Por Laura C Fiore Ferreira
Março/2026
⠀⠀⠀Andrea Calogero Camilleri nasceu em 1925, em Porto Empedocle, na Sicília, e faleceu em 2019, em Roma. Camilleri foi roteirista e diretor na RAI por muitos anos, tendo publicado seu primeiro romance (Il corso delle cose) apenas em 1978, quando já tinha mais de 50 anos. Em 1994, depois de ter escrito alguns romances chamados “históricos”, Camilleri publicou La forma dell'acqua, seu primeiro romance policial, tendo como personagem o Comissário Salvo Montalbano. A princípio Camilleri não tinha a intenção de escrever outros livros com o comissário; o livro, porém, teve uma boa recepção e Montalbano continuou a viver nos romances policiais seguintes de Camilleri.
⠀⠀⠀No Brasil, La forma dell'acqua foi publicado com o título A forma da água pela Editora Record, em 1999, dentro da Coleção Negra, dedicada a romances policiais. O livro chegou à terceira edição nessa coleção em 2007 (a segunda edição é de 2000), tendo ainda sido publicado em 2011 na Coleção Vira-Vira, da Edições Bestbook, pertencente ao Grupo Editorial Record, em uma edição de bolso que incluía A paciência da aranha, outro romance policial do autor com o Comissário Montalbano. Em agosto de 2021, A forma da água foi publicada pela L&PM Editores. Todas as edições desse livro têm tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. A Editora Record publicou 13 títulos da série com Montalbano, entre romances e contos, na Coleção Negra, até 2011. Em 2014 editou mais outra obra de Camilleri, A caça ao tesouro, fora da mencionada Coleção, e apenas retomou a série do Comissário Montalbano em 2019, publicando mais quatro livros (2019, 2023, 2025 e 2026, respectivamente). A Editora L&PM vem lançando desde 2021 os romances policiais de Camilleri, alguns deles já publicados pela Record. Ao todo, até o momento, podemos encontrar no Brasil 22 títulos da série Montalbano – alguns deles esgotados na editora, mas disponíveis em sebos e livrarias.
⠀⠀⠀Os romances policiais de Camilleri se passam na Sicília, na cidade imaginária de Vigàta. Em A forma da água, o engenheiro Luparello, cidadão pertencente a uma poderosa família, ligado a políticos da região e católico praticante, é encontrado morto dentro de um carro em um local ermo, ao lado de uma fábrica abandonada, lugar esse conhecido como “curral” e frequentado por prostitutas, travestis e usuários de drogas. Havia indícios de que o homem teria tido relações sexuais no carro. A autópsia revela que Luparello havia morrido de causas naturais, em decorrência de problemas no coração, de forma que Montalbano deveria encerrar o caso, já que não havia dúvidas de que não se tratava de crime. O Comissário, porém, pede ao seu superior alguns dias para investigar um pouco mais a morte.
⠀⠀⠀Camilleri utiliza a investigação de Montalbano como pano de fundo para discutir a realidade da sociedade siciliana. Isso envolve a inclusão de personagens ligados à política local, as situações típicas de comportamento da Máfia, o desenvolvimento de uma identidade siciliana, entre outros aspectos. Por exemplo, ao descrever a vítima, Camilleri faz uma pequena digressão para se aprofundar no histórico político da família de Luparello, citando políticos como Luigi Sturzo, fundador do Partido Popular, as esquadras fascistas dos anos 1920, a marcha sobre Roma em 1922 e a Operação Mãos Limpas dos anos 1990. Dessa forma, a resolução do mistério não é necessariamente o objetivo principal do autor, mas apenas um elemento do romance, uma espécie de “desculpa” para mostrar a sicilianidade. Muitas dessas menções a personagens políticos e movimentos históricos obrigam a tradutora a inserir algumas notas de rodapé para esclarecer o leitor brasileiro. Camilleri também cita escritores italianos, como Luigi Pirandello e Leonardo Sciascia, no contexto de conversas de Montalbano com o chefe de polícia, por quem o comissário nutre simpatia e admiração. Também mereceu nota de rodapé uma menção a “frase saliniana de mudar tudo desde que nada mude”, referência ao personagem Príncipe de Salina, em O leopardo, de Tomasi de Lampedusa.
⠀⠀⠀Esse primeiro caso de Montalbano já apresenta personagens que estarão presentes nos livros posteriores, como a sua namorada, Livia, que mora em Genova. Camilleri utiliza esse relacionamento para mostrar o estranhamento que os sicilianos podem causar nos demais italianos, principalmente do norte do país: “Não quero nem saber desse jeito distorcido de vocês raciocinarem”, diz Livia em determinado momento a Montalbano, depois dele explicar por que mantém Adelina como sua empregada mesmo tendo sido ele o responsável pela prisão de seus dois filhos. Neste livro, porém, é por meio de Livia que o autor revela a verdade sobre o caso, que não corresponde necessariamente à versão oficial de envolvimento da Máfia em um crime subsequente à morte de Luparello, versão essa que, apresentada a Montalbano, não foi contestada por ele.
