinquarem no horizonte

As trevas do suplício! — Era alta noite,

Perto do antigo lar sozinha e aflita,

Volvia, suspirando, o pensamento

Às estações felizes do passado,

Revia os prados e as risonhas veigas

Cheias de flores, de frescura a sombra,

Onde Jesus brincava; os mansos lagos,

Onde nas tardes lúcidas do estio

Vogavam, contemplando o céu sereno,

As verdes ilhas, as formosas praias

Cobertas de choupanas de barqueiros,

Depois... descendo ao árido presente,

Vendo sumir-se a luz, toldar-se o espaço,

Erguer-se no porvir o vulto negro

Do mais cruel e áspero infortúnio,

Inclinava a cabeça ao morno seio

E rompia em soluços magoados.

O temporal do inverno sacudia

As ramagens dos fúnebres salgueiros,

Dobrava os ervaçais, e nas gargantas

Profundas das montanhas do deserto

Desfaziam-se em trêmulos gemidos.

— Meu filho! — murmurou erguendo o rosto

A esposa de José, — meu pobre filho!

E as douradas madeixas soltas, livres

Nesse rápido gesto, se espalharam

Em profusos anéis no cotio ebúrneo.

XIII

Mas silêncio! Lá fora entre as rajadas

Indômitas do vento, tristes queixas

Se fizeram ouvir, depois no alpendre

Maviosas palavras ressoaram.

— Dá-nos abrigo, oh Virgem gloriosa,

Que saímos de longe e te buscamos! —

Maria estremeceu: era tão meiga,

Tão doce a débil voz que lhe falava,

E tão medonha a noite, o céu tão negro,

Tão funda a escuridão, que levantou-se,

Tomou o largo-manto e abriu a porta.

Indizível surpresa! Excelsa glória!

Três lúcidas irmãs, três mensageiras

Das regiões supremas, penetraram

No hospitaleiro asilo da virtude.

— Anjos de meu Senhor! Maria exclama

Cheia de confusão e de respeito,

Anjos de meu Senhor, sede bem vindos

Na mesquinha morada da humildade!

— Estrela do Israel, — Farol dos justos,

Rainha e Mãe das imortais falanges,

Diz a primeira das irmãs, — não temas!

Companheiras eternas de teu filho

Ouvimos-te chorar; e pressurosas

Voamos a teu lado. Ouve, Maria:

Eu sou a viva luz dos santuários,

A rosa imarcescível da pureza,

O gênio da verdade. Sábia e forte,

Dou vida às brenhas, escravizo as vagas,

Domino os vendavais, desprezo os raios,

Vitoriosa encaro a morte horrenda!

Sou a fonte da glória e do heroísmo!

Senhora, eu sou a Fé! Não me conheces? -

Calou-se a peregrina do infinito.

A segunda falou: — Quando a serpente

Turvou do Paraíso o ameno lago,

Onde o mais puro afeto se espelhava,

E do jardim das célicas delícias

Lançou da terra aos pântanos lodosos

A humanidade escrava, compassivo

Formou-me o Criador. — Na tempestade

Sou o íris, o núncio da bonança,

A estrela do pastor, a roxa aurora;

Sou nos vergéis a flor da primavera:

Na moléstia a saúde; a luz nas trevas:

Nas prisões o perdão: no passamento

A clemência de Deus, a eternidade!

Sou a Esperança, a êmula da vida!

Eis-me contigo, oh Virgem soberana! —

Calou-se a peregrina do infinito.

A terceira falou: — Passei a infância

Na tenda de Abrahão, o pai dos povos,

O amigo do Senhor; tornei-me grande

Ouvindo no deserto a voz do Eterno

Aconselhando o exímio patriarca.

Tenho o condão sublime dos prodígios.

Sou a pomba nas águas do dilúvio,

Sou a fonte de Agar nas soledades,

A coluna de fogo nos fraguedos

Das estrangeiras terras!... Virgem santa!

Anjo que tantas vezes hei seguido

No recinto da dor e da miséria,

Onde levas o pão, a luz e a calma!

Coração piedoso! Etéreo cofre,

Onde todas as lágrimas que rolam,

Em riquezas subidas se transformam!

Onde todo o soluço encontra um eco!

Onde todo o martírio encontra um prêmio!

Eu sou a confidente de teus sonhos!

Eu sou a Caridade! — Assim falando

Prostraram-se as celestes emissárias,

E adoraram do Empíreo a soberana.

Mas, palpitante o seio, os lábios mudos,

Cruzados sobre o peito os níveos braços,

Cismava extasiada a Mãe de Cristo.

Quando, porém, o enleio superando,

Levantou a cabeça, — os três arcanjos,

Para junto de Deus tinham voltado.

XIV

Calou-se o narrador. Vários romeiros,

Habitantes das serras do Ocidente,

Neste instante chegavam. Seus vestidos

Eram rotos, e húmidos de sangue,

Húmidos pés e mãos, e as faces frias

Lívidas de terror. — Deus vos proteja,

Sacerdote da paz! — disse o mais velho

Saudando o missionário, — a Providencia

Nossos passos guiou... — Estais feridos?

Estais feridos? — interroga o sábio,

Que mal vos sucedeu? Donde viestes?

Que sangue é esse que vos mancha as roupas?

— O sol dourava nossos pátrios cerros,

O romeiro falou, quando partimos

Para vir adorar a Virgem Santa

Nesta tranquila ermida, e ouvir, humildes,

Ministro do Senhor, vossas doutrinas.

Era intenso o calor. Ao meio dia

Procuramos abrigo à fresca sombra

De risonho palmar, onde queixoso

Murmurava um arroio entre alvas pedras.

Éramos mais de vinte, homens robustos,

Mulheres e crianças. Reclinados

Sobre a relva macia, um dos amigos

Relatava os sucessos lastimosos

Destes últimos dias, e nós outros

Que no conflito insólito perdemos

Tantos fiéis e bravos companheiros,

Ouvíamos tristonhos. — De repente

Uma chuva de setas aceradas

Caiu a nossos pés. Um grito horrível,

Um grito só, perdeu-se pelos ares,

De verdugos e vítimas: por terra

Feridos mortalmente, estrebuchavam

Nossos pobres irmãos! Os assassinos

Surdiam como insetos da espessura!...

Eram eles, Senhor! Eram os mesmos

Que encheram de aflição vosso retiro!

Conseguimos fugir nós que aqui somos,

Os únicos talvez!... Porém ao longe,

Bem no meio de aspérrimos rochedos,

Ouvimos uma voz sentida e triste

Repetindo as endechas funerárias

Que os homens do Senhor cantam prostrados,

Nos arraiais da morte. — Comovidos

Nos dirigimos às sinistras penhas...

Padre!... um servo de Deus, um sacerdote,

Um missionário como vós, expira

Sem orações, sem luz e sem consolo

Na solidão de inóspitos fraguedos! —

O romeiro calou-se. Resoluto,

Firme, como um guerreiro de outras eras,

O pastor do deserto ergueu-se e disse:

— Quem dentre vós, soldados do Evangelho,

Meus passos guiará? — Mestre, partamos,

O romeiro responde. — Vamos todos!

Corramos ao lugar do sacrifício! —

Bradaram cem mancebos valerosos.

Um momento depois marchavam lestes

Ao longo das campinas orvalhadas.

XV

Nublada e triste aparecia a aurora

No chuvoso Oriente, ásperas brisas

Silvavam nos sarçais e nos outeiros

Estéreis do sertão, quando chegaram

Ao teatro da lúgubre tragédia.

— É ali, — disse o filho das montanhas,

Mostrando um monte de tisnadas pedras

Coroadas de cardos verdoengos,

— É ali! — Foi bastante esta palavra,

Bastante o gesto que a seguia, — o sábio

E mancebos valentes escalaram,

Num volver de olhos, o Calvário alpestre.

Crostas calcárias desligadas, soltas,

Rolaram das escarpas dos rochedos,

Os ecos acordando; um feio abutre,

Possante e gigantesco, abriu as asas,

E elevou-se, grasnando pelos ares;

O horizonte aclarou-se, e um raio frouxo

Da fria madrugada, um flavo raio,

Um escárnio da luz, bateu medroso

No fastígio das penhas escabrosas.

O mártir ali estava, — calmo e belo,

Como um jovem pastor adormecido

Sobre a relva do campo, entregue aos sonhos

De inocentes amores; em seus lábios

Inda restava a sombra de um sorriso,

Porém, da morte as roxas violetas

As pálpebras cerradas lhe tingiam:

Uma flecha veloz o derrubara...

A fria destra sobre um livro aberto

Marcava o santo ofício dos finados!...

Expirara adorando o Ser Supremo!

 

CANTO VII

I

Branca vestal do templo da saudade!

Musa da ausência, compassiva musa,

Que desfolhas nos páramos do exílio

As rosas da esperança, borrifadas

De lágrimas de amor, e suavizar

As vigílias do bardo forasteiro,

Repetindo as canções dos pátrios lares!

Biênio das tradições! Que pensamentos

Inspiras nestas horas de tristeza

Ao pastor do deserto? Quão serena,

Das altas cordilheiras do Ocidente,

Vem a noite ganhando os fundos vales!

Quão suspirosa a viração dos ermos

Passa no seio escuro dos silvados!

Quão gemedoras rolam das montanhas

Por entre os véus de espuma as cachoeiras!

— Oh! meu plácido berço! Oh Tenerife! —

Exclama o solitário alçando os olhos

Aos vastos céus azuis, — ilha querida,

Mimo do largo mar, cesta de flores

Esquecida na rota dos Fenícios!

De meu pio desterro inda te vejo,

Como sempre te vi nos belos sonhos

Da curta juventude! — As auras frescas

Brincam talvez agora nas videiras

Do rústico solar de meus maiores,

As ondas espreguiçam-se nas praias

Curvas como os alfanjes sarracenos;

O titã de granito ergue nos ares

A fronte audaz e ríspida, cingida

De um turbante de névoas sempiternas!

Nada mudou: nas penhascosas grutas

Pousam ainda os pássaros marinhos;

O possante albatroz estende as asas

Sobre o verde oceano; os líbios ventos

Trazem da terra firme as cantilenas

Dos sanguinários, rudes fetichistas!...

Mas de meus pais... só restam na jazida

Os carcomidos, alvacentos ossos!

Ali sumiu-se o nome de Anchieta!...

Calou-se o sábio. O orvalho da saudade

Pelas pálidas faces desusava.

Mas, um estrondo horríssono e profundo,

Como o estalar de transviada esfera

Nas regiões sombrias do infinito,

Retumbou nas extremas do Oriente!

O céu afogueou-se, o mar bramiu;

Cruzaram-se os relâmpagos, rasgando

A tela dos negrumes condensados

Sobre a face da terra: o anjo da morte

Sacudiu no Levante as asas negras!

Tomado de terror prostrou-se humilde

O sagrado pastor das soledades,

Invocando de Cristo o santo nome.

II

Sevo Alcácer-Quivir! Campo de opróbrio!

Campo das gemônias lusitanas!

Quão sinistro negrejas no horizonte

Do novo Ezequiel aos olhos fátuos!...

A noite cobre de tristeza e sombras

Os vastos ermos das brasílias terras,

Longe, longe, porém, resplandecente

Sobre o hemisfério oposto, o sol fulgura

Iluminando os areais medonhos

Da Núbia requeimada. — Horrenda historia

Traça convulso o gênio das batalhas

No brônzeo arquivo dos humanos feitos...

Lá desfraldam-se aos ventos do deserto

Os formosos pendões alvicerúleos,

Da Mauritânia horror! Fulgem as lanças

Senhoras do Ocidente e do Levante!

Ribombam os obuses vencedores

Dos filhos de Ismael, atordoando

As mesquitas do esposo de Kadija,

E afogando no fumo das bombardas

O brilho do crescente muçulmano!...

Sobre airoso corcel, alvo de neve,

Se arroja destemido o rei mancebo

No meio da peleja. Aos líbios tigres

Os leões portugueses se arremessam.

Os esquadrões, porém, dos circuncisos,

Pérfidos como os gênios fulminados

Das legendas hebreias, se distendem

De lado a lado em temerosa curva

Que procuram fechar, prendendo os bravos

Defensores da Cruz. — Soam os gritos

Que distinguem as crenças e as bandeiras.

Os cavalos relincham, devorando

O espaço que separa os combatentes:

A terra treme, as solidões acordam;

O delírio do sangue abrasa as frontes;

O demônio da vil carnificina

Tripudia entre corpos mutilados!

Quem será vencedor?... — Como a torrente

Que rola da montanha e se divide,

E, tornando a se unir, estreita os bosques

Nos líquidos anéis das turvas águas:

Ou, como o incêndio das columbas várzeas

Cresce, estende-se, ruge, abraça os campos,

E os rebanhos incautos cinge, e mata

Nas malhas infernais das labaredas,

Assim as hostes infiéis apertam

O exército Cristão! Hora solene!

Hora de desespero e de heroísmo!

Hora de morte ilustre ou vida inglória!...

Prodígios de bravura imortalizam

Os denodados terços portugueses!

Caem! O mundo beija-lhes os restos!

Hão de ressuscitar! Não tarda o dia!...

Mas a fatal sentença estava escrita!

O sol de Ourique se escondeu no Ocaso;

Um tufão de extermínio entrou rugindo

Nos régios alcaçares, e as ossadas

Dos sublimes heróis das eras priscas

Moveram-se nas urnas funerárias!

Uma sonora voz bradou sentida:

— Lísia!... chora teus filhos insepultos

Nas solidões das brenhas africanas!

Chora teu rei sem cetro e diadema,

Sem espada, sem cruz, e sem jazigo,

Lançado... aonde?... De seu fim nefário

Nem recebeste o estólido sarcasmo

Que sói usar o pérfido inimigo,

Quando nas mãos da infrene barbaria

Põe o destino o gládio da vitória!

.............................................................................

Mas a triste visão desaparece.

A graciosa aurora, a virgem jônia

De loiras tranças, de rosados dedos

Franqueia à luz as portas do Oriente.

Salve, etéreos clarões da madrugada!

Brilhantes arrebóis, aragens brandas,

Silfos travessos do deserto, salve!

III

Quem és tu, pensativo cavaleiro

Que do escuro corcel te apeias mudo

À soleira da ermida? O desalento

Altera-te as feições nobres e belas,

E um profundo pesar, não disfarçado,

Quebranta o brilho de teus olhos negros!

Quem és tu? De onde vens? Tristes noticias

Trago a vosso retiro, exímio padre. —

Diz o moço avistando o missionário.

— Bem vindo sejas, servidor de Cristo,

Responde o sábio mestre, que desgraças

Vens tu me anunciar? Fala, não temas,

Que tudo espero nesta quadra infausta.

— Caminho há quinze dias sem descanso,

Diz o pobre emissário, hei-vos buscado

Como o animal mordido da serpente

A fonte salvadora. O sangue, o luto,

Cobrem de Guanabara as alvas praias!

A voraz ambição da velha França

Infiltrou nas artérias dos selvagens

O veneno da raiva. — O surdo estrondo

Das clavinas de bronze se mistura

Ao silvo agudo das ervadas setas

No espaço afogueado. As feias hordas

Dos Tamoios cruéis, se precipitam

Dos montes e dos cerros escabrosos,

E as planícies dominam. Destemidos

Como leões resistem nossos bravos,

Mais terrível em número, contudo,

O inimigo fraqueia, que a vitória

Do soldado Cristão repousa ao lado.

Quando, porém, a lua vagarosa

Dourava os verdes, plácidos outeiros

Da linda Niterói, um brado horrendo

Correu lançando a confusão e o susto

Entre nossos valentes lidadores:

— É morto o chefe! — O gelo do desânimo

Os braços enfraquece, esfria os peitos,

Extingue o fogo ardente dos combates

Nos olhos dos guerreiros. — Os mais nobres

E sábios campeões deixam as armas,

E beijam soluçando as mãos geladas

Do ilustre moribundo!… — Oh! Deus eterno!

Exclama o comovido mensageiro,

Eu o vi, eu o vi... pálido e belo,

Transpassado de aguda, ervada flecha,

Sobre o arenoso chão! De espaço a espaço,

Vendo seus denodados companheiros

Vencidos pela dor, movia os lábios,

Procurava faltar... Baldado esforço!

Uma golfada de espumoso sangue

Do seio rebentava, estranho lume

Incendeia-lhe os olhos, e de novo

Caía extenuado!... À meia noite

Deixava de existir. — Fatalidade!

Murmura o missionário. — O que me dizes,

Piedoso guerreiro! Estácio é morto!

Estácio, o fundador do grande empório

Das riquezas do Sul! — No verde monte

Que mais se alonga no espumoso pego,

E primeiro descobre a vasta barra,

Nós abrimos do herói a sepultura;

Os servos do Senhor, trajando luto,

Cantaram junto ao corpo os hinos santos

Do livro das divinas epopeias.

Depois ao triste adeus da artilheria

Que os vales atroava, o depusemos

No funerário leito. — À madrugada,

Seguindo as instruções de vossos freires,

Parti a procurar-vos. Eis a história

Do lúgubre sucesso: eis o depósito

Que tenho de entregar-vos. — O mancebo

Tira do seio um grosso manuscrito,

Que ao ministro apresenta. — Cumpre agora

Que descanses um pouco e te alimentes,

Vamos. — E entraram na ermida um após outro.

IV

Como desfeita está! Como caminha

A filha do sertão, triste e abatida

Pela seva doença! Desbotaram

No gracioso rosto as belas rosas,

Emblemas da viçosa mocidade,

Acabou-se a frescura de seus lábios,

E a luz suave dos fagueiros olhos

Sumiu-se para sempre! — Chora, chora,

Desgraçada Naída! — O hiberneu vento

Da fronte juvenil sacode as flores!

Ermo de anelos, de ilusões vazio,

Bate teu coração, e as asas cerras,

Tímida rola das florestas virgens,

Deixando o mundo na estação dos risos!...

Do limiar da porta o sábio a enxerga,

E disfarçando com palavras meigas

A emoção que o domina, a mão lhe estende,

E a faz entrar no hospitaleiro alvergue.

V

Ao meio dia, reunida à sombra,

A caridosa grei, o missionário

Ergue a voz eloquente, e continua

Da redenção a história milagrosa.

— Sinto-me enfermo e fraco, as tristes novas

De uma luta cruel, o pensamento

Dos males e perigos que nos cercam,

A sinistra impressão, talvez, de um sonho,

Mas de um sonho fatal, minha alma oprimem.

Escutai-me, contudo, sede atentos.

VI

Sobranceiro aos manejos da calúnia,

Aos enredos da inveja, às ameaças

Dos desleais, protervos sacerdotes,

Na divina missão, Jesus prossegue,

Arrostando os bulcões da tempestade,

Que seus dias terrestres assoberbam.

Era o domingo consagrado à festa,

Com que celebra o povo Israelita

As árduas provações de seus maiores

Nas planícies do Egito. As verdes silvas,

As balsas florescentes dos outeiros

Se arriavam de pérolas e opalas

À luz do sol nascente; alegres bandos

De alvas cegonhas, de faisões travessos,

Brincavam pelas margens dos arroios,

Encantados do aroma e da frescura,

Que as serenas campinas inundavam.

Como as aves, contentes, como as flores,

Louças e donairosas, pelos vales

Corriam da Judeia as lindas filhas,

Cheia a imaginação de amores fáceis,

E, como sempre... o coração vazio.

Ora, naquele tempo, descansava

Rodeado dos seus o excelso Mestre,

Em saudoso retiro junto à fralda

Da montanha das velhas Oliveiras;

E como visse as buliçosas turbas

Que atravessavam lépidas os prados

Demandando a cidade — a dois amigos

Disse, apontando ao longe a aldeia humilde,

Entre viçosos pâmpanos oculta:

— Ide àquele lugar; vereis, entrando,

À vossa destra, presa uma jumenta,

E ao lado dela um tenro jumentinho,

Trazei-mos sem receio. Se, contudo,

Alguém vos perguntar quem vos envia,

Respondei — o Senhor: — no mesmo instante

Vos deixarão voltar. Logo partiram

Os sócios de Jesus a largos passos,

E o divino mandado executando,

Trouxeram sem trabalho e sem tardança

Os mansos animais. — Predito fora

Pelo antigo profeta este sucesso,

E as menores, mais leves circunstâncias,

— Pondera o escrupuloso missionário —

Ouvi a predição: — Direi à filha,

À filha de Sião, eis se aproxima

Sobre rude jumenta, vagarosa,

O vosso grande rei. — Porém, chegados

Os servos do Senhor, os grossos mantos

Ao dorso do animal prestes lançaram,

Onde sentou-se Cristo, e pensativo

Seguiu caminho da cidade eterna.

Vingava o sol na cúpula celeste

O meio de seu giro diuturno,

Quando a Jerusalém, não dos profetas,

Não de Davi, o bardo soberano,

De Salomão o sábio, mas a triste

Jerusalém dos Césares, — ao longe,

Apareceu na fímbria do horizonte,

Aos olhos do Senhor; ondas de povo

Corriam dos casais ao seu encontro,

Ondas de povo se agitavam ledas

Na pedregosa estrada que trilhava,

E seguiam cantando almos louvores.

VII

Glória! os hebreus clamavam, Glória! Glória.

Ao filho de Davi! Bendito seja

O que em nome de Deus vem das alturas!

E estendiam por terra os seus vestidos,

Quais régios servos pérsicos tapetes

Na passagem dos príncipes. — Hosana!

Gritavam as crianças e as donzelas

Desfolhando boninas odorosas,

Cobrindo o chão de verdejantes palmas.

Glória ao Senhor, ao Mestre! — Glória a Cristo I

E o séquito engrossava, os camponeses,

Romeiros e pastores, se ajuntavam

À roda de Jesus, os viandantes

Saudavam-no de longe. Dir-se-ia

A entrada triunfal de herói preclaro

Da pátria amada ao suspirado grêmio

Depois de longa ausência. — Glória! Glória!

Repetiam os ecos das montanhas.

Cedo em Jerusalém correu a nova

Da brilhante ovação, e os sacerdotes

Raivaram como as serpes peçonhentas,

Quando pressentem das imundas covas

O tropel das ovelhas. — Oh! bem vemos,

Os fariseus diziam, disfarçando

Os furores satânicos da inveja,

O vulgacho está cego! O Nazareno

Fascina as multidões. — Outros, audazes,

Dirigem-se ao Senhor e assim lhe falam:

— Mestre, fazei calar vossos amigos! —

— Se os fizesse calar, responde o Mestre,

Clamariam talvez as próprias pedras! —

Depois, volvendo os olhos compassivos

Para as colunas áridas, fronteiras,

Vendo, já perto, a célebre cidade

Com seus velhos eirados, com seus muros

Pelo roçar do tempo enegrecidos,

E os grossos bastiões, onde ociosos

Os soldados romanos palestravam,

Abaixou suspirando a bela fronte,

E disse estas palavras memoráveis:

— Jerusalém! Jerusalém! Se ao menos

Pudesses conhecer o que te salva,

E te assegura a paz! Mas, os teus olhos

Nada por ora enxergam no futuro!

Entretanto, há de vir um dia infausto,

Um dia de terror! Teus inimigos

Te apertarão num sitio pavoroso!

Por terra cairás, tu e teus filhos,

Tudo o que te pertence, e os porvindouros

Não acharão mais pedra sobre pedra

Sobre teu frio chão! Desconheceste

O tempo em que teu Deus te visitava! —

E as lágrimas sentidas enxugando,

Chegou Jesus às portas da cidade.

VIII

Quem se aproxima de Sião? Quem sobe,

Precedido de cânticos festivos,

Essas ladeiras íngremes? — Não vedes? —

É Jesus, o profeta, diz o povo,

— Olhai — que majestade no semblante!

Que nobreza no gesto, e ao mesmo tempo

Que doçura no olhar e no sorriso! —

E as crianças gritavam — Glória! Glória!

Ao filho de David! — Que!... murmuravam,

Na vaidade cruel mortificados

Padres e fariseus, — estes meninos

Repetem nescidades e mentiras!

Escutai o que dizem! — Bem escuto,

Responde o Salvador, — eles recordam

Os conceitos das antigas profecias.

Pois não lestes alhures: É dos lábios

Das tenras criancinhas que dimanam

Os perfeitos louvores? Por ventura

Dos santos livros não volveis as folhas? —

Cheios de confusão não replicaram,

Jesus passou além, buscando o templo.

IX

Eras de opróbrio, de ambições mesquinhas,

De vil degradação! A grande ideia

De um Deus Onipotente, Eterno e Justo

Perdia-se entre práticas profanas

E preconceitos vãos. — As velhas crenças,

As tradições heroicas do passado,

As lembranças dos santos patriarcas,

Tudo se corrompia e se alterava,

Mesclava-se por fim dos atros vícios

E dos usos pagãos dos estrangeiros.

Deixando as aras dos latinos deuses,

E os festins dos soldados crapulosos,

Sentavam-se os judeus no vasto templo

Expondo à venda joias e brocado,

Mágicos talismãs, rudes abraxas,

Amuletos grosseiros, e — miséria!

Apregoando pombos e outras aves,

Barganhando muares, e enganando

Do pobre povo a chã credulidade,

E filhos de Abraão se declaravam!

X

Junto das brancas, lúcidas colunas,

Cobertas de lavores primorosos,

Onde, segundo as crônicas antigas,

Adoniran sentava-se, o arquiteto

Do grandioso, esplêndido edifício,

Jesus parou, relanceando os olhos

Sobre o povo sacrílego, avarento,

E não mais dominando a justa cólera,

Salta, as caixas derruba, as mesas quebra,

Toma um rolo de cordas retorcidas,

Cai sobre os detestáveis mercadores

E os expele do templo.

— ímpios, falsários,

Sabei que escrito existe: a minha casa,

A casa da oração será chamada!

Não a mudeis em furna de bandidos,

Ou taberna de sórdidos negócios! —

Calou-se o Mestre, e como serenasse

A nobre exaltação, viu que chegava

Grande cópia de míseros enfermos

Que vinham-lhe pedir saúde e vida.

A todos, um por um, bondoso e meigo

Dirigiu-se Jesus: tirou a sombra

Que, deste escurecia os fundos olhos,

Deu aquele vigor, deu aquele outro

O movimento, a força, a atividade,

Que lhe roubara a lívida doença,

A todos a saúde, a paz a todos.

XI

Ora, Jerusalém na bela quadra

Das festas anuais, pomposas festas,

Célebres entre os povos levantinos:

Jerusalém, a tela descorada,

O esquecido jardim, o antigo paço

Das delicias do Cântico dos cânticos,

Tornava-se uma feira turbulenta,

Onde se apinhoavam peregrinos

E mercadores das mais longes terras.

Muitos gentios, que esse nome tinham

Os crentes de outra lei, ouvindo a fama

De tantas curas, de milagres tantos,

Aos amigos do Mestre suplicaram

Que os levassem a vê-lo. Satisfeitos,

Lhes disse o Salvador: — Não tarda o dia

Em que o filho do Homem, vos afirmo,

Será glorificado; o grão de trigo,

Que não morrer, caindo sobre o campo,

Sozinho ficará; mas ao contrário,

O vereis produzir propícios frutos

Se acaso perecer. Quem ama a vida,

Bem cedo a perdera; quem a despreza,

Mais feliz viverá na eternidade.

Quem segue minha lei venha comigo,

Seja meu companheiro de jornadas,

E se alguém me servir, meu Pai celeste

De glória o cercará!... Porém, minh'alma

Toda turbada está neste momento!

Que poderei dizer? Livra-me, Padre,

Das angústias que sinto, e glorifica,

Senhor, teu santo nome! — Então do espaço,

Onde não pairam nuvens, e flamejam

Braseiros imortais, partiu solene

Uma voz que dizia: — Entre os arcanjos

Eu o glorifiquei, mas glorifico

Segunda vez ainda! — O rude povo

Que se achava presente, amedrontado

Murmurou entre si: — o céu é claro,

Como brame o trovão? — Nos bem ouvimos,

Dizem os anciãos, crede, meus filhos,

Da tempestade os fúnebres rugidos

Não ecoam assim! Etéreo nume

Responde às tristes queixas do profeta!

— Não por mim, mas por vós, míseros cegos,

Essa voz levantou-se do infinito!

Continuou Jesus, — e, pois, agora

A terra está julgada! De entre os vivos

Vai ser expulso o príncipe do mundo!

— Nós sabemos, açode um publicano,

Que eternamente permanece o Cristo,

O que dizeis então? — Por pouco tempo

Inda a luz se conserva entre vós outros,

Aproveitai a luz, que não vos cerquem

As enganosas trevas! Vede, é tempo!

Crede na luz enquanto a luz não foge! —

Disse e afastou-se. Os fariseus rebeldes,

Os escribas, e os néscios publicanos,

Apesar de tão lúcidas verdades,

De tão altos prodígios, se calaram,

Duvidando do Filho de Deus vivo.

Assim devera ser, o grande gênio

Do sublime Isaías, predissera

Todas as circunstâncias deste caso,

Quando exclamava lacrimoso outrora:

— Quem prestou atenção e ouviu contrito

0 que dissemos nós? A quem no mundo

O braço do Senhor manifestou-se?...

Cobriu seus olhos de pesadas sombras

E os frios corações tornou de pedra,

Que não vissem seus olhos, nem batessem

No seio os duros corações, medrosos

Que eu lhes mostrasse a luz e desse a cura!

XII

Mas em conselho oculto, reunidos,

Tinham determinado os sacerdotes,

A morte de Jesus. Eles sabiam

Que desse povo estulto e leviano,

Nenhuma oposição, nenhum protesto

Se ergueria, sequer, contra a injustiça

Da nefária medida. — Longo trato,

Fundo conhecimento das tendências,

Das propensões, da índole malvada

Da sanguinária gente, asseguravam

Um êxito propicio ao plano horrendo

Dos verdugos hipócritas. — Infâmia!

As turbas, que nas grandes praças,

Saudavam de Davi o ilustre filho;

Que nos degraus do templo e nos alpendres

Das moradas campestres, recebiam

Daquele Deus da paz e da esperança

O consolo; a saúde, o pão e a vida;

Que traziam-lhe as tenras criancinhas,

E imploravam-lhe a benção de joelhos;

Que beijavam-lhe a medo a pobre túnica,

Pedindo a salvação, — ora, folgavam

Vendo estender-se à sombra do suplício

Sobre o divino Mestre!... Prescindindo

Que forjavam-se os ferros do martírio!

Que estava perto a morte, feia morte,

Morte nefanda e crua! — Os mesmos braços,

Que se estendiam súplices e humildes,

As mesmas mãos que abriam-se convulsas,

Pedindo a esmola, o pão quotidiano,

O pão da Caridade que alimenta

O pobre corpo e o espírito indeciso,

As mesmas mãos, ingratas e traidoras,

Iam erguer as pedras do caminho,

Lançá-las contra o manso Nazareno!

Iam manchar-se no divino sangue,

No sangue sacratíssimo do Justo!

Israel! Israel! que não fizeste!

XIII

Quem te deu o poder, a autoridade

De censurar a lei, — fazer milagres,

E reformar doutrinas? — Onde a norma

De teus atos achaste? — perguntaram

Depois os fariseus, padres e escribas

Ao filho de Maria. — Respondei-nos!

— Hipócritas! se tendes o direito

De vir interrogar-me, também quero

Saber o que pensais, — nada de ambages!

Era dos homens, ou de Deus provinha

O Batismo de João? — Embaraçados

Consigo discorreram: — se afirmamos

Que era do céu, acudirá, de certo;

— porque não crestes nele? — se ao contrário,

Dissermos que dos homens, todo o povo,

Que a memória respeita do Batista,

Se erguerá contra nós! O que faremos? —

E disseram depois de longa pausa:

— Grandes dificuldades hoje aventas!

Quem as pode solver? — Então calai-vos,

Responde o Salvador, por minha parte

Não vos direi também de onde dimana

A minha autoridade. — Dirigiu-se

Depois às multidões, que não perderam

Uma palavra, só, deste incidente:

— Plantou um lavrador extensa vinha,

Arrendou-a a diversos camponeses,

E depois se ausentou por largo tempo.

Num dia de verão, que repousavam

À sombra do arvoredo, chega um servo,

E em nome de seu amo pede os frutos

Da vinha que deixara: enraivecidos

Pulam os vinhateiros e maltratam

O desgraçado servo, que regressa

Molesto e ensanguentado; vem segundo,

Vem terceiro emissário, e a mesma sorte

Sofrem, e o mesmo fero espancamento.

— Cumpre-me agora, o lavrador pondera,

Uma vez que meus fâmulos repelem,

Mandar meu próprio filho, o filho amado,

Que os chame a seu dever. — Sem mais tardança

Envia o primogênito. De longe,

Avistando o mancebo, os vinhateiros

Reúnem-se apressados e resolvem:

— Não voltam mais os servos timoratos,

Vem agora o herdeiro, assassinemos

O importuno senhor... a vinha é nossa.

E lançaram-se à vítima inocente,

E a deitaram por terra inanimada!

Que restará fazer? Que providência

Dará o lavrador? — Virá terrível,

Matará sem piedade os vinhateiros,

E a outros mais fiéis e caridosos

A vinha entregará! — Deus não permita

Que suceda tão feia atrocidade! —

Dizem os fariseus, depois que o Mestre

Concluíra a parábola agourenta.

— Escrito está, — o Salvador prossegue:

A pedra, que os obreiros esqueceram,

Pedra angular será do grande templo;

Quem sobre ela cair, por muitos evos

Ficará quebrantado, e o desditoso,

Sobre quem despenhar-se, em mil pedaços

No pó do escuro chão será desfeito! —

Compreenderam bem os sacerdotes

E os seus torpes asseclas, o sentido

Destas palavras temerosas, viram

De quem o santo Mestre se ocupava!

O farpão da ironia entrou, bem fundo,

Nos ímpios corações, e exacerbando

O ódio que lá estava. Houve um momento

Em que pensaram na medida extrema,

Que em secreto conselho resolveram.

Convinha agora lançar mão de Cristo.

Conduzi-lo a prisão? — Grave imprudência

Seria o praticar. E por ventura

Consentiria o povo, o rude povo,

O povo turbulento que o saudava

Como um libertador? Que arrostaria,

Não talvez por amor, piedade ou zelo,

Mas por vingança, ou desabafo, as iras

De seus velhos tiranos e exatores?

Era mister cautela. Antes, por isso,

De arrebatar ao povo o seu profeta,

Cumpria procurar por mil maneiras,

Que dele se afastasse o próprio povo:

Foi dos pérfidos este o grande empenho.

Começa a obra de Satã. Farejam

Por toda a parte os espiões indignos

As pisadas do Mestre; urdem ciladas,

Acumulam embustes; — os doutores

E os escribas rodeiam-no, propondo

Perigosas questões, em cujos termos

A serpente traidora está latente,

Como entre as flores de um jardim formoso;

E ensinando a brandura e a caridade,

O Salvador caminha entre verdugos!

— Mestre, consulta um saduceu, conheço

Que és sábio, verdadeiro, pio e reto.

Que da virtude desbravais as trilhas

Sem calcular futuras consequências;

Dizei-me: — é justo que se pague a César

O tributo exigido? — Ora, pensava

O fariseu astuto, ei-lo vencido:

Se assevera que não, ao rei ofende;

Se assevera que sim, o povo irrita! —

O Salvador sorriu, vendo a malícia

Desta cruel proposta, — refalsada,

Traidora como a faca de dois gumes.

— Hipócrita! — exclamou, porque me tentas?

Deixa ver a moeda do tributo! —

Então mostrou-lhe o pérfido um dinheiro

Onde a efigie de César ressaltava.

Jesus leu a inscrição e erguendo os olhos,

Severo perguntou: — Quem representa

Esta imagem que vejo? — César, Mestre. —

— Pois bem, o que é de César, dai a César,

E a Deus o que é de Deus! — Esta resposta

Encheu de confusão quantos a ouviram;

Calou-se o fariseu. — Mas era o dia

Do jogo vil da astúcia e da maldade.

Chegou a vez dos saduceus, contrários

Ao da Ressurreição divino dogma.

— Mestre — um deles falou, nos santos livros

Deixou Moisés escrito; — A lei ordena:

Se algum varão morrer, logo a viúva

Ao seu segundo irmão deve ligar-se

Para dar sucessão ao falecido.

Eram, pois, três irmãos: morto o primeiro,

A viúva passou para o segundo;

Morto o segundo, ao último se uniu,

Este morreu também, e como os outros,

Herdeiros não deixou; por fim, mais tarde,

Segue a mulher a sorte dos maridos.