⠀⠀⠀Outros personagens incluem os policiais que trabalham com Montalbano, como o brigadiere Fazio e o vice-comissário Mimì Augello, que neste livro aparece apenas no final, ao voltar de férias e assim assumir o lugar de Montalbano para que este tirasse alguns dias de férias e fosse ao encontro de Livia em Genova. Também já estão presentes o chefe da perícia Jacomuzzi e o médico legista Pasquano. Adelina, mulher que trabalha na casa de Montalbano e prepara pratos deliciosos para o comissário, neste livro aparece apenas como referência. Outro personagem importante é Ingrid Sjostrom, uma sueca casada com o filho de um político que aqui é suspeita de estar envolvida na morte do engenheiro Luparello. Montalbano desenvolve uma amizade com ela, que é mecânica e dirige muito bem, o que ajuda na resolução deste caso e de crimes em outros romances. Todos esses personagens serão recorrentes nos livros seguintes da série Montalbano.
⠀⠀⠀Camilleri também começa a construir seu personagem principal neste primeiro romance. Montalbano é um policial correto e incorruptível, que sente um grande desprezo por aqueles colegas e superiores hierárquicos que estão mais interessados em aparências do que em resolver os casos, que bajulam políticos e tentam obter vantagens para si próprios. O comissário também demonstra um grande senso de justiça e humanismo. Em A forma da água, Montalbano engendra um plano para que o lixeiro que encontrou um colar muito valioso no curral, mas não o entregou para a polícia, receba uma quantia ao devolvê-lo, para que possa tratar do filho doente. Ele também corrige injustiças que estavam sendo cometidas no caso para evitar que pessoas inocentes fossem falsamente acusadas. Outra característica recorrente de Montalbano, que faz parte da sua sicilianidade, é seu amor pela comida. Além dos pratos que Adelina deixa pronto para ele, o comissário é frequentador assíduo de um restaurante local, onde degusta pratos da culinária siciliana, como salmonetes fritos, berinjela de todos os modos e vários tipos de massa. Montalbano tem seu ritual de apenas comer em silêncio e com calma, mesmo quando está no meio de uma investigação difícil ou quando está acompanhado – as conversas ocorrem apenas depois do término da refeição.
⠀⠀⠀Um aspecto importante da obra de Camilleri é a forma como ele constrói seu texto.
⠀⠀⠀Apesar de escrever aparentemente de forma simples, com frases diretas e vocabulário acessível, encontramos na versão original muitas palavras no dialeto siciliano. Dependendo de com quem Montalbano conversa, ele pode falar em italiano, em dialeto ou misturar os dois. Para não causar estranhamento nos leitores italianos que não conhecem o siciliano, Camilleri faz uso de alguns artifícios: um deles é tomar a estrutura sintática do italiano como base da frase e introduzir palavras e expressões do dialeto siciliano. Quando ele conversa com Gegè Gullota, um cafetão que administra várias prostitutas no curral e que é amigo de infância de Montalbano, no original, constam vários termos em siciliano tanto na fala do policial como naquela do cafetão, deixando o texto mais dialetal, porém compreensível. No diálogo com um dos lixeiros que encontrou o corpo de Luparello, Montalbano fala em italiano e o lixeiro responde em dialeto em algumas pequenas frases. A adoção dessa forma de escrita pode ter como objetivo a representação da sicilianidade de Montalbano, porém isso causa um problema para o tradutor, já que não é possível transportar essa característica para o português. Na tradução brasileira, a tradutora optou por deixar as falas de Montalbano em geral em conformidade com a norma culta da língua portuguesa, com a introdução de algumas palavras chulas, conforme o contexto exigisse. Já no caso de Gegè isso não acontece; a fala é mais coloquial e alguns termos são grafados da forma como são pronunciados oralmente, como tomém, no lugar de também; home, no lugar de homem; tou, no de estou.
⠀⠀⠀Para finalizar, devemos mencionar ainda que a tradutora manteve alguns termos no original, grafados em itálico, como brigadiere, cargo do policial Fazio, cujo significado é explicado em uma nota de rodapé. Outra palavra que ela mantém conforme o original e em itálico é cosca, que, segundo a Enciclopedia Treccani, é um agrupamento de mafiosos da Sicília que desenvolve uma atividade criminosa a mando de um chefe. Neste caso não há explicação em nota de rodapé, mas o contexto dá a entender o que significa: “(...) o morto só podia ser algum integrante da cosca dos Cuffaro, de Vigàta”, passando então a tratar da guerra entre os Cuffaro e os Sinagra. A título de curiosidade, é interessante observar que esse mesmo vocábulo é encontrado em O dia da coruja, de Leonardo Sciascia, e nessa tradução também foi mantido o termo na língua original.
CAMILLERI, Andrea. La forma dell’acqua. 3. ed. Palermo: Sellerio, 1997
CAMILLERI, Andrea. A forma da água: uma aventura do comissário Montalbano. Tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Record, 2007
COSCA. In: Enciclopedia Treccani online. Roma: Istituto dell'Enciclopedia Italiana. 2026. Disponível em: https://www.treccani.it/vocabolario/cosca/. Acesso em 20 de março de 2026.
SCIASCIA, Leonardo. O dia da coruja. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
CAMILLERI, Andrea. A forma da água: Uma aventura do comissário Montalbano.Tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Record, 1999.