Quando a trombeta do medonho arcanjo

Ressoar pelos términos do mundo,

Chamando os mortos ao juízo eterno,

E abrirem-se os sepulcros, vomitando

A luz do dia os homens redivivos,

Qual d'esses três irmãos, esposos todos,

Todos senhores de um igual direito,

Será julgado o verdadeiro esposo? —

— Cegos! — não conheceis as Escrituras,

Nem refletis de Deus na Onipotência!

Exclama o Salvador. — Findas as provas

Da terrestre jornada, a lei se acaba,

Que rege a criação sujeita à morte.

O que provém do tempo o tempo guarda,

O que se dá no espaço o espaço encerra.

Aos olhos do Senhor, quebram-se os laços

Da união secular, — só prevalecem

Eternas leis, princípios imutáveis;

Nem existem maridos, nem mulheres,

Senão anjos benditos, engolfados

Na gloriosa luz do Paraíso! —

— A verdade manou de vossos lábios,

Como um profeta respondeste, Mestre! —

Os escribas disseram. Confundidos

Os fariseus rebeldes se afastaram.

XIV

Ao sol posto, chamando os companheiros,

Retirou-se Jesus para a Betânia,

Tranquila estância, plácido remanso,

Propício à reflexão; passou a noite

Nessa querida aldeia, povoada

De lembranças dulcíssimas da infância,

E ao romper da alva regressou, de novo,

Ao teatro das áridas contendas;

Era brilhante o céu, calmoso o dia,

Tristonha a solidão; — não muito longe,

Pendida à margem de sereno arroio,

Divisou o Senhor bela figueira,

A cem passos da estrada, e cujos galhos

Supôs cobertos de gostosos frutos;

Aproximou-se, pois. Fátua esperança!

Lustroso estava o tronco e as folhas verdes;

Mas nem sequer um figo. Mudo emblema

Das falazes grandezas deste mundo!

Imagem da estultícia aparatosa!

— Maldita sejas tu, árvore ingrata,

Que não vales o orvalho que te molha,

E o calor que te alenta! — disse Cristo.

Nunca mais o cansado viandante,

Ou a frágil criança encontrem frutos

Em teus galhos mirrados! — Quando à tarde

Os cabreiros voltavam da montanha

A frondosa figueira que deixaram

Tão forte à madrugada, estava seca,

Denegrida, sem folhas, e lascada

Como se o fogo abrasador do raio

A tivesse tocado. — Os camponeses,

Amigos de abusões e sortilégios,

Ao rol extenso dos sinistros contos

De seus longos serões acrescentaram

A lenda escura da fatal Figueira.

XV

Mas, em Jerusalém, de volta, Cristo

Viu-se outra vez cercado dos escribas,

E doutores da lei. Aniquilados

Pelas duras lições, pelos exemplos

Aspérrimos dos dias precedentes,

Os fariseus corridos se esquivavam

De mais o interrogar, que bem sabiam

Pronto a lhes responder, deixando ensejo

De seus rivais aos ódios e sarcasmos;

Os saduceus contentes exultaram;

Eram, pois, os senhores do terreno,

Onde digladiavam-se os embustes,

E o pendão da impostura flutuava.

Um dos seus campeões chegou-se ao Mestre,

E assim principiou: — Qual o primeiro

De nossa lei sagrado mandamento? —

— Adorarás teu Deus, Jesus responde,

Sobre todas as cousas, com pureza,

Com todo o coração, crença e humildade:

Eis o primeiro mandamento; o outro,

Grande como este, e deste deduzido,

Diz assim: — Amarás teu semelhante,

Teu igual, teu irmão, como a ti mesmo.

Estes dois mandamentos compreendem

Toda a lei de Moisés e dos profetas. —

Os saduceus calaram-se, temendo

Que deste ponto o Salvador passasse

Ao divino mistério, que negavam.

Porém Jesus, voltando a outro assunto,

Perguntou, dirigindo-se aos escribas:

— E quanto a vós, o que pensais de Cristo?

De quem o credes filho? — Nós julgamos

Que é filho de Davi, — lhe responderam.

— Como! O grande monarca, o rei piedoso,

O chama seu Senhor, e humilde exclama:

O Senhor glorioso e Onipotente

Falou a meu Senhor: — à minha destra

Senta-te, que farei de teus contrários

Estrados de teus pés!... — Cativo o povo

Da maviosa voz e das palavras

Claras, distintas, do divino Mestre,

Conservava-se mudo e respeitoso.

Não longe do lugar em que se achavam

Era o gazofilácio, o pio cofre,

Onde lançavam grandes e pequenos

As desiguais ofertas, liveladas

Pela santa intenção. Os opulentos

Faziam retinir áureas moedas,

Os indigentes o óbolo molhado

De viscoso suor, de amargo pranto:

Quando ninguém mais vinha, adiantou-se

Uma infeliz viúva a lentos passos,

E erguendo a magra mão, depôs na caixa

Duas moedas de valor mesquinho.

— Olhai, diz o Senhor aos assistentes,

Mais do que todos, abastados, ricos,

Foi generosa a mísera viúva!

Do muito que sobrava os outros deram,

Mas, ela da desgraça e da pobreza

Deu tudo quanto tinha, e que restava

Para enganar a fome de alguns dias! —

E prosseguiu depois de breve pausa:

— Oh! guardai-vos daqueles que preferem

A ostentação à cândida modéstia!

Guardai-vos dos escribas, que se cobrem

De pomposos vestidos e se orgulham

Das saudações do vulgo mentiroso!

Que procuram nas mesas dos banquetes

As melhores cadeiras, e disputam

O primeiro lugar nas sinagogas!

Que devoram as casas das viúvas

E simulam orar! Sobre eles pesa

Maior condenação, pena mais grave! —

E calou-se Jesus. — Muitos doutores,

Muitos juízes e anciãos do povo

Creram no Salvador, mas não ousaram

Reconhecê-lo em público, temendo

Serem das sinagogas despedidos.

Triste vaidade! Escrúpulo perverso!

XVI

Como crescesse o número de ouvintes,

E os fariseus e escribas se escondessem,

Jesus continuou: — Porém, vós outros

Não cobiceis o título de — mestres!

Tendes um Mestre só, irmãos sois todos!

Ninguém chameis de pai, um Pai só tendes,

Que vos julga dos céus! O que se humilha

Exaltado será, mas o soberbo

Ficará no lugar dos pobres servos!

Ai! de vós, fariseus e escribas falsos!

A terra toda percorreis e os mares

Para formar apenas um prosélito,

Se o conseguis formar, ei-lo mais digno

Do inferno que de vós! Míseros cegos

Que um mosquito afastais, e descuidosos

Engolis um camelo! — O que transborda

Solícitos limpais da taça de ouro,

Mas no fundo deixais as fezes negras,

E a imundice do vício. Eu vos comparo

A esses brancos túmulos, cobertos

De todo o luxo da vaidade humana,

Por fora emblemas e inscrições brilhantes,

E dentro a morte e carcomidos ossos!

Ai! de vós fariseus e escribas feros,

Que levantais monumentos aos profetas,

E ornais dos justos a mortal jazida!

Serpes traidoras, víboras danadas,

Arde por vós o fogo da Geena!

Eu vos envio sábios e videntes,

E vós os açoitais nas sinagogas,

Vós os pregais na cruz, para que volte

Sobre vossas cabeças ominosas

O sangue da inocência que vertestes;

Sim, todo o sangue, desde Abel o justo

Até o reto e nobre Zacarias

Que entre o divino altar e o santuário

Assassinastes, bárbaros algozes!...

Jerusalém! Jerusalém! trucidas

Os profetas que Deus abençoara,

E apedrejas seus justos enviados!

Oh! quantas vezes não tentei zeloso

Teus filhos reunir, qual sob as asas

Ave caseira a prole timorata!

Não o quiseste! sofrerá teu povo,

E ficarás deserta e envilecida! —

Assim dizendo retirou-se Cristo.

XVII

O átrio do templo, alegre, iluminado

Pelos raios do sol, naquelas horas

Recordava uma festa. Os operários

Descansando dos áridos trabalhos

Sobre os bancos de pedra conversavam;

Aqueciam-se os velhos friorentos

Ao suave calor do astro propício;

As ingênuas mulheres e as crianças

Que saltavam risonhas nas calçadas,

Vendo o divino Mestre aproximar-se,

Abriam-lhe caminho, proferindo

Jubilosos louvores: — Salve, Mestre,

Pai dos enfermos e dos pobres, salve! —

Cubra-te Deus de bênçãos incessantes,

Jesus de Nazaré, que participas

Das tristezas e mágoas de teu povo!

Toma nossa defesa e nos protege,

Enviado do Altíssimo! Os tiranos

Tremem de ouvir teus lúcidos discursos! —

Assim a gratidão e o amor falavam,

E este, não da lisonja, ameno incenso

Aprazia ao Senhor. Quando se expande

Sincero o coração, celeste gênio

Dá sublime eloquência aos desgraçados.

A fachada do templo, os grandes arcos,

O pórtico espaçoso, obras soberbas

De forte alvenaria, o enorme vulto

Desse prodígio de cimento e pedra,

De novas reflexões tornou-se o assunto.

— Que portentosa fábrica! — exclamaram

Os amigos de Cristo; vede, Mestre,

Quão formidáveis são estas muralhas!

Estes grossos portais, estas cornijas

Que parecem de bronze! O próprio templo

Não se atreve a manchar tantos primores!

— Que pensamentos vãos! — Jesus responde:

— Como virá sentar-se a eternidade

Sobre as obras dos homens? O futuro

Há de mostrar os erros do presente.

O furacão do estrago, a noite horrenda,

Passarão por ali. Friso por friso,

Pilastras, coruchéus, muros espessos,

Maravilhas das artes, das riquezas,

Cairão — para sempre. — Imundas serpes

Se arrastarão tardias sobre o solo,

Onde se eleva agora o santuário!

Então lhe perguntaram seus amigos:

Quando sucederão estas desgraças,

Estas calamidades assombrosas

De que falais, Senhor? Quais seus princípios,

E os sinais precursores! — Sede firmes,

Responde o Salvador com voz solene,

Não vos deixeis levar pela mentira

E aparências falazes, — nesse tempo

Muitos virão debaixo de meu nome

Dizendo: Eu sou Cristo! — Então o mundo

Será um campo imenso de batalha!

Armar-se-ão impérios, contra impérios,

E reinos contra reinos! Como os tigres,

Os povos rugirão se espedaçando!

Os rios secarão, e à luz sinistra

Do esbraseado céu, as torvas ondas

Descobrirão os fundos dos abismos,

Os vórtices de horrendos sorvedouros!...

Por toda a parte onde existir colinas,

Altas montanhas, escabrosos cerros,

Rebentarão vulcões! Gretado o solo,

Retalhado de fendas pavorosas,

Vomitará torrentes de betume,

Súlfur ardente, labaredas vivas!

As ossadas dos velhos megatérios,

Dos broncos, monstruosos mastodontes,

Rudes leviatãs, dragões enormes,

Como a espuma dos vinhos fermentados,

À flor da terra surgirão! Os mortos

Sacudirão as cinzas dos sepulcros,

E ao clangor da trombeta atroadora

Correrão tropeçando sobre escombros

Ao negro vale do juízo eterno,

Ao fundo Josafá! — Antes, contudo,

Destas cenas finais, sereis de rastros

Levados às tremendas sinagogas,

Das sinagogas às prisões sombrias,

Das prisões aos martírios inauditos!...

Não cogiteis respostas, nem defesas,

Que vos darei palavras e virtudes,

Fortes, irresistíveis! — Sede firmes,

E nada perdereis: na paciência

Tendes a salvação, tendes a glória.

Então, sobre uma nuvem radiante,

Vosso libertador vereis, que desce

Cheio de luz, poder e majestade!

Refleti no que digo, — passa o tempo,

Ha de passar o céu, passar a terra;

Porém, como as verdades infinitas,

Não passarão jamais os meus preceitos! —

Calou-se o Salvador, volveu tristonho

Um derradeiro olhar, olhar pressago,

Sobre as ondas de povo que o cercavam,

Que humildes escutavam seus discursos,

E que amanhã... Logo, porém, chamando

Os singelos amigos, retirou-se,

E ao monte caminhou das Oliveiras,

Onde, depois das prédicas diárias,

Soía descansar, longe das turbas. —

Proferindo estas últimas palavras,

Também ralou-se o narrador piedoso,

O profeta das turbas do deserto.

XVIII

Cumpria então, as instruções seguindo,

Que lhe trouxera o moço mensageiro,

Expor aos anciãos, contar aos chefes

Dos brasílios guerreiros, as desgraças,

Que a nova comunhão ameaçavam.

Reunir os mancebos, instiga-los

A deixar o remanso das florestas

E juntarem-se aos bravos lidadores,

Que o sagrado estandarte defendiam,

Nas planícies da extensa Guanabara.

Grande parte da noite em conferência

Entre os chefes, passou o ilustre padre;

Ao alvejar da aurora eram de acordo

Sobre o alvitre melhor, sobre as medidas

Que o tempo e as ocorrências reclamavam.

E voltava de novo o mensageiro

Às celebradas praias fluminenses.

 

CANTO VIII

I

Longe, na vastidão dos descampados

Que se perdem no vago do horizonte,

Onde os almargeais e os frescos vales

A luz crepuscular que envolve os ermos

Tomam do firmamento a cor cerúlea,

Longe, desaparece a última turma

Dos filhos do sertão, que as alvas praias

Buscam da Guanabara. A pátria os chama,

Correm a defender a pátria aflita.

Foram-se. No fastígio dos rochedos,

Triste e sozinha, a virgem do deserto

Chora a partida do guerreiro amado.

As virações da tarde, ásperas, frias,

Sacodem-lhe os vestidos, o sereno

Umedece-lhe o rosto e as tranças negras,

Mas a febre a consome, — o hálito ardente

Queima-lhe os lábios secos, descorados,

E nas brilhantes, áridas pupilas,

Cruzam-se estranhos lumes. Muitas vezes,

De convulso ofegar ao vivo esforço,

Levando a débil mão à linda boca,

Volve-a manchada de purpúreo sangue!

E a vida que vai-se lentamente,

Que foge a pouco e pouco, desfolhando

As grinaldas louçãs da juventude,

As ilusões do amor, os sonhos de ouro,

E as esperanças todas do futuro!...

Oh morte! Amas os lentos sacrifícios

Saboreias as longas agonias,

Divindade cruel! — No horror lasciva,

Arrochas vagarosa a pobre presa,

Molhas-lhe o corpo de nojenta baba,

Como a boa-constrictor dos fraguedos,

Depois lambes-lhe as carnes laceradas

E a devoras com lúbricos requebros!...

Porém, sumiu-se o dia, a plúmbea noite

Domina as solidões; dos altos cerros

E das brenhas do Sul partem rugidos

De feras erradias, e entre as junças

Das profundas charnecas, agourentos

Gritam os jacarés. Horas sinistras

De indizível terror! — Ergue-te, e volta

Para junto dos teus, anjo das selvas!

Não escutas ao longe a voz materna

Que ansiosa te chama? Não distingues

Entre as folhas dos plátanos lustrosos

A ondulação das tremulas fogueiras!

Vê, teus irmãos esperam-te, teu mestre

Aguarda-te silente e pensativo.

Ergue-te, pois, criança, enxuga o pranto,

E busca teu lugar junto do sábio,

Junto do amigo e protetor, Naída!...

A virgem se levanta, suspirando,

E deixa o alpestre sítio; no caminho

Encontra a pobre mãe, corre a seus braços,

Beija-lhe o frio rosto e se dirigem

Ao piedoso serão do eremitério.

Um momento, depois, o exímio padre,

Alçando a voz sonora, continua

A gloriosa história do Evangelho.

II

Fora ocioso relembrar ainda

Os passos principais e as ocorrências

Da narração passada; estou bem certo

Que fiéis os guardais no pensamento,

Como vos disse então, os sacerdotes

Escribas e doutores, procuravam

Propícia ocasião, meios propícios

De condenar Jesus, e ao mesmo tempo

Temiam-se da cólera do povo.

O espírito do mal veio em auxílio

De seus nefários planos. Congregados

Alta noite na sala mais secreta

Dos paços pontifícios, discorriam

Sobre o bárbaro alvitre e a crua empresa,

Quando um servente anunciou da escada

A presença de Judas. Resolvido

Estava o tredo e pérfido problema:

Satã lhes dera a chave. Alguns instantes

Sucederam de lúgubre silêncio,

Depois abriu-se novamente a porta,

E o sombrio Judeu entrou na sala

Com serenas feições, olhar sereno,

Modos corteses, e um sorrir tartáreo!

Viram-lhe fundo na alma os sacerdotes.

— Sabemos ao que vens, — fala e não temas.

Rejeitas os preceitos e as doutrinas

Do Mestre nazareno? — Sim!... rejeito,

Judas responde com sinistro gesto

Ao perverso doutor que o interroga.

— Reconheces teu erro e te arrependes?

Voltas à santa lei? — Porém, não bastam

Simples afirmações — queremos obras! —

— E quais são elas? O traidor pergunta,

Mostrai-mas, por quem sois!... Aqui tristonho,

Aqui turbado, o narrador calou-se:

Aqui também suspiras e emudeces,

Pobre, singela musa! Onde acharias,

Anjo da solidão, formosa filha

Das florestas da terra do Cruzeiro,

Robustas expressões, fiéis palavras,

Para externar o horror do atroz conluio,

Da intriga infame, do nefando ajuste?

Da ingratidão de Judas? Por ventura

Poderias baixar ao negro inferno,

Molhar a pena no fervente pranto

Que blasfemando os réprobos derramam?

Talvez assim... Ao alvejar da aurora,

Servo de Satanás em corpo e alma,

Judas deixava os ímpios sacerdotes,

Tendo vendido o amigo, o sábio Mestre,

O santo benfeitor! — Trinta dinheiros,

Fora da perdição o justo prêmio!

Trinta dinheiros! E devera o monstro

Assinalar Jesus a seus verdugos,

Dando-lhe um beijo no divino rosto!

A saudação fraterna! O meigo indício

De inalterável, cândida amizade!

Carícia d'alma, que feliz, resume

Quanto a humana linguagem desconhece

De afetuoso, de eloquente e puro!

III

Era chegado o dia dos pães asmos,

O dia em que os judeus principiavam,

Segundo as tradições e a lei antiga,

Do pão não levedado a fazer uso:

Era o dia da Páscoa. O povo e os grandes

Soíam celebrar a velha data,

Reunindo os amigos e os parentes

Em uma alegre ceia, santa regra

De memorandas eras respeitada

Plácida e bela nos tranquilos campos

Estendia-se a tarde, e as lindas flores

Que se inclinavam murchas, abatidas,

Nas bordas dos arroios, levantavam-se

Rescendentes de aromas aos bafejos

Das aragens sutis; os passarinhos

Despediam-se ao longe, nos silvados,

Do dia que passava. — Sobre um monte

Distante da cidade estava Cristo,

Rodeado dos seus: funda tristeza

Do claro rosto lhe alterava os traços.

Então, quebrando o místico silêncio

Das reflexões divinas, perguntaram

Seus singelos amigos: — Onde queres

A Páscoa celebrar? Correm as horas

Sem pensarmos no santo cumprimento

Deste antigo preceito. — O que resolves?

Onde iremos, Senhor? — É tempo ainda

De atendermos à lei — Jesus responde.

Depois chamando João e o velho Pedro:

— Parti, lhes disse, às portas da cidade,

Virá ao vosso encontro um homem pobre,

Carregando uma bilha; acompanhai-o.

Na casa onde ele entrar, entrai vós outros,

Falai ao morador: — ordena o Mestre

Que nos mostres a sala destinada

Ao banquete da Páscoa. Oficioso

Logo vos abrirá claro aposento

De alfaias adornado, lindos quadros,

E guirlandas de flores; bem no centro

Mesa patriarcal vereis coberta

De fina louça e ânforas lustrosas;

É o lugar da ceia. Ide depressa,

Procurai os manjares necessários,

A tenra carne do pascoal cordeiro,

O vinho generoso e o pão macio;

Esperai-nos depois. — Partiram logo

Os dois ingênuos, cândidos amigos,

Levando as instruções do augusto Mestre.

IV

Bendizei o Senhor, filhos das selvas,

Homens da natureza! Como as águas

Que desusam em límpidos meandros

Sobre as loiras areias da planície,

Vossos dias sucedem-se risonhos

E vossos pensamentos sempre calmos.

Bendizei o Senhor! Nunca sentistes,

Nem jamais sentireis, o enorme peso

Desse cismar incerto e angustioso,

Desse indizível borbulhar de ideias,

Que a mente escaldam por sinistras horas

Ao sábio lidador, que arrosta os erros

Que as gerações e o tempo consagraram!...

Que sucessão de atrozes pesadelos!

Que tecido de acerbos desenganos!...

Levar aos lábios do sedento enfermo

O suave elixir que a febre aplaca,

E entre os lábios e a taça o bafo impuro

Da morte pressentir! Lançar às ondas

Propícia corda ao náufrago cansado,

E um cutelo fatal cortar ligeiro

A corda salvadora! Ouvir ao longe

Os cânticos angélicos, as preces

Que aos pés do Criador erguem os justos,

Repeti-las ao mundo, e em recompensa

Mostrar ao mundo o cedro que falqueja

Para formar a Cruz! O ferro em brasa

Para formar os cravos!... e atrevido

No pórtico do templo, em vez do arcanjo

Que derrama laureis, bênçãos e glórias,

A figura do algoz lúgubre e horrenda!...

A ingratidão, mais dura que o suplício,

Varava o imenso coração de Cristo!

Por isso, levantou-se, triste, mudo,

E acenando aos amigos que o cercavam,

Caminhou lentamente! — Alma divina!

Era a última vez que te expandias

Como a efêmera flor do dolente cactos

No silêncio da noite, às auras livres

Nesses amados campos! Expirara

Das cenas pastoris a bela quadra,

A estação das jornadas milagrosas,

Dos prodígios da fé: cumpria agora

Realizar as predições tremendas,

Que desde as margens do Jordão sagrado

Até Jerusalém troavam roucas,

Como o remoto marulhar das vagas!

V

Iluminada estava a bela sala,

A sala do festim; servida a mesa:

Adornadas de palmas as pilastras,

Quando Jesus chegou. Mágico efeito

Produzia o clarão dos brancos círios

Sobre as ricas alfaias e cortinas

Das mais vistosas sedas, que mudavam

As vivas cores sob a luz imprópria.

Suave aroma de resinas brandas

Embalsamava o ar; — vago mistério,

Secreto encanto que os altares cerca,

E banha os santuários, quando mudos

No silêncio da noite refletimos

No templo do Senhor, e nosso espírito

Julga presente Aquele que invocamos:

Os dilúvios, talvez, de um outro mundo,

O claro espaço enchiam, consagrado

Da liberdade aos últimos momentos,

Da caridade às práticas sublimes,

E da esperança às vívidas promessas!"

Convidando os humildes companheiros,

Sentou-se à mesa o Salvador; à destra

Tomou lugar o cândido discípulo,

Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!

Ocuparam os mais ambos os lados.

Como não fosse o gosto dos banquetes,

Nem a paixão das tinas iguarias

Que os reunira ali, mas o respeito

Das priscas tradições e os atrativos

Da fraterna união, passava o tempo,

E os felizes consócios discorriam

Sobre as divinas leis. Silencioso

Até então Jesus se conservava,

Mas elevando a voz grave e solene

Deste modo falou: — Oh meus amigos!

Desejei com afã, entre vós outros

A Páscoa celebrar antes da morte;

E crede, vos afirmo, doravante

Nenhum sustento levarei à boca

Até que ela se cumpra gloriosa

No reino de meu Pai! — Houve uma pausa

De curta duração, o amado Mestre

Tomou então um cálice de prata,

Em cujas faces primoroso artista

Insculpira o sublime sacrifício

Do pio e manso Isaac, e lentamente

O encheu de rubro e generoso vinho.

— Bebei — disse entregando-o aos companheiros,

Que não mais provarei da vide o fruto,

Enquanto não vier o Reino eterno! —

Depois ergueu-se e se afastou da mesa,

Despiu as vestiduras, e cingiu-se

De alva toalha do mais fino linho,

Tomou uma bacia, encheu-a d'agua,

E voltando de novo, mudo e humilde,

Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.

Esta insólita e nova cerimonia

Lançou a confusão nas almas simples

Dos simples aldeões: surpreendidos

Olhavam para Cristo e não ousavam

Um gesto aventurar; porém, tranquilo

Prosseguia Jesus: nas finas dobras

Da macia toalha os pés molhados

Enxugava ao penúltimo. Entretanto,

O velho Pedro esquivo se escondera,

E chegando-lhe a vez, o grande Mestre

Chamava-o com instância. — Em tal não penses,

O lhano galileu gritou medroso;

— Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,

Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! não quero

Nem o deves querer! — Se te recusas,

Responde o Salvador, — não és comigo;

Da santa comunhão não fazes parte!

— Não! não me negarei, atalha Pedro,

Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,

Lava-me o coração! Torna-me puro

Como a luz, como o céu, como a verdade!

— Porém, disse Jesus, o que está limpo

Só deve os pés lavar, os pés somente,

E vós outros sois limpos... ah! não todos!...

Se os sócios do Senhor não conhecessem

A Índole de Judas, bastaria

Para entender a dúbia referencia

Olhar para o traidor! — Tinha no rosto,

Na fealdade horrenda de um demônio,

A sinistra expressão de um condenado.

Findo o humilde serviço, o Mestre exímio

Pôs de lado a toalha, e satisfeito,

Tomando as vestiduras, assentou-se

No lugar que deixara junto à mesa,

E assim continuou: — Pobres amigos!

Senhor e Mestre me chamais, é certo

Que sou Mestre e Senhor; — julgai agora,

Quando eu, Senhor e Mestre, os pés vos lavo,

O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,

Lavar os pés também, mas uns aos outros. —

Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção

Em nome de seu Pai, e erguendo o rosto

Nesse momento esplêndido de graças,

Distribuiu aos mansos companheiros

O sagrado alimento. — Eis o meu corpo,

Dado por vosso amor; depois, enchendo

O cálice de vinho, apresentou-lhes:

— Eis o meu sangue, o sangue da inocência,

O da Nova Aliança ardente sangue,

Que por vossa intenção será vertido:

Comei, pois, e bebei!... Entre os convivas

Este festim divino, entre os eleitos

Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,

O vinho milagroso recebiam,

Achava-se o preceito que vendera

A carne e o sangue do celeste amigo!...

Cristo suspirou baixando os olhos,

Depois assim falou: — Sombrio arcano!

Desgraça inevitável! No futuro

Sem que a suprema lei domine os atos

Da liberdade humana, eu vejo claro

O que há de suceder! Mesquinhos seres!

Sentados junto a mim, tratais-me agora

Com respeitoso amor, vossas palavras

São da fidelidade a viva cópia...

E, contudo, um de vós há de trair-me!

E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,

Ha de entregar-me aos bárbaros verdugos

Que meu sangue reclamam, como a herança

De seus perversos pais! — Senhor, que dizes!

— Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam

Os pobres, aterrados. — Ora, vede,

Prossegue o Redentor — dos que me cercam,

O que a meu prato leva a mão comigo,

Aquele a quem eu der o pão molhado,

É ele o delator. — Junto de Cristo,

À destra, estava João, o mais discreto,

O mais moço também, e o mais formoso

Da caridosa grei; entristecido

Ao ouvir estas lúgubres palavras,

Escondera a cabeça graciosa

No seio de Jesus, e as loiras ondas

Dos lustrosos cabelos anelados,

Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam

As abundantes lágrimas. Bem cedo

Cumpria-se o mistério: várias vezes,

Por simples distração ou grosseria,

No prato do Senhor tocara o ímpio,

Mais claro ainda o caso ia tornar-se;

Já ninguém conversava: então o Mestre

Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!

— Senhor! Senhor, que fazes!... porventura

Me julgas o traidor? — Tu o disseste,

Tu o disseste, Judas! — lhe responde

Cristo magoado. — O que receias?

Vai, as horas escoam-se ligeiras,

E o que tens de fazer, faze-o depressa! —

Um momento depois em vão buscavam

Na sala do banquete o fementido:

Ele os tinha deixado, e estava longe.

VI

Meia noite! Nos altos candelabros

Desmaiavam as luzes, a tristeza

Cerrava os corações. — Éramos doze,

Murmura um dos amigos assombrado,

Éramos doze, sem contar o Mestre, —

Judas se retirou e... doze somos! —

Nesse momento um trêmulo gemido

Soou junto da mesa, o santo cálice

Oscilou lentamente, desprendendo

Aguda vibração... branca figura,

Como a de Samuel na negra furna

Da sibila de Endor, bela e horrível,

Ergueu-se vagarosa junto a Cristo.

— Senhor! falou, — Senhor, em idos tempos,

Por vossa vinda suspirei debalde!

Entre rudes pagãos, fui o primeiro

Que a divina unidade expôs ao mundo,

Que do Deus Uno e Trino a glória viu!

Mártir da fé, baixei à sepultura

Sem receber as águas do Batismo!...

Hoje, que dás a salvação e a vida

À humanidade escrava do pecado,

Quebrei da morte o fúnebre sigilo,

Vim o sangue beber, comer a carne,

A carne e o sangue do Cordeiro eterno!

Glória! Glória ao Senhor! abertas vejo

Do Paraíso as portas luminosas! —

— Piedoso varão, exímio Sócrates,

Sábio como Moisés, íntegro e justo

Como o grande Abraão — Jesus exclama,

Voa ao seio de Deus! Recebe o prêmio

De teu sublime, heroico sacrifício! —

Um fulgido clarão de alva celeste

Iluminou a sala, e a sombra ilustre,

Como outrora o Senhor, transfigurada,

Deixou a terra, os homens, e perdeu-se

Nas regiões do éter!... — Levantai-vos,

Disse Jesus aos frios companheiros,

As horas do martírio se aproximam!...

Simão! Simão! continuou, fitando

O velho pescador, — bem como o trigo

Satã pediu que joeirasse a todos,

Mas eu roguei por ti, que não vacile

E nem te falte a fé — Senhor, descansa,

Pedro lhe respondeu, onde estiveres

Eu estarei também constante e firme,

E onde penares, meu divino Mestre,

Eu penarei também: qual nesta vida,

Também na morte me verás contigo!

— Ah! entretanto, o Salvador prossegue,

Antes que solte a voz o galo esperto,

Me negarás três vezes, e hoje mesmo!

E voltando-se aos outros companheiros,

— Quando vos disse: viajai sem bolsa,

Sem sandálias e alforjes, por ventura

Alguma cousa vos faltou? — Não, Mestre,

Lhe responderam todos. — Pois, agora,

Tome, quem os tiver, bolsa e alforjes,

E quem não os tiver, venda os vestidos,

Compre logo uma espada!... — Uma não basta,

Temos duas — disseram-lhe. — Calai-vos!

Continuou Jesus: não se alvorocem

Os vossos corações, as vossas almas;

Credes no Deus eterno e omnipotente?

Pois crede em mim também. Antes de todos,

Na casa de meu Pai vou preparar-vos

Deliciosos cômodos, mais tarde

Voltarei a buscar-vos — Oh desgraça!

Apropinquam-se as horas do martírio!

Vão cumprir-se as palavras dos profetas! —

Calou-se Cristo, e lento retirou-se.

VII

Senhor! Lavaste os pés a teus amigos,

Deste-lhes força e ânimo e virtude

Para seguirem da verdade as trilhas!

Quem meus pés lavará? Quem a meu gênio

Dará brilho e vigor? Quem da vertigem

Preservará meu cérebro? Eis-me fraco,

Sem estro, sem saber, sem guia e mestre,

Meu Deus! Acompanhando-te nos transes,

Desse penar imenso, onde empenhada

A eternidade abraça-se à matéria!

Jesus! Dá-me valor! Lava minha alma,

Lava-me a lira, a inspiração, a pena,

Como lavaste os pés a teus amigos!

Faze que eu não fraqueje, não tropece!

Mas, se, embora de rastros, arquejante,

Vencido pela dor e pela febre,

Eu tenha de seguir-te, oh! seja feita

A vontade de Deus, bendita sempre!...

.............................................................................

No monte das antigas Oliveiras,

Não longe do Cedron, em ermo sítio,

Rude e saibroso como o frio leito

De passada torrente, onde bravejam

Das chuvas hibernais as águas turvas,

Parou Jesus, e disse aos companheiros:

— Ficai aqui, não caminheis mais longe,

Contrito, a sós comigo, ali na sombra

Quero elevar minha alma atribulada

Ao Padre Omnipotente, e vós, amigos,

Orai, orai também!... Sinto no peito

As angústias da morte e seus horrores! —

Nunca tanta tristeza revelara

A voz suave do divino Mestre!

As angústias da morte!... Por ventura

Podemos nós medir a dor imensa

Das angústias de um Deus? Nós, miseráveis,

Que o mais leve sofrer nos aniquila?

Porém, deixando os mudos companheiros

Embrenhou-se Jesus pelos silvados

Então cobertos de odorosas flores,

Chegando perto de uma lapa escura,

Lançou o manto às urzes, e prostrou-se

Cozido o rosto ao chão, áspero, seco,

Orando com fervor. Desde esse instante

O mistério sangrento começava.

VIII

Turva-se o Armamento, os frios euros

Silvam nos espinhais — Velai, amigos! —

A fronte de Jesus no duro solo,

É o céu que se abaixa, e atento escuta

A confissão do mundo! A terra treme,

E fende-se, talvez, ao sacro fogo

Do respirar de Cristo: a voz dos mortos,

Que as eras condensadas abafaram,

Dos negrumes do limbo se levanta,

E pede a Redenção, pede o Batismo!

Tu os batizarás, Senhor! Teu sangue

Os lavará das manchas do passado,

Eles que não te viram, nem ouviram,

E esperavam por Ti; — menos felizes,

Mais dignos do que nós, ingratas serpes!

Grande Deus!... um terror fundo e secreto

Se apodera de Cristo, ânsias atrozes

O coração lhe apertam! — Padre! Padre!

Clama com voz aflita e mal segura,

Oh! se te apraz, afasta-me dos lábios

Este medonho cálice!... Entretanto,

Não a minha vontade prevaleça,

Mas a tua Senhor! — E as mãos unidas,

Arrasados de pranto os belos olhos,

Soluçava, beijando a terra fria.

Erguendo-se depois, voltou-se a Pedro,

— Simão! tu dormes! Não pudeste ao menos

Um momento velar! Orar comigo!

Vela, e ora, que a força te não falte,

Que a tentação não entre no teu seio! —

E sentindo outra vez a dor acerba

Subir-lhe ao coração, pediu de novo

A seu eterno Pai que retirasse

O cálice das sevas agonias!

IX

Oh! do infinito amor alto prodígio!

Uma etérea frescura, um sopro ameno,

Doce e consolador, de auras celestes,

Roçou de manso as trêmulas folhagens,

Perpassou pela fronte suarenta

Do Filho de Maria — e mais suave,

Mais brando ainda, que as bafagens frescas

Das auroras do estio, que volteiam

Entre jasmins e rosas, distraindo

No tênue voo os leves beija-flores

Passou, volveu de novo, lento e manso,

Agitando-lhe os úmidos cabelos!

Jesus! eram as asas auri-brancas

Dos anjos de teu Pai, que visitavam

Teu sombrio retiro! Mensageiros

Que desciam do céu para servir-te,

E contigo sofrer, se assim quisesses!

Criaturas divinas! Se a desídia

Prendendo os companheiros sonolentos

Furtou-lhes a visão desse milagre,

Meu Deus! Meu Deus! eu sinto que minha alma

Guiada pela fé... — Triste vaidade!

X

Porém, corria o tempo; duas vezes

Já o Senhor chamara seus amigos,

E os míseros dormiam! Pouco e pouco

Se aproximava o instante pavoroso.

À medida que a areia se escoava

No relógio fatal, recrudesciam

As agonias dessa noite horrenda.

O íntimo lutar cansara o peito

Do Redentor do mundo, esmorecido

Inclinou a cabeça, com os belos anjos

De alvinitentes vestes, que o cercavam,

Amparavam-lhe o corpo. Um suor frio

Como o suor da morte, — copioso,

Como o do padecente que se estorce

Nas mais feias torturas, que inventaram

Sábios cogitadores de suplícios,

Correu-lhe pelos membros doloridos!

Os próprios imortais estremeceram

Cheios de dó profundo, vendo o sangue,

E as grossas gotas d'agua que manavam

Dos poros de seu Deus, e lhes tingiam

De purpura sombria as alvas plumas,

E que regava a terra, a terra ingrata,

Partilha de Satã, cujas misérias

Só reclamam eternos sacrifícios!

— Alma, sopro do céu! Clara centelha

Do espírito infinito da verdade!

Vives, e eterna viverás! Sê forte!

O caminho do bem é teu caminho,

Teu barco a Igreja, teu piloto o Cristo!

Levanta-te e não temas, se caíres

Ele te estenderá segura destra!

Se nada foras, não viera ao mundo,

Se nada foras, não sofrera os transes

Dessa noite cruel! Se nada foras,

Não assombrara o mundo e a imensidade

Com seu trágico exemplo o seu martírio!

XI

Era, porém, bem tarde. As torvas horas

Da negra provação tinham passado;

O mistério do Horto se cumprira,

E como o lavrador que os prados rega,

Onde deve lançar vivas sementes,

Jesus regara a terra; então, ergueu-se,

Dizendo aos sonolentos companheiros:

— Tudo está preparado! E, pois, agora

Podeis dormir em paz; mas, vos afirmo

Que não tarda o momento da vergonha!

O traidor anda perto, o Filho do Homem

Vai ser entregue aos Ímpios! — Vede, amigos! -

Dolorosa verdade! As largas folhas

Das viçosas solâneas refletiram,

Como em noites de fúnebres agouros,

Mil vacilantes fogos; os arbustos

Estalaram ao peso das passadas

De cautelosos, pérfidos magotes;

E assustados os tenros passarinhos

Por tão estranhos lumes, se arrancaram

Tomados de pavor dos ninhos quentes,

Sacudindo das frondes do arvoredo

Uma chuva de orvalho. A curto espaço

Assomavam por entre os leves ramos

As finas pontas das lustrosas lanças.

Compridas alabardas, longas varas,

E rubros fogaréus; depois... opróbrio!

A figura satânica de Judas

Apareceu à frente dos sequazes,

Dos inimigos pérfidos de Cristo!

Manso como um irmão, como um amigo,

Aproximou-se o monstro, as mãos impuras

Da vítima infeliz lançou aos ombros,

Beijou-lhe o branco rosto, e com voz firme

Disse, e afastou-se: — Deus te salve, Mestre:

— Judas! — exclama o Salvador, — não basta

Que me houvesses traído? E é por um beijo

É por um beijo que me entregas, ímpio! —

E voltando-se ao povo que o cercava:

Quem procurais? — Jesus o Nazareno,

Responde o chefe da sinistra escolta.

— Eu sou! — diz o Senhor. A malta infame

Recuou assombrada. Então, de novo

Interrogou Jesus com voz severa:

— Quem procurais aqui? — Jesus o Cristo,

Repete a multidão. — Sou eu, prendei-me,

Conheço vosso intento e vossos planos;

Livres, porém, deixai meus companheiros,

Que nenhum seduzi, nem fiz culpado! —

Calou-se o Redentor; mas, Simão Pedro,

Simão Pedro o singelo e franco amigo,

O lhano sócio, o dedicado servo,

As afrontas prevendo e os vis insultos

Que o Mestre ameaçavam, se enfurece,

Puxa da espada que trazia, e lesto,

Como a chispa sutil da pederneira,

Corta uma orelha a desgraçado assecla

Dos sanhudos tiranos. — Pedro, Pedro,

Exclama o Salvador triste e sentido,

— Cumpre esgotar o cálice de angústias

Que me ofertou meu Pai! Guarda essa espada,

Que o sangue me horroriza! — E a mão levando

Ao lugar da ferida, uniu a orelha,

E o servo ficou são qual dantes era.

Então, feroz tribuno e vil coorte,

Rudes e miseráveis quadrilheiros,

Bando voraz de pérfidos abutres,

Lançaram-se ao Senhor, — com duras cordas

Arrocharam-lhe os pulsos. Seus amigos

Tomados de terror se dispersaram....

XII

Silêncio, Musa! Um grito angustioso,

Um grito de suprema despedida,

Neste lugar da narração divina

Interrompeu a voz do missionário.

Os mancebos ergueram-se de um salto,

Os anciãos olharam-se aterrados.

Quem deste modo os corações abala?

Quem brada assim? Correi, homens das selvas,

Naída, a virgem dos sertões, expira!

— Oh minha filha! Oh minha pobre filha!...

Esta viva expressão da dor materna

Vibrou na alma do mestre, como o fogo

De elétrica centelha. — Quero vê-la!

Quero vê-la! onde está? — diz ansioso,

Volvendo à roda os lacrimosos olhos.

— Aqui! — aqui, senhor! — vinde depressa,

Responde a pobre mãe banhada em pranto.

Então, já piedoso sertanejo

Tinha acendido um resinoso facho,

E aclarava o terreno. O peito aflito,

Pálido o rosto, aproximou-se o padre

Do lugar onde a moça agonizava.

XIII

Sobre um leito de folhas de verbena

E agreste rosmaninho, triste e bela,

Como um anjo terrestre que adormece

Para acordar no céu; a fronte airosa

No materno regaço descansada,

A donzela esquecia-se da vida

Como o inocente colibri das matas,

Que em mole alburno de viçosa planta

Crava o leve biquinho, os olhos fecha,

Deixando em meio o lírico poema

Do risonho existir. Nunca tão puro

Seu gracioso rosto se mostrara!

Entretanto, a brancura de outra vida,

Esse triste — luar — que altera as formas,

E regela a expressão, dava-lhe o aspecto

De uma pálida estátua da piedade

Em pobre cemitério. Ao ver o mestre,

Um clarão de alegria e de esperança

Iluminou-lhe os olhos, belos olhos,

Onde o túrbido véu do passamento,

Como um fino sendal sobre alva imagem

Na penumbra de um templo solitário,

Começava a estender-se pouco a pouco.

Tentou falar.... a lívida doença

Lhe arrebatara a voz. Outro recurso

Para saudar o mestre inda restava:

Em vez de frases vãs e vãs palavras,

Um radiante, esplêndido sorriso

Reanimou-lhe os lábios descorados.

Junto da bela virgem do deserto

Ajoelhou-se o padre soluçando,

Tomou-lhe as magras mãos, porém já frias,

E tirando do peito a santa efígie,

A efígie de Jesus hirta e sangrenta,

Apresentou-a à mísera indiana.

Vendo prostrar-se o pio sacerdote

A multidão prostrou-se, livre o pranto

Correu dos olhos desses homens livres,

Que o maior dos suplícios não curvara!

Também nas selvas, nos sertões bravios,

Entre gentes boçais, tribos grosseiras,

Tem a virtude altares. A inocência

Quando sucumbe ao sopro da desgraça,

Também recebe lágrimas sentidas!

Nas matas virgens, nas cidades cultas,

Nas choças negras, nos salões dourados,

É uma a Natureza e sempre a mesma!

XIV

Como a sedosa flor dos verdes campos,

Que pendente da haste, em áureos fios,

Flutua ao bafejar das auras mansas,

Esperando o clarão do sol brilhante

Para deixar o plácido envoltório,

E voar pelo espaço em soltos flocos,

Ou, semelhante à nítida crisálida

Que a luz faz rebentar: a pura essência

Da mais pura das filhas das florestas

Parecia esperar o alvor da aurora

Para subir ao seio do infinito,

Como o perfume de um formoso lírio,

Como um eflúvio dos serenos prados,

Como a canção de um pássaro mimoso,

O voo de uma abelha, o alegre riso

De uma loira criança que desperta....

Raiou a madrugada. O santo mestre

Tomou a mão da cândida donzela,

A mão era gelada. A alma divina

Tinha voado aos pés do Onipotente!

 

CANTO IX

I

Rubro como um baixel incendiado

No proceloso mar, como a cratera

De inflamado vulcão na raia escura

De longínquo horizonte, ou como o vulto

De condenada esfera que declina

Para jamais surgir, o rei dos astros

Esconde-se nos términos do ocaso.

Antes, porém, que a noite, a vária deusa,

Mãe das áureas visões e dos remorsos,

Protetora do crime e da inocência,

Estendida sobre a terra o plúmbeo manto,

Reúnem-se os fiéis no eremitério,

Onde os chama o dever e a caridade.

Fecha o sábio pastor a santa Bíblia

Que atento folheava, os tristes olhos

Volve ao caminho alpestre. Um viageiro

Assoma na espessura das devesas.

Jadir!... Era o guerreiro do deserto,

Que ao deserto saudoso regressava.

— Jadir, o que fizeste? O que procuras?

Porque deixaste teus irmãos, teus chefes,

Teu santo pavilhão? — É certo, padre,

Responde ao pio mestre o audaz mancebo,

Sim, deixei tudo, que o destino ingrato

A fonte envenenou de meu futuro!

Que nem força e valor, crenças e brios

Me restam neste mundo, homem piedoso,

Homem da mansidão, cujas doutrinas

Minha alma iluminaram, não me acuses!

Escuta-me por Deus! No espaço ardente,

No torvelinho horrendo dos combates,

Uma voz magoada, triste, enferma,

Chegou a meus ouvidos: — Corre, amigo,

Minha vida se extingue como o fumo

Das choças do sertão, quando perpassara

Os ventos da manhã! — Sócio da infância,

Companheiro das lidas da floresta,

Aos longes arraiais levou-me as queixas

Da desditosa irmã. Deixei as armas,

Os perigos, o posto, o acampamento;

Voei como um tufão, como um pampeiro

Das regiões do sul!... Inda respira,

Inda respira a rola no deserto?

Dize, dize, que mata-me a incerteza! —

E calou-se Jadir. O mestre ilustre

Não respondeu, porém; ergueu-se mudo,

Travou do braço do infeliz converso,

E afastou-se da ermida lentamente.

No remanso de um vale ameno e fresco,

Perto de clara fonte, onde as acácias

Inclinavam-se trêmulas, beijando

As águas gemedoras, avultava

Uma grosseira cruz; o missionário

Parou, levou ao seio as mãos unidas;

Depois, mostrando o chão da sepultura

Disse abaixando a voz: — Ali, meu filho!...

Naída dorme ali! — Singela musa,

Musa da solidão, anjo dos ermos,

Que descoram as áridas vigílias!

Não procures lembrar a mágoa extrema

Do mísero Jadir! Há sofrimentos

Como os segredos da famosa esfinge,

Cumpre deixá-los no mistério envoltos!...

No terreiro, porém, da pobre ermida

Já crepitam as vívidas fogueiras,

Dardejando as vermelhas labaredas

No véu da noite escura, impetuosas,

Como os feios dragões de mil cabeças

Das legendas antigas. Triste e muda

A multidão aguarda o amado mestre.

Ei-lo, por fim, que chega, acompanhado

Do guerreiro infeliz. Lhano responde

Às saudações benévolas do povo;

Senta-se, e alçando a voz, distinta e clara,

Continua a sagrada narrativa:

— Da ceia do Senhor, tracei, meus filhos,

O memorando quadro; então, mostrei-vos

O príncipe dos céus humilde e manso

Lavando os pés aos frágeis pecadores;

Depois, vimo-lo à mesa repartindo

O maná verdadeiro, o pão dos anjos,

Com seus fiéis amigos, e mais tarde

Nos silvados aspérrimos do Horto

A morte prelibar, sentir nos membros

A fria exsudação d'água e de sangue

Porejar copiosa; enfim, vendido

Por Judas o traidor, o sevo monstro,

Preso e manietado, entregue à sanha

Dos rancorosos padres e juízes,

Embusteiros legais, nobres verdugos,

Ilustres carniceiros, revestidos

De púrpura e de arminho. — Prossigamos:

O horizonte se obumbra... desce a noite,

A noite mesta e lúgubre da história...

Um orvalho sangrento alaga os campos...

Dá-me forças, Senhor, que tenho medo!

II

Jerusalém dormia. Entre os palácios,

As riquezas dos príncipes romanos,

As pontifícias galas, e a penúria,

A vil degradação da ínfima plebe;

Entre os vastos salões, as lautas mesas,

Os belos camarins, os fofos leitos,

E os tugúrios fumosos, negros, frios,

Os farrapos nojentos, as lareiras

Apagadas, vazias; — ressonava

A geração de escravos e mendigos,

Em cujas veias circulava ainda

O sangue dos austeros patriarcas!

Jerusalém dormia. A raça impura,

Que outrora livre e farta no deserto,

Chorava pelo duro cativeiro

Das regiões do Egito, e suspirosa

Lembrava-se das ôlhas abundantes,

E das amplas dispensas e cozinhas

Do grande Faraó, — a raça estulta,

Talvez feliz, em sonhos, se julgasse,

Por partilhar os restos e as migalhas

Que sobravam da orgia dos tiranos!

Jerusalém dormia. A voz pausada

E rouca das latinas sentinelas

Nas muralhas de escura fortaleza,

O pio das corujas agoureiras

Nos velhos bastiões, os longes ecos

Dos nefandos festins, de quando em quando

O silêncio da noite interrompiam.

Mas, nas habitações dos sacerdotes,

Nos paços dos pontífices vaidosos,

Estranho movimento anunciava

Importante sucesso. As portas francas,

Os pátios e saguões iluminados,

Guardas dobradas, confusão de servos,

Tudo, enfim, revelava que essa noite

Era não de prazeres e folguedos,

Mas de urgentes questões, graves negócios.

III

Que sinistro clarão expele as sombras

Das ruas tortuosas, mal calçadas,

E alumia os grosseiros edifícios

Da cidade vetusta? Que luzeiros

Agitam-se nas trevas, numerosos,

Como as chamas fugazes que tremulam

Nos campos de batalha, às horas mortas,

Quando o gélido orvalho se pendura

Das tendas dos guerreiros? Que rumores,

Que vociferações ímpias e feras,

Turbam a quietação das ermas praças,

Derramando o pavor pelas moradas

Do miserando povo? — O que procuram

Esses vultos incertos, macilentos,

Armados de bastões e de alabardas?

Onde vão esses rudes quadrilheiros,

Cujas lanças delgadas e lustrosas

Relampejam nas trevas? — Bravo e forte,

Nos horrores do crime endurecido

Deve de ser o malfeitor que arrastam

Aos tribunais supremos. — Cautelosos,

Convém cercar o monstro, que não fuja,

Zeladores sublimes da justiça!...

Oh! divino Jesus! Manso cordeiro!

Gênio da caridade e da doçura!

Luminar da inocência!... És tu que passas

Qual um facinoroso das montanhas,

Acusado de atrozes morticínios!

És tu, que triste e pálido caminhas,

Como um feroz jaguar das cordilheiras,

Que os homens do sertão levam cativo

Ás aldeias remotas! — Salve, Cristo!

Teu reinado começa neste mundo!

IV

Emblema da ternura lutuosa,

Da beleza entre lágrimas, desmaia

No plúmbeo céu a lua decrescente.

Jerusalém acorda. Abrem-se as portas,

Pulam os curiosos faladores

Dos aquecidos leitos, gira o povo

E ajunta-se nas ruas e nas praças,

Onde sempre versátil, sempre vário,

Contos inventa, vaticínios forma,

E apesar do vigor com que assevera

Tão contrários juízos, enleado

Pergunta o que há de novo?... — Pobres turba

Que tomam por verdade a própria sombra!

Mas, um sudário de úmidos vapores

Cobre a cidade ilustre e desditosa,

Geme o vento nos grossos balaústres

Das erguidas soteias; vacilante,

Como infeliz marítimo que as ondas

Jogam sobre os agudos arrecifes

De tenebroso golfo, às horas mortas,

Depois das ânsias de fatal naufrágio,

Ao palácio de Anás, grande entre os padres,

E sogro do pontífice, arquejando

O Salvador chegou. Dúbio sorriso

Aos lábios assomou do hebreu tigrino:

Ele aguardava, impaciente, a presa,

E a presa sob as garras lhe caíra!

Tardava o sacrifício! — Que preceitos,

Pregas às multidões? — Quais teus princípios?

Quais as crenças que tens? — Nas sinagogas,

Nas praças e no templo, à luz do dia,

Minha voz elevei, lhe diz o Cristo,

Não me envolvi nas sombras do mistério,

Não procurei recintos escondidos,

Nem câmaras secretas, — interroga,

Se desejas saber, aos que me ouviram,

E terás a verdade de seus lábios. —

Nesse momento, a mão de um quadrilheiro,

A mão dura e calosa, e mais pesada

Que a pata do tapir, feriu cruenta

O rosto suavíssimo de Cristo,

Deixando impressa a nódoa purpurina

Da dor e da vergonha! — Inclina a fronte,

E respeita ao pontífice! — acrescenta

Dos vis senhores o mais vil cativo.

— Se mal fatiei, responde o augusto Mestre,

Se mal falei, convence-me do erro,

Mas, se disse a verdade, o que te move

A ultrajares-me assim? Porque me feres? —

Anás, porém, folgava intimamente,

Dirigiu-se a Jesus com gesto altivo,

E depois de mil pérfidas propostas,

Depois de mil questões insidiosas,

Enviou a Caifás o Herói divino,

Então coberto de baldões e injúrias,

Impelido e espancado como a fera

Que arrancam do covil os caçadores,

Aflito o seio, descorado o rosto.

Do palácio de Anás desceu o Mestre.

Longe, dois vultos, cautelosos, mudos,

Pelas espessas trevas se esgueiravam:

Um era Pedro, o galileu singelo,

O outro compassivo israelita,

Pobre e simples mancebo, iniciado

Da nova lei nas lúcidas doutrinas.

Viram-no os quadrilheiros e afanosos

Procuraram prendê-lo; mas, ligeiro,

Veloz como um veado perseguido,

O moço que trazia sobre o corpo

Miseráveis andrajos, esquivou-se,

E os deixando entre as garras dos protervos

Afastou-se a correr, nu, pelas ruas.

Pedro, porém, tardio e vagaroso,

Foi seguindo o Senhor, o povo, a guarda,

Até o paço de Caifás. Brilhantes

E nutridas fogueiras estalavam

Aclarando o espaçoso e belo pátio;

Grande cópia de fâmulos e servos,

Sobre largos taburnos se aqueciam,

Conversando ao redor do vivo lume.

Pedro se aproximou; naquele instante

Uma escrava da Núbia, esbelta e forte,

De bronzeado rosto e negros olhos,

Descia prazenteira a longa escada;

O velho pescador pediu-lhe humilde

Um lugar entre os outros; satisfeito,

Entrou e se assentou sobre uma pedra,

Retirado dos grupos suspeitosos.

V

No palácio do sumo sacerdote,

No formoso salão de alvas colunas,

Onde os graves negócios se decidem

Concernentes à lei, plácido e belo

Como o sereno, cândido luzeiro

Que precede a alvorada, entre os negrumes

Precursores fatais da tempestade,

Apareceu Jesus; firme e seguro,

Radiante de graça e de inocência,

Caminhou para o estrado, onde orgulhoso,

À sombra de um dossel de rubra seda,

Em dourada cadeira pontifícia,

Descansava Caifás. Fundo silêncio

Reinava no sacrílego auditório.

Caso intrincado, sério e não previsto

Apresentou-se então ao pensamento

Do príncipe cruel. Só competia

Ao governo de Roma e seus prepostos

Dar sentenças de morte: a lei expressa

Não deixava lugar a falso arbítrio.

Que julgar? Que fazer? Forjar um crime,

Revesti-lo de horrendas circunstâncias,

O imputar ao Senhor! — Cem testemunhas,

Malvadas umas, cobiçosas outras,

Em auxilio dos ímpios acudiram.

Mas, os pios varões, retos juízes,

Pontífices ilustres, que buscavam

O justo condenar, — brandos agora,

Por demais complacentes, despediam,

Depois de convencidos da calunia,

Profanadores vis, monstros perjuros,

Que zombavam de Deus e da justiça!

Oh! cegueira da inveja! Oh mal sem cura!

Entretanto, dois sábios publicanos,

Dois consócios de Judas, o precito,

Dirigiram-se ao sumo sacerdote:

— Nós o ouvimos, Senhor, junto do templo

Deste modo fatiar: — Tenho poderes

Para arrasar o templo, se o quisesse,

E depois em três dias, mais seguro

Levanta-lo outra vez! — Nestas palavras,

Era a ressurreição que anunciava

O Redentor do mundo; era seu corpo

O templo que das sombras mortuárias

Feliz ressurgiria! — A feia intriga

Silvava à sombra da verdade santa!

— Então disse Caifás: — o que respondes?

Tu bem vês que te acusam. — Mas o Cristo

Sacudiu a cabeça tristemente,

Encarou, suspirando os delatores,

E conservou-se mudo. Urgia o tempo,

Convinha abreviar o atroz processo,

Achar um vão pretexto, um qualquer meio,

De consumar o infausto sacrifício.

Retirou-se Caifás. Desprotegido

Ficou Jesus, sozinho exposto à sanha

Do vulgacho grosseiro, e às zombarias

Dos depravados, ímpios quadrilheiros.

VI

O fulgido clarão da estrela d'Alva

Derrama-se no espaço, a rósea aurora

Pouco a pouco adelgaça o véu cinéreo

Que flutua nas portas do Oriente;

Áureos, fulvos listões, faixas purpúreas,

Brancas, argênteas franjas, atravessam

As regiões festivas, onde assoma

Cada dia mais forte em seus domínios

O rei das estações. No grande pátio

Da casa de Caifás, sempre tristonho,

Meditabundo sempre, Simão Pedro

Vela perto do fogo; os ociosos

Continuam as práticas estultas,

Os soldados estiram-se rosnando

Sobre as lajes do chão; mas, uma escrava

Que desce nesse instante ao peristilo,

Para, surpresa, atenta considera

O pobre pescador: — Bem o conheço,

Diz a vil criatura a seus parceiros,

É este um dos amigos, e o mais velho

Do mestre nazareno: — Oh! tal não digas!

Exclama o Galileu amedrontado,

Nunca lhe ouvi a voz, nem vi-lhe o rosto! —

Porém, Malco aí estava, o servo Malco,

A quem Pedro ferira. — Que! tu negas?

Pois não eras no Horto? Não te lembras

Que me cortaste a orelha? — açode o ímpio.

— Estranhas cousas, lhe responde Pedro,

Falsas proposições dizes, amigo;

Nada sei do que falas, nem do Mestre

Que os sacerdotes julgam! — Como treme

O pescador astuto! Companheiros,

Informa um dos criados, muitas vezes

Entrei no seu batei, estou bem certo;

Depois não mais o vi; por fim, nos campos,

E nas praças o achei unido aos sócios

Do filho de José. — Não é verdade!

Exclama Simão Pedro! — Então, prodígio!

A poucos passos, num sombrio canto

Dos aposentos térreos do palácio,

Bateu o galo fortemente as asas

E a voz soltou vibrante e prolongada.

Simão estremeceu, — volveu os olhos

Para as altas janelas, e entre as grades

Viu, ao frouxo clarão da triste aurora,

A figura serena e graciosa

De seu divino Mestre. A consciência,

Abalada e ferida fundamente,

Despertou as cansadas faculdades

Do singelo discípulo; os remorsos

Acerbos e pungentes, a vergonha

De uma fraqueza quase que perfídia,

A lembrança da culpa, o horror da pena,

Como agudos punhais dilaceraram

O coração do mísero: os soluços

Embargaram-lhe a voz, e quentes lágrimas,

Lágrimas puras de alma arrependida,

Orvalharam-lhe o rosto e as barbas brancas.

VII

Amanhecera. Os pérfidos doutores,

Os anciãos do povo, os sacerdotes,

Em conselho secreto reunidos,

Decidiram levar o santo Mestre

Ao Romano Pretório. Era Pilatos

Então governador, homem sem crenças,

Grande apenas no luxo e na vaidade.

No formoso vestíbulo, adornado,

De marmóreas pilastras, sobranceiro

Os recebeu o príncipe latino,

Que aos filhos de Abraão a Lei proíbe

Dos recintos pagãos entrar no grêmio.

— De que delito é réu este mancebo?

Quem de vós o acusa, e quais as provas-

Do crime cometido? — Assim pergunta

Pilatos aos pontífices nefários.

Então Caifás responde: — Defensores

Somos da Lei, — das tradições mosaicas,

Dos foros nacionais: se delinquente

Não fora o que trazemos ao Pretório,

Porque te buscaríamos? — Doloso,

Pregador de sacrílegas doutrinas,

Usurpador de títulos sagrados,

É este que tu vês! Mas o Romano

Sorriu-se e respondeu: — Pois bem, julgai-o

Pelo vosso direito e usos antigos.

— Não, atalhou Caifás, a lei condena

Os castigos de sangue! — Então Pilatos

Voltou-se para o Mestre Nazareno,

Inquiriu cauteloso os pormenores

De seu viver passado, a norma, essência,

Das sublimes lições, e o fundamento

Da feia acusação dos sacerdotes;

Satisfeito, por fim, ergueu-se e disse:

— Anciãos da Judeia, em vão procuro

Surpreender a culpa a mais ligeira

Neste infeliz mancebo; sou Romano,

Vossos velhos costumes desconheço:

Fazei o que entenderdes, entretanto,

Pensai antes de obrar: — tenho o direito,

Usando de um antigo privilégio,

De soltar neste dia um criminoso;

Ora, pois, atendei: — nos calabouços

Dos cárceres romanos, está preso

O cruel Barrabás, ousado monstro.

Cuja fama horroriza e assombra os campos,

E — aqui — tendes Jesus, o pobre mestre,

Filho de inofensivo carpinteiro.

A qual dos dois darei a liberdade?

— A Barrabás! a Barrabás! exclamam

Os doutores, pontífices e escribas.

— A Barrabás! responde o ingrato povo,

Acompanhando os bárbaros algozes!

VIII

Não longe do Pretório, iluminada

Pelos flavos clarões do sol nascente,

Aparecia a casa de Pilatos,

Alva, risonha, erguida entre ciprestes,

Coberta de cimalhas caprichosas,

Frisos sutis, colunas de alabastro,

E arejadas soteias. Tão festiva

Dir-se-ia a visão de alto castelo

Pelos gênios da aurora edificado

Nas regiões longínquas do Oriente,

Onde termina o mar e o céu começa.

Os mansos passarinhos gorjeavam

À sombra dos vergéis, as auras frescas

Soerguiam as trêmulas cortinas

Do belo camarim, onde entre flores,

Mimosa flor também, sobre almofadas

Lânguida descansava a linda esposa

Do opulento pagão. Seus pensamentos

Tristes deviam ser, que os rubros lábios

Cerrava convulsando, e dentre os cílios

Negros, como a penugem luzidia

Das escuras abelhas da floresta,

Rebentavam as lágrimas sentidas.

Filha airosa da Itália sonhadora!

Rola saudosa das alegres veigas

Dos campos de Lavínia! Que pesares

Ferem-te o coração? Mas, de repente,

Um profundo gemido angustioso,

Os seios lhe agitou; a nobre dama

Levantou-se de um salto, branca e fria,

Como a estátua de mármore pousada

Em brônzeo pedestal junto da porta;

Correu para a janela, as trancas soltas,

O olhar afogueado. Então, ruidosa

Bramia a onda popular na praça,

Mil vozes discordantes repetiam:

— Desatai Barrabás! Deixai-o livre! —

Compreendeu a esposa de Pilatos

A sinistra questão. Chamou um pajem,

E mandou ao Pretório a toda a pressa.

— Vai, dize a teu Senhor, ampara o justo,

Que revelou-me um sonho pavoroso

A pureza divina de seus atos,

Das intenções celestes a inocência,

A gloriosa origem de seu gênio! —

O servo obedeceu. Nesse momento

Uma nuvem trevosa e carregada

Cobriu a luz do sol, — rijo nordeste

No ledo camarim entrou silvando,

Tremeu o pavimento, e as belas flores

Que pendiam das jarras primorosas

Caíram desfolhados no tapete...

IX

Era tarde!... Do ergástulo sombrio,

Onde os castigos corporais se cumprem,

Circundado de guardas e verdugos,

Jesus descia então a larga escada.

No centro da prisão, na sala negra,

Coberta de instrumentos de suplício,

Alastrada de algemas e correntes,

Rotos grilhões, ensanguentadas cordas,

Os algozes pararam. — Tu soluças?

Tu escondes o rosto, ingênua musa?

Oh! continua e chora! — Então, vergou-se

O corpo do Senhor ao férreo peso

Das garras dos brutais executores;

Caiu-lhe a pobre túnica, em pedaços,

Nos doloridos pés! Depois... os golpes

De amiudados, rábidos açoites,

Ecoaram nos fundos calabouços!

Era o primeiro quadro do martírio!...

Os bárbaros cansaram. Necessário

Era que ao sangue se ajuntasse o escárnio.

Assim fora predito. Então puseram

Sobre a cabeça do Divino Mestre

A coroa da glória e do infortúnio,

Um tecido de espinhos lacerantes!

Entre as mãos uma cana verdoenga

Colhida nos pauis, e sobre as chagas,

Sobre as vivas feridas, que as vergastas

E os látegos abriram, — miseráveis!

Sórdido manto de grosseira crina!

— Salve! Rei dos Judeus! — gritavam rindo!

E lançavam-lhe ao rosto o iracundo escarro

Do ódio e do desprezo, e lhe atiravam

Sobre a sangrenta fronte descabida

O Iodo da prisão e as imundices!

X

Outra vez no Pretório entrou cercado,

Depois de injúrias tantas e flagícios,

Lividamente belo, o Deus cativo.

— Inda sustentas, — perguntou Pilatos,

Que és o Rei dos Judeus? — Tu o disseste! —

Responde o Salvador, firme, e sereno.

Ora, o governador que recebera

O triste aviso da querida esposa,

Se esforçava em buscar propícios meios

De salvar o Senhor. Ao pensamento

Acudiu-lhe um arbítrio: era oriundo

Jesus da Galileia; essa província

Ao domínio de Herodes pertencia,

E pois mandou Jesus ao grande Herodes,

Que o ouvisse e que julgasse. — Curioso

O rei o recebeu, — extensas horas,

Atento o interrogou em seu palácio.

E ordenando, por fim, que lhe vestissem

Uma túnica branca, o despediu.

Nem mesmo Herodes o julgou culpado!

Então, o Salvador voltou de novo

Ao sinistro Pretório. O sol brilhava

Dourando os altos cerros do Oriente;

Pilatos reuniu logo os doutores,

Os anciãos do povo, os sacerdotes,

E estas palavras disse memoráveis:

— Vós acusais o Mestre Nazareno

De fazer sedições, turvar do povo

O íntimo sossego, a consciência,

E violar da Lei os sãos preceitos;

Ora, o interroguei de mil maneiras,

E não lhe achei o mínimo delito.

Inquiri testemunhas, que mentiram

De um modo vergonhoso. — Duvidando

Da clareza e valor de meus juízos,

À decisão de Herodes sujeitei-me,

E eis Herodes me envia o desgraçado,

Que declara inocente! — Conseguistes

Do feroz Barrabás o livramento:

O que farei de Cristo? — Crucifica-o!

Respondem prontamente os sacerdotes.

— Crucifica-o! — vozeia o povo ignaro,

Apinhado no pátio e nas calçadas.

Então Pôncio Pilatos levantou-se,

Pediu um vaso d'agua, e lento e mudo,

Pôs-se a lavar as mãos; depois, volvendo

Severo olhar aos padres que o cercavam:

— Sou inocente deste puro sangue

Que se vai derramar, não tenho parte

No martírio do justo; eu vo-lo entrego. —

Disse, e afastou-se triste do Pretório.

— Reverta sobre nós e nossos filhos

O sangue que a lei pede, e persistente

Procuraste poupar! — responde o povo.

A missão de Pilatos era finda.

XI

Musa Cristã! Desprende lacrimosa

Sobre o cotio de neve as tranças de ouro!

Arroja de teu seio as rosas brancas

E as lindas amarílis das campinas,

Que os amores colheram! Cinge a fronte

De folhas de cipreste e roxos goivos;

Deixa o leve brial, envolve o corpo

Em funerário crepe, e solitária

Debruça-te nas fragas do deserto!

Chora, e lembra as angústias assombrosas

Da morte do Senhor... Ah! se puderas,

Se puderas voar, transpor os mares,

Atravessar o Líbano e as montanhas

Rochosas de Ascalon; pousar no cimo

Do Calvário sagrado, e compungida

Beijar o duro solo, onde caíram

As lágrimas do Mestre!... Se puderas

Um raminho apanhar das tristes plantas,

Que o sangue fecundou do Deus aflito,

Do Deus agonizante!... Oh! toma a lira,

Canta como o pastor, que a natureza

Afina a voz singela! Como o nauta,

Que as saudades da pátria o estro acordam!

Como o servo que aspira a liberdade!

Como o formoso pássaro das selvas

Que não sabe porque, mas canta, e canta,

E canta até que a morte a voz lhe roube!

XII

A coorte formou-se aparatosa,

Meneando insolente os finos gládios,

À roda do Senhor; os quadrilheiros

Sacudiram as longas alabardas,

Risonhos, como bravos combatentes

Que próxima batalha incita e move;

A multidão mendaz, grosseira e falsa,

Apertava-se, ria-se ou praguejava

Como em circo de feras! — Negra e rota

Era de Cristo a túnica mesquinha.

— Não deste modo um grande rei se traja!

Disse um cabo da guarda motejando;

— Venha depressa um manto precioso! —

O manto apareceu; o vil soldado

Lançou sobre Jesus as mãos profanas,

E a túnica rasgou-lhe. Então surpresos

Recuaram os bárbaros: os ombros,

Os braços do Senhor estavam roxos,

Entumecidos, ásperos, cobertos

De coagulado sangue e grossas bolhas!

— Cobre-te, — diz o esquálido soldado

Nas costas lhe estendendo o rubro manto,

— Sábio Rei dos Judeus, — estás medonho!

XIII

Porém, ao lado oposto do Pretório,

No baixo alpendre de uma casa escura,

Lavra trigueiro e feio Israelita

Um pesado madeiro. Nos degraus

De antiga e larga escada, enegrecida

Pelas chuvas do inverno, se debruçam

Duas formosas, pálidas crianças.

— Basta de trabalhar! — diz a mais moça,

— Vem descansar, meu pai. — É cedo ainda, —

Responde o carpinteiro, — agora mesmo

Devo entregar aos anciãos do povo

Esta pesada cruz, e eles não tardam:

— Pois isto é uma cruz? — pergunta a medo

A mais crescida das gentis meninas,

— Que vão fazer da cruz? — Não sabes, louca?

Murmura o torvo hebreu com dúbio riso,

— Na cruz pregam-se os maus, os criminosos,

Os que afrontam a lei. — Assim falando,

Limpa tranquilo o pó do horrendo lenho,

Já bem seguro e forte. — Oh! Deus Eterno!

Exclama a pobre filha, — e por ventura

Vai alguém padecer? — Pois não conheces

O Mestre Nazareno? — O Cristo! O Cristo!

Gritam os lindos anjos do operário.

E Jesus, repelido pelos homens,

Teve as sagradas lágrimas da infância,

A oblação da inocência. — Bem me lembro,

Diz a primeira irmã, sobre a montanha,

Onde ao sol posto descansava sempre,

Um dia me pousou sobre os joelhos,

Deu-me um beijo no rosto. Nesse dia

Ele falou ao povo, me apontando:

— Deixai vir, deixai vir as criancinhas! —

E vai morrer o Cristo! — Então de perto

Um confuso rumor, tropel confuso,

Passos precipitados, altos gritos,

Ameaças cruéis, feias injúrias,

Se fizeram ouvir ao mesmo tempo;

Depois, em uma voz ligou-se tudo:

— A cruz! A cruz! — a multidão bradava.

— Pronta está, respondeu o carpinteiro.

O Salvador chegava acompanhado

Da populaça infrene. — Grão Profeta,

Belo Rei dos Judeus, — preclaro Mestre,

Brada o chefe cruel dos quadrilheiros,

— O teu cetro ali está, somos teus servos,

Toma aos ombros a cruz e nos dirige! —

— Ao Calvário! ao Calvário! ruge o povo.

Então, a turba iníqua e depravada,

Vomitando doestos e impropérios,

Pousou, raivosa, nas espáduas santas,

O madeiro fatal. O grande mártir

Sentiu a luz fugir-lhe, e um suor frio

Correr da fronte lívida e sangrenta,

Vacilou um instante: assim nos ermos

Dobra-se e geme o delicado arbusto,

Quando de árvore antiga um velho galho

Verga e lhe oprime os ramos florescentes;

Assim nas solidões se inclina o cervo,

Quando de funda gruta a pedra solta

Rola, e o dorso lhe curva macerado.

— Ao Calvário! vozeia a rude plebe.

— Ao Calvário! — repete a infame guarda,

E o caminho seguiram do Calvário.

Quando, porém, molesto e vagaroso

Deixava Cristo as portas da cidade,

Judas entrava no Pretório. — Padres!

Anciãos, sacerdotes, que votastes

Minha alma ao fogo eterno da Geena!

Pequei, vendendo o sangue do inocente. —

Disse, elevando a voz áspera e rouca.

— Eis aqui o dinheiro da perfídia,

O preço da traição! Queima-me os dedos

Estas fatais moedas! — Chegas tarde, —

Respondem-lhe os sevos carniceiros,

— Bem devias saber o que fizeste.

Judas não replicou: sobre os ladrilhos

As moedas lançou, que retinindo

Aos pés caíram dos perversos padres.

Pouco tempo depois, no monte, ao longe,

Dos grossos galhos de isolado roble,

Pendia o corpo do judeu maldito,

Horrendo o rosto, esbugalhados olhos,

Saída a língua remordida e negra

Da pavorosa boca! — Erro nefasto!

Expiação do crime pelo crime!

Reparação do mal no desespero!

XIV

Jesus, porém, curvado ao peso enorme

Do tremendo madeiro, imenso peso,

Que era o peso das culpas e delitos

Das gerações perversas que passaram,

Que era o peso do mundo, tardo e lento

Trilhava a longa estrada do Calvário.

As lágrimas corriam copiosas

Pelas faces dos pobres; tantas vezes

Lhes tinha Cristo aliviado as mágoas,

E saciado a fome! Tantas horas

De fundas aflições, de dores cruas,

Como o gênio da paz e da esperança,

Ele havia levado a luz e a calma,

O júbilo e o sossego a seus tugúrios!

Como os amava o Mestre! As criancinhas

Gritavam, soluçando, dos alpendres

Das casas do caminho. — Oh! Santo amigo!

Que sangue é este que te molha o rosto?

Onde essa gente bárbara te arrasta?

Descalças as mulheres, desgrenhadas,

O seio descoberto, os olhos rubros

Do contínuo carpir, atordoavam

Os ares de gemidos. Compassivo

Lhes disse o Redentor com voz pausada:

— Oh! de Jerusalém pálidas filhas!

Não pranteies por mim, que aos paços volvo

De meu divino Pai, mas por vós mesmas

E vossa descendência! Um tempo infausto

Virá em que dirão da terra os povos:

— Venturosa a mulher, cujas entranhas

Fere a esterilidade. Venturosa

Aquela, a cujos peitos infecundos

Ninguém se alimentou! Nesse momento,

Jesus atravessava um passo estreito

Perto de fundo algar, parou sem forças,

Deu um grito de dor, tentou suster-se,

Porém caiu exausto; agudo espinho

Um dos pés doloridos lacrava.

— Levanta-te! bradou soez verdugo,

E brandindo uma vara que trazia

Rijamente o feriu. O Santo Mestre

Três vezes se moveu no estreito espaço,

E três vezes cedendo à dor pungente

Voltou ao duro chão, trêmulo e frio.

— Quem lhe quer dar a mão? — Pergunta o chefe

Da guarda desumana, — o fardo é grande,

O Calvário está longe. — Adiantou-se

Da multidão silente um homem forte,

De espáduas largas, vigoroso colo,

E tisnadas feições; era seu nome

Simão o Cireneu, — calado e sério

Ergueu Cristo pelos frouxos braços,

Pôs-lhe a cruz sobre os ombros contundidos,

E ajudou-o a subir a pétrea senda.

Então dos verdes campos do Ocidente,

Por extensa vereda tortuosa,

Chegavam dois humildes caminheiros;

Vinha na frente um camponês robusto

De franco e nobre aspecto; e não distante,

Poucos passos atrás, mulher singela,

Esbelta, porém triste e descorada

Como saudosa e pálida princesa,

Que pisa aflita as regiões do exílio.

Perto da negra estrada do Calvário

Pararam suspirando. — Estava escrito!

Nesse tempo outra vez caíra o Mártir

Debaixo do madeiro, e a fera guarda

Dizia-lhe cruentos impropérios.

A formosa mulher ergueu os olhos,

Fitou o Salvador, e um grito agudo,

Sinistro como o grito da demência,

Escapou de seus lábios contraídos:

— Meu Filho! — Os duros corações tigrinos

Se abalaram dos Ímpios carniceiros,

Jesus se levantou. Seu belo rosto

Sublime se fizera no martírio.

Pela primeira vez a Virgem Santa

Viu cruzarem-se os fogos do Infinito,

Os supremos clarões da Eternidade

Nas pupilas do justo preeleito!

Os pobres, consternados, exclamaram:

— Esmagai-nos, montanhas escarpadas!

Outeiros pedregosos, escondei-nos!

Quando sucede assim ao lenho verde,

Que destino terá o lenho seco?

XV

Sólio de santo horror, de santa glória!

Pira da Redenção! Altar do mundo!

Calvário soberano! — Quão medonha

Então a luz do sol dourava as balsas

De teu cimo deserto! Quão tardios

Ramalhavam os ventos na espessura

De teus velhos sarçais! — Quão maviosos

Pelas sombras dos álamos carpiam

Os pássaros amigos do silêncio!...

Chegara enfim o séquito de algozes

E a vítima celeste ao termo infausto

Da jornada ominosa. O grande Mestre

Prostrou-se sobre a relva amarelenta,

Nas mãos entorpecidas ocultando

O rosto afogueado, e os tristes olhos

Arrasados de lágrimas ardentes.

Os anjos imortais estremeceram

Junto do trono eterno, e as frontes puras

Inclinaram chorosos. As estrelas

Afrontaram no céu a luz do dia,

O sol abrasador, no espaço imenso,

Um momento parou... e esse momento

Era um evo de dores assombrosas!

— Pobre Rei dos Judeus! — disse um soldado

Contemplando o Senhor com ímpio gesto.

— Vamos te dar um vinho generoso,

Um suave elixir, grato aos sentidos,

Propício ao coração. — Assim dizendo,

Apresenta a Jesus um brônzeo vaso

Cheio de denso líquido, composto

De esverdeado fel, grumosa mirra,

E turvo, acerbo vinho. — Toma e bebe,

Faze ao mundo o teu brinde derradeiro!

Jesus tomou a taça, o justo emblema

Das provações amargas da existência,

Ergueu-a tristemente aos roxos lábios,

E sentindo o licor viscoso e acre,

Longe arrojou-a sobre as duras pedras.

— Companheiros, à obra! — Altivo ordena

O torvo chefe da tartárea turma...

Pulam movidos de secreto fogo

Os levitas da morte, — Cristo assaltam,

Cospem-lhe ao rosto, rasgam-lhe os vestidos,

Arrastam-no sem dó pelos espinhos,

E o deitam sobre a cruz. Torcem cruentos

Do mártir suspiroso os frágeis braços,

E os pés dilacerados; prendem, cerram,

Fazendo entumecer do colo as veias,

A cabeça divina ao vil madeiro!...

Tenebroso painel! Quadro do inferno!

Cena de execração! — Nas férreas garras

Dos escravos da inveja e da mentira,

Volteia horrendo o rápido martelo

Com sinistro fragor, e afunda os cravos

Nos pés e mãos do Filho de Deus Vivo!...

A terra se deprime, o lenho estala,

Rúbidas gotas de fervente sangue

Borbulham das feridas hediondas,

E deslizam em fios purpurinos

Molhando a cruz e a relva da montanha.

Depois, ímpios verdugos, sobre a fronte

Do augusto condenado afixam rindo

Como um sarcasmo atroz este letreiro:

— Jesus de Nazaré Rei dos Judeus. —

Concluídos os lúgubres trabalhos

Erguem a cruz sagrada, e sobre um fosso

Hasteiam-na, de pedras rodeada.

— Se és filho de Deus, vem ter conosco,

Desce de teu madeiro e então creremos

Nas escuras doutrinas que pregaste. —

Assim falam, zombando e escarnecendo,

Feros soldados, fariseus impuros,

Míseros servos dos tiranos padres.

Não bastava o suplício acompanhado

De humilhações cruéis, o torvo gênio

Dos doutores da lei, dos sacerdotes,

Queria a execração além do sangue,

Tinha sede de opróbrio. Alguns momentos

Depois do pavoroso sacrifício,

Mais duas cruzes negras avultavam

Aos lados do Senhor, e dois perversos,

Dois audazes ladrões daquelas terras,

Nelas se retorciam convulsando.

Sublime lei do exemplo! Os magistrados

Não queriam perder tão grato ensejo

De servir a justiça e a humanidade!

— Se és o Filho de Deus, porque padeces?

Perguntou a Jesus um dos bandidos,

— Salva-te, pois, e salva-nos, se podes!

— Nem nas provas cruentas do suplício

Respeitas o Senhor! — açode o outro.

De nossas grandes culpas recebemos

A justa punição; porém, o Cristo

Que falta cometeu? Depois, fitando

Tristemente o Senhor, disse piedoso:

— Oh! lembra-te de mim, quando subires

Ao teu celeste e glorioso Reino!

E Jesus respondeu-lhe: — Não te aflijas,

Afirmo-te, entre as sombras do martírio

Que hoje entrarás também no Paraíso!

XVI

Reclinados, porém, no chão relvoso

Divertiam-se os bárbaros soldados

Entoando canções abomináveis,

E sobre a velha túnica de Cristo

Jogando incertos dados. O mistério

Divino se cumpria. Já três vezes

A sede abrasadora, que acompanha

O suplício da cruz, amargas queixas

Arrancara ao Senhor; mas, os verdugos

Atando à longa vara grossa esponja,

Embebida de fel e de vinagre,

Aos lábios incendidos lhe aplicavam.

Era atroz o martírio. A hora sexta,

Uma celeste luz brilhou nos olhos

Do Redentor do mundo, últimos raios

Do sol na linha extrema do Ocidente;

Convulsivo tremor correu-lhe as fibras,

Uma nuvem pesada e lutulenta

Estendeu-se no céu. À hora nona,

Lançou Cristo um brado angustioso:

— Meu Deus! meu Deus! porque me abandonaste?

Inclinou a cabeça ao frio peito,

Cerrou as roxas pálpebras cansadas,

Deixou de respirar. O santo corpo

Da negra cruz pendia macilento

No sombrio Calvário, — a alma divina

Entrava triunfante e gloriosa

De seu eterno Pai no excelso Império.

XVII

A morte horrenda e trágica de Cristo,

Do Deus, Filho de Deus, assombra o mundo,

Cobre de luto o Firmamento e os mares,

Abala o próprio inferno! O Véu do templo

Rasga-se de alto a baixo, como a névoa

Que o relâmpago etéreo despedaça;

Tinge-se o céu de negro, o sol medroso

Lança um último raio sobre os montes

E mergulha-se frio e descorado

No oceano de trevas, que dominam

A vastidão do espaço. A terra treme,

E solta das entranhas requeimadas

Denso vapor e rubras labaredas.

Secam os rios, partem-se os rochedos,

Abrem-se as sepulturas dos profetas,

E as jazidas dos santos que ressurgem,

E erram chorando pelas ermas praças!...

À tarde um rico e nobre israelita,

José de Arimateia, estrênuo guarda

Da novíssima Lei, sobe ao Calvário,

Manda descer por ordem de Pilatos

O triste corpo do divino Mestre,

Leva-o piedoso à casa onde reside,

Banha-lhe as chagas negras, embalsama-o

Com preciosas, grátulas essências;

Depois o envolve em faixas de alvo linho,

E o deposita com sagrado zelo

No túmulo dos seus, grande jazida

No seio escuro de profunda gruta;

Resguarda a entrada com pesada lousa

E aos lares volta satisfeito e calmo.

Entretanto, a formosa Madalena,

Maria, a meiga esposa de Cleofas,

E outras pias mulheres, largo tempo

Ficaram pranteando, junto às rochas,

Onde jazia o Mestre que adoravam;

Depois se retiraram, e os juízes

Tiranos de Israel, e os sacerdotes,

Temendo que os discípulos de Cristo

Lhe furtassem o corpo às horas mortas,

E dissessem depois que ressurgira,

Perto da feia e lúgubre caverna

Uma guarda puseram vigilante.

XVIII

Três dias e três noites pavorosas

Sobre a lousa do túmulo passaram;

Três dias e três noites de mistério

Os segredos cobriram de além mundo.

A vida e a morte combatiam surdas

No silêncio e nas trevas do sepulcro.

Mas, ao último dia, quando os astros

Desmaiavam na cúpula sidérea,

E os primeiros clarões tíbios e frouxos

De uma sinistra aurora adelgaçavam

As nuvens pardacentas do Oriente,

Um estampido horríssono e medonho

Reboou nas abóbadas sombrias

Da funerária gruta; um vivo fogo,

Um jorro imenso de brilhantes luzes,

Bateu na lisa face do rochedo.

Os quadrilheiros, hirtos, assombrados,

Lívidos de terror, no chão caíram,

De viscoso suor molhando a relva;

Agitaram-se os pássaros das brenhas

E tentavam fugir batendo as asas,

Tíbias e sem vigor! Dois belos anjos,

Radiantes de graças inefáveis,

Desceram das esplendidas alturas,

Afastaram a pedra do sepulcro,

E Cristo apareceu! O grande Cristo!

O Cristo soberano e glorioso,

Filho de Deus e Salvador do mundo!

XIX

O sol dourava os píncaros das serras

Quando as tristes mulheres lacrimosas,

Do Redentor ao túmulo voltaram.

Vendo, porém, caída a negra pedra

Correu aflita a pobre Madalena

A buscar Simão Pedro e seus amigos.

— Levaram do sepulcro o santo Mestre! —

Lhes disse magoada. O velho apóstolo

Dirigiu-se, e mais outro companheiro,

Ao jazigo de Cristo, entraram mudos,

Cheios de devoção e de respeito;

No chão viram as faixas e o sudário,

O sudário, porém, dobrado e limpo,

Longe da sepultura, e a sepultura

Descoberta e vazia! — Amedrontados

Fugiram do jazigo a passos largos.

Fora, entretanto, sobre um velho tronco,

Soluçava a formosa Madalena.

— Porque choras, mulher? — então, da sombra

Perguntou-lhe uma voz melodiosa.

A bela arrependida levantou-se,

Volveu os olhos para a gruta escura,

E divisou dois anjos colocados,

Um do fúnebre leito à cabeceira,

Aos pés o outro, fulgurantes ambos,

Ambos cingidos de lauréis divinos.

— Levaram meu Senhor! — a pobre exclama,

E não sei onde está! — Busca-o mais longe,

Responde um dos sublimes veladores.

Madalena voltou o branco rosto,

E viu de pé na entrada dos rochedos

Tranquilo o Salvador! — Divino Mestre! —

Murmurou jubilosa. — Não me toques.

Procura teus irmãos, procura-os todos,

Dize-lhes que retiro-me do mundo

Para o seio do Padre Onipotente,

Que é meu Senhor e teu! — Jesus ordena.

A pálida mulher se ergueu de um salto,

E rápida correu, levando a nova

Do celeste prodígio aos desgraçados.

À tarde, estando todos reunidos,

Distante da cidade, em pobre albergue,

Ferrolhadas as portas, que medrosos

Dos judeus sanguinários se escondiam,

Ouviram de repente um leve estalo

E o Redentor apareceu, dizendo:

— A paz seja convosco! — Apresentou-lhes

O seio lacerado, as mãos rasgadas,

Depois, volvendo aos céus o pensamento

Repetiu, bafejando-lhes as frontes:

— Recebei o Espírito Divino!

Assim como enviou-me o Padre Eterno,

Assim também ao mundo vos envio! —

Prostraram-se os humildes companheiros,

Quando, porém, se ergueram, no recinto

Não mais estava Cristo! Como um sopro,

Como um floco de névoa matutina,

Rápido e imponderável se afastara!

Tomé estava ausente, e quando os outros

Narraram-lhe o milagre, — duvidoso

Disse, encolhendo os ombros: — Necessário

Fora que eu visse as chagas, que tocasse

Dos cravos os sinais nas mãos feridas

E que apalpasse o peito lacerado.

Então pudera crer. — Passados eram

Oito dias, talvez. De novo, o Mestre

Apareceu entre eles; nesse tempo

Presente estava o companheiro incrédulo.

— Tomé, disse Jesus, — eis-me contigo,

Toma entre as tuas minhas mãos, repara

Em minha fronte lívida e sangrenta,

Põe o dedo em meu seio! Inda duvidas

Que eu tenha ressurgido e seja Cristo? —

— Meu Senhor e meu Deus! — Tomé murmura,

Beijando os pés do Mestre redivivo,

— Meu Senhor e meu Deus! Não me condenes!

— Porque tu viste, acreditaste logo,

E o testemunho de teus olhos frágeis

Antepuseste à glória de meu nome!

Mais felizes, Tomé, os que não viram,

E apesar de não ver, seguros creram. —

Disse, e leve sumiu-se como a sombra

Que a luz da aurora expele dos fraguedos.

Mais uma vez nas margens aprazíveis

Do lago azul dos ermos, onde outrora

Soía meditar nas belas tardes

De calmoso verão, mostrou-se Cristo

A seus, então, sagrados sucessores;

Entre eles repousou, ceou contente,

Sentado sobre a areia, ouvindo as queixas

Das águas buliçosas, e os sussurros

Das virações errantes nas folhagens

Dos frondosos, antigos arvoredos.

Foi, porém, esta vez a derradeira,

Sua missão na terra estava finda.

XX

Entre esplêndidas nuvens purpurinas

Mergulhava-se o sol, e os frescos vales

Abriam seus tesouros de perfumes,

Aos bafejos das auras suspirosas

Que desciam dos montes do Ocidente.

Sobre um risonho outeiro reunidos,

Escutavam os homens do Evangelho

As predições supremas; as sentenças,

E as derradeiras instruções do Mestre.

A sossegada aldeia de Betânia

Se estendia a seus pés, pobre, singela,

Como um plácido ninho de andorinhas

No meio de um vergel. — Pobres amigos!

O Redentor falou, — em vossas almas

Eu plantei as sementes da Verdade.

Não as deixeis morrer, tenham embora

Em vez de orvalho — lágrimas de sangue!

Deus vos dará valor. Eu parto e deixo

Em vossas mãos a sorte do Universo!

Buscai os tristes, procurai os pobres,

E o bálsamo divino da esperança

Nas feridas vertei dos desgraçados.

Voai à zona tórrida e às planícies,

Onde perpétuos gelos se aglomeram;

Ensinai aos mortais as leis do Eterno,

A pureza celeste dos costumes,

O perdão das mais ásperas ofensas!

E em nome do Senhor pregai ao mundo

As mais belas das lúcidas virtudes:

A Esperança, a Fé, e a Caridade! —

Falava o Salvador, seu santo rosto

Fulgurante tornava-se, seus olhos

De inefáveis clarões se iluminavam,

E a túnica mesquinha e desbotada

Da brancura da neve se cobria!

Os amigos prostraram-se embebidos

Em êxtase divino, — o grande Mestre

Sobre eles estendeu as mãos brilhantes,

Volveu aos céus o rosto glorioso,

E deixando de manso a terra e os homens,

Ergueu-se, ergueu-se pelos vastos ares,

Até librar-se no sidéreo espaço

Como longínqua estrela rutilante!...

Por fim perdeu-se além, na imensidade,

Onde não chega o pensamento humano!

Aqui termina a História do Calvário.

 

CANTO X

EPÍLOGO

I

A idolatria expira entre os gentios.

O Oriente, o Ocidente, o Sul e o Norte,

Exultam repetindo os hinos sacros

Dos bardos de Sião. Calam-se os ódios,

Consagram-se as nações; cessam as guerras;

Surge o mundo civil do caos profundo

Da velha barbárie! A lei triunfa,

As montanhas coroam-se de altares;

A cruz domina os campos e o Evangelho

Avassala os sertões! Desde as ribeiras

Do majestoso e plácido Amazonas

Até às margens do opulento Prata,

Ressoam pelo espaço os belos cantos

Da Igreja Universal! Sobre os desertos

Abre o Cristianismo o pálio augusto.

II

Porém, depois dos últimos sucessos

Desta História de acérrimos labores

Decorreram dez anos. As planícies

Cobrem-se de abundantes sementeiras,

Muge o gado no campo, as ovelhinhas

Brincam nos ervaçais, e sobre o monte,

No sítio ameno da saudosa ermida

Do servo do Senhor, alveja agora

Entre as pobres cabanas dos conversos

A torre estreita de um singelo templo.

Põe-se o sol. Os clarões finais do dia

Morrem ao longe nas remotas serras;

Voltam os lavradores do serviço,

E chamando os filhinhos, se dirigem

À casa do Senhor; os sons do sino

Pela primeira vez ressoam crebros

Naquelas solidões. Um pobre padre,

De venerando rosto, ergue-se e canta

As preces melancólicas da tarde.

Oh! não é ele o Apóstolo das selvas!

Musa dos ermos, o profeta é morto!...

Não! inda brilha, descorado embora,

O astro das missões! Inda derrama,

Bela estrela da Fé, a luz propícia

Que às trevas espancou do Novo Mundo!

Espírito do amor e da saudade,

Leva o gênio do bardo aos longes climas,

Onde os ecos acorda maviosa,

A doce voz que clama no deserto!

Onde vagueia convertendo os povos

O sucessor egrégio do Batista!

III

Ao norte das ubérrimas campinas

Onde desliza o Nilo Brasileiro,

O grande Paraíba, a quinze léguas

Da florescente aldeia consagrada

Ao Espírito Santo, e aquém das selvas

Banhadas pelas águas do Rio Doce,

Estendem-se as choupanas pitorescas

De um arraial cristão. Formosa estância!

Rerigbá feliz! Almo retiro,

Onde das lidas repousou do mundo

O sublime Anchieta! Eu te estou vendo

Com teus argênteos, lúcidos arroios,

Orlados de palmeiras, com teus vales,

Cobertos de baunilha e passifloras,

Com teu modesto e alegre Presbitério

Circundado de choças e de apriscos,

Com teu sábio pastor! — Idade de ouro!

Eras de singeleza e de inocência,

Que jamais voltarão, senão nos sonhos

E nas visões poéticas do bardo!...

IV

A noite passa. O astro da saudade

Atufa-se nos mares. O Oriente

Arreia-se de flores purpurinas.

Surge, filha da luz! Última aurora

Da estação da inocência e da esperança!

Oh! vem! Clareia o céu, anima os bosques,

Aviventa os sertões e as cordilheiras!...

Mas, à beira do rio, deslembradas

As canoas estão dos pescadores;

Das cabanas abertas não se expande

O fumo que anuncia a paz e a vida!

Os cantos virginais não se misturam

Ao burburinho trépido das fontes,

Nem as vozes vibrantes dos mancebos

Ao golpear sonoro dos machados

Nos grossos troncos dos ipês frondosos!

Entretanto, ao redor do pobre templo

As mulheres soluçam; tristes padres,

Sócios e amigos do inspirado Mestre,

Chegam de longes terras, incansáveis,

E param nos degraus do Presbitério,

Receosos de entrar; falam baixinho

Aos humildes conversos que os rodeiam,

E penetram, por fim, no santo asilo,

Onde o ilustre varão, prostrado aguarda

O momento supremo. Quão serenas

— São as feições do lúcido profeta!

Quão meigos seus olhares! Quão suaves.

As palavras e os votos que dirige

Aos lacrimosos velhos companheiros!...

Homens que ledes estes rudes cantos,

Viandantes de um vale de infortúnios

Onde cada progresso deixa um marco

Salpicado de sangue, e cada esforço

Do gênio e da virtude uma coroa

Férrea, crivada de aguçados cravos!

Não busqueis nas lições dos grandes sábios,

Nem nos padrões da história, a luz brilhante

Que desvenda os mistérios de além mundo!

Vede o justo morrer! Fitai os olhos

Nesses olhos, que os páramos celestes

Radiantes devassam! Nesses lábios,

Onde seguro e plácido sorriso

Anuncia a certeza do Infinito!

O próximo descanso, — a glória excelsa

No seio de Abraão! — Deus se revela,

Brando e terrível, justiceiro e forte,

Nas lívidas feições do moribundo.

Melhor que no bramir das tempestades,

Nas faces torvas dos revoltos mares,

Ou no zimbório azul do Firmamento

Semeado de fúlgidas esferas!

V

O bronze flébil do sagrado templo

Derrama pelo espaço os lentos dobres,

Os dobres de agonia. Os sacerdotes

Prostrados ao redor do pobre leito,

Onde definha o sábio, o herói, o justo,

Repetem, pranteando, os belos trenos,

Os belos trenos do Saltério antigo,

E as orações da soberana Igreja,

Depositária eterna da verdade,

Fonte da salvação. — Calmo e tranquilo,

Como Cristo entre as rábidas lufadas

Do temporal insano, o moribundo

Acompanha as endechas dolorosas

Dos aflitos irmãos. Sobre seu peito,

Entre as pálidas mãos, a cruz descansa,

A mesma cruz bendita, que há dez anos

Levara aos lábios trêmulos e frios

Da desditosa virgem do deserto.

Prostrado aos pés do leito um moço adusto,

Soluça e beija as vestes do profeta.

Jadir! É ele o lidador das selvas!...

Como se ostenta altivo o cedro umbroso

No seio da floresta! A massa enorme

De pesado granito nas montanhas!

O crocodilo dos juncais espessos

Das charnecas da Líbia, equiparados

Ao ente racional! Uma só noite

De mudo desespero e angústias fundas

Devora a mocidade, apaga os risos,

Consome as forças, e abrevia o espaço

Que se estende entre o berço e a sepultura!

Desgraçado Jadir! Mísera sombra

De guerreiro valente, quando a tarde

Nos campos desdobrar o véu suave,

Borrifado de lágrimas celestes,

Sozinho te acharás nas soledades

De um árido existir! Lascado tronco

Que o lavrador deixou no escuro vale

Sobre os restos de esplêndida floresta

VI

O sol oriental vence as alturas,

E dissipa das úmidas colinas

Os véus do nevoeiro; os loiros raios,

Atravessando as frestas das janelas,

Penetram no aposento lutuoso

Do sábio agonizante, onde crepitam

Dois pardacentos, funerários círios.

— Esta importuna claridade ofendo

As pupilas do Mestre, — alguém murmura,

Cumpre tolhe-la, e já. — Não, meus amigos! —

Exclama vivamente o moribundo.

— Não me furteis o gozo derradeiro

De ver a luz brilhante que aviventa

Estes belos sertões! Pura e festiva

Deixai-a refletir sobre meus olhos,

E sustar um momento o frio sopro

Que em minha veias infiltrou a morte!

Arredai estas tochas pavorosas,

Abri depressa as portas e as janelas,

Quero ver as campinas dilatadas,

Os silvados em flor, os céus profundos,

A luz, a luz, a imagem da esperança!

A condição suprema da beleza!

A vida do universo, o gênio, a glória

Desse grande poema arremessado

Pelo Deus Criador e Onipotente

Nos mistérios sublimes do Infinito!

A luz! A luz no berço e no ataúde!

A luz no coração, na inteligência!

A luz no céu, na terra, no mais fundo

Da consciência humana! — Assim dizendo,

Senta-se, a custo, o pálido profeta

Sobre o leito mesquinho. Os seus desejos

São decretos sagrados nessas horas.

Num volver de olhos erguem-se os amigos

E franqueiam à luz e às auras mansas

O tristonho e paupérrimo aposento.

— Como é límpido o céu! Como refulge,

Ao dourado clarão do sol do estio,

Ao longe o vasto mar! Como cintilam

As pérolas do orvalho, penduradas

Das verdes folhas dos murtais viçosos! —

Exclama o venerando missionário.

— Oh! não choreis, irmãos, que sinto na alma

A paz divina que precede a aurora

Da verdadeira vida! Alva sublime,

Alva celestial de eternos raios

Cobre os campos, os prados e as florestas

De riquezas e pompas inefáveis!...

Gênio da natureza, eu te estou vendo!

Pensas, e teu pensar sustenta os orbes,

Conduz os ventos, equilibra os mares,

Alenta a humanidade sofredora,

E a matéria sujeita à inteligência

Dos levitas felizes que te servem!

Sentes, e geme a rola na espessura,

Chora o mastim à porta de seu dono,

A leoa e a pantera dos desertos

Sucumbem, defendendo os tenros filhos,

E a mulher do pastor esquece as mágoas

Da trabalhosa vida, acalentando,

Pródiga de sorrisos e meiguices,

O fruto de seus cândidos amores!...

Mandas, e o vendaval sacode as brenhas,

Abre-se a terra, somem-se as cidades,

O oceano se afasta, e deixa as praias,

E vai rugir além!... Oh Natureza!

Ninguém te viu como te vejo agora! —

Seguem-se alguns momentos de repouso

Depois destas palavras. O profeta

Contempla extasiado os vastos campos,

Os céus serenos, os palmares frescos,

E a cinta azul dos mares sossegados.

Nas solidões imensas do horizonte

Reina fundo silêncio, ao longe apenas

Canta à beira do rio a patativa,

E as aragens sussurram mansamente

Nas balsas odorosas. Nem um brado

De errante caçador nos ermos campos!

Nem um riso infantil, um débil grito,

O latido de um cão junto das sarças;

Tudo é mudo. Nas rústicas varandas

Do triste Presbitério, o povo chora;

No retiro do sábio os sacerdotes,

E os anciãos da aldeia, possuídos

Dessa fascinação da Eternidade,

Que paralisa as forças da matéria

E purifica o espírito, contemplam

O semblante tranquilo e venerando

Do exímio lidador, em cujos traços

A beleza da estátua consagrada

Sucede à cor enferma, às feias rugas,

Herdadas do trabalho e das vigílias.

VII

— Pátria querida, pátria gloriosa!

Continua fitando os horizontes,

— Se meu berço não foi teu grêmio ilustre,

As primícias te dei da mocidade,

Os labores do estudo, as flores da alma,

O sentimento e a vida! Abre-me o seio,

Tu, que foste a visão de meu futuro;

Tu, que serás o templo onde meu nome

Triunfará do frio esquecimento!...

E através do tempo enxergo longe! —

Mas, um suspiro trêmulo e sentido

Interrompeu-lhe a voz. — Oh! santo Mestre

O que tendes? Perguntam seus confrades,

Erguendo-se assustados. — Nada. É cedo!

Responde-lhes sorrindo; — é cedo ainda. —

Depois, volvendo os olhos às campinas,

Belas campinas que prezava tanto,

Assim continuou. — Não tarda o dia

Que estes amplos sertões, estes desertos

Se cobrirão de granjas e herdades,

De férteis plantações. Um povo livre

Será senhor das terras planturosas,

Onde, pobres romeiros, levantamos

Nossas precárias, miseráveis tendas.

Não importa! Lançamos, os primeiros,

As sementes da fé por estes ermos!

Hasteamos o lábaro divino

Sobre estes verdes montes, conquistamos

Em nome de Jesus estes desertos,

E o deserto maior das consciências

Desta raça feliz! Oh! meus amigos!

Não ouvis um rumor festivo e ledo

No perpassar dos zéfiros suaves

Que sopram do Ocidente? Nos vapores,

Que o sol tinge de púrpura brilhante,

Não vedes o painel de um novo mundo.

Coberto, não de aldeias belicosas,

Porém de vastos templos e castelos,

Ginásios e arsenais, belas estatuas,

E aquedutos cobertos? — Salve! oh gênios

Que afastais as cortinas do futuro!

O Senhor permitiu que antes das sombras

Pavorosas da morte, se aclarassem

Os olhos de seu servo! Hora suprema!

Hora da liberdade, sê bem-vindal —

VIII

— Quão formosa e louçã, quão prazenteira,

Reclina-se entre fortes baluartes

E risonhos vergéis, a nobre filha

Do argonauta Cristão, a soberana

Dos encantados mares do Ocidente!

Ao gesto criador do herói preclaro

Os broncos alcantis estremeceram.

E os gigantes horríficos do abismo

Rasgaram, praguejando, as penedias

Para dar-lhe um asilo! As verdes ondas

Engolfaram-se alegres petos vales,

Osculando as colunas florescentes,

Que sobre as águas plácidas avultam,

Hoje amenos jardins, leitos de fadas,

Ninhos de amores e mimosos berços

Enfeitados de lúcida escumilha.

Porém, cópia fiel, fiel transunto

Das tradições escuras dos Helenos,

Os titãs atrevidos se amontoam

Ao redor do meandro cristalino

Erguendo as negras frontes, requeimadas

Pelo fogo do céu, e as mãos tremendas,

Armadas de rochedos monstruosos,

Procurando escalar o vasto Olimpo!...

Na larga entrada do soberbo empório

O Adamastor da América repousa

À luz do sol brilhante, que lhe aquece

A cabeça medonha, escaveirada,

E o dorso horrendo, onde resvala o raio

Nos dias de tormenta: audaz colosso,

Robusto velador, que ao longe assombra

Os gênios do Oceano, e brada ao mundo:

— Em nome do direito e da justiça,

Podeis entrar no templo do futuro,

Sacrificar ao Deus da liberdade! —

Oh! como brinca mansamente o vento

Nos leves galhardetes dos navios

Das mais longes nações, que ávidas pedem

À terra da abundância e da riqueza:

— A pedra irmã da estreita radiante,

O ouro que do sol o brilho imita;

A madeira que a púrpura rebaixa;

O fruto que alimenta e que deleita;

A raiz que entorpece os sofrimentos;

O mamífero, o inseto, a flor, a folha,

O pássaro de voz melodiosa,

De penas multicores; novos seres,

Novos primores que os tesouros formam

Das artes, da ciência e do comércio,

E também da vaidade tantas vezes!...

Ah! não é tudo, não é tudo ainda!

O que minha alma de delícias enche

Nesta divina previsão da glória,

É o império da lei, — a majestade

Suprema da justiça; a luz serena

E firme da verdade, clareando

A escola, os templos e os degraus do trono!

A beleza moral! Que importam festas,

Pompas, folguedos, mentirosas galas,

Quando as instituições precárias brilham

Como as estátuas frias de Pompéia,

Que desfazem-se ao sopro das aragens!

Mas, entre o solo e o povo resplandece

O sinal da aliança, a nívea pomba,

Sustendo o verde ramo de oliveira,

Descansa aos pés do soberano ilustre

Que há de elevar o templo do futuro,

Arca sublime das grandezas pátrias,

E reviver o século de Augusto

No ciclo de ouro da brasília história!...

Oh! meus irmãos! A senha da partida,

O grito de Asrael, soa tremendo

A meus frágeis ouvidos! Vejo as sombras

Gloriosas dos justos que passaram!

Ouço a voz de meus santos companheiros

Que do empíreo me chamam, jubilosos!

Francisco Xavier, mártir das índias,

Nóbrega exímio, cândido Aspicuelta,

Paiva incansável, maioral querido

Do rebanho Cristão de São Vicente,

Luiz da Grã, Braz Lourenço, Antônio Pires,

Todos belos e fortes, animados

De zelo fervoroso, e tão depressa

Arrebatados pela fria morte

Às tabas convertidas que os pranteiam!

Oh! que felizes são! Que luz divina

Circunda-lhes as frontes, enastradas

De rosas imortais e lírios pulcros!

Que celestes amigos os rodeiam

Na suprema mansão! Eis o Batista,

O Cristo precursor do Cristo eterno,

Pedro, a pedra angular da santa Igreja!

Paulo, vencido pelo grande arcanjo!

Quantos outros, meu Deus!... — A voz sumiu-se

No seio enfraquecido do profeta.

As pálpebras cerraram-se tranquilas,

Os lábios entreabriram-se, e um sorriso

Ditoso, da criança que adormece,

Deixou passar o alento derradeiro

IX

Volve a teu negro exílio de amarguras,

Oh! desgraçada musa às turvas ondas

Do temeroso mar, onde rebramam

As fúrias das procelas populares,

Entrega o pobre esquife, onde guardaste

Teus mais formosos e adorados sonhos!...

Adeus! Nossa missão está completa!



[1] De fato, a citação correta de Dante é:

Vuolsi così colà dove si puote

ciò che si vuole, e più non dimandare.

[2] Muito provavelmente, esse verso deveria ser — Está ali Babilônia, — além a Pártia, para chegar ao decassílabo.