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Título: I fioretti de S. Francisco de Assis

Escritor(a): N.N. (Nome Desconhecido)

Tradutor(a): Durval de Morais

Dados sobre a tradução

  • Classificação: Discurso, sermão ou oração
  • Ano de publicação: 1932
  • Editora: Livraria Católica, Rio de Janeiro, RJ
  • Idioma: Português
  • Meio: Impresso
  • Edição: 3
  • ISBN: Obra anterior à instituição do ISBN
  • Número de páginas: 270
  • Dimensão: 13x18 cm

Dados sobre o original traduzido

  • Tradução completa da obra
  • Título do original: I fioretti
    • Idioma: Italiano

Descrição

Obra de autoria anônima, cujo texto é atribuído ao pensamento de São Francisco de Assis.

Referência

I fioretti de S. Francisco de Assis.Tradução de Durval de Morais. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Livraria Católica, 1932.

Verbete

 I Fioretti di San Francesco - Anônimo (1370- 1390), tradução de Durval de Moraes


Por Ana Carolina Nogueira Cavalheiro

Março/2026

      

 A obra I Fioretti di San Francesco é um compilado de 53 anedotas edificantes sobre a vida de São Francisco de Assis e de seus primeiros seguidores, redigidas entre 1370 e 1390. Tornou-se uma das principais responsáveis pela difusão do imaginário popular acerca do santo italiano, seus companheiros e seus milagres. Como observa Forni, “Il Francesco della scuola, il Francesco per l’infanzia, stilizzato, aggraziato e fiabesco (...) è anche soprattutto il Francesco dei Fioretti” (FORNI, 2003, p.8, apud BALANCIN, 2008, p.16).


O termo Fioretti deriva do latim florilegium, palavra frequentemente utilizada no período medieval para designar coletâneas de excertos selecionados de obras literárias ou relatos de fatos notáveis sobre determinado tema ou personagem, destinados a ilustrar doutrinas ou valores (CAVALHEIRO, 2023, p.9). No contexto religioso, o termo também pode assumir o sentido de “sacrifício devocional” (BALANCIN, 2008, p.17).


A obra insere-se no contexto do Trecento italiano (século XIV), período de intensas transformações sociais e culturais, como o aumento da produtividade, a urbanização, o avanço das línguas vernáculas e o desenvolvimento intelectual (MARQUES, 2014, p.128). Nesse cenário, difundem-se os volgarizzamenti, traduções adaptadas do latim que ampliavam o acesso às obras. Mais do que traduzir, esse processo implicava recriação textual, pois o tradutor “escolhe, seleciona, recria e edita uma obra diferente do arquétipo, com sua própria fisionomia e autonomia” (TUSCANO, 1976, apud BALANCIN, 2008, p.13).


Nesse sentido, I Fioretti constitui uma versão em vulgar toscano do texto latino Actus beati francisci, de 1327, cuja autoria é incerta. Uma hipótese atribui o texto ao frade franciscano Ugolino da Montegiorgio, embora muitos estudiosos defendam a participação de diversos compiladores. O texto integra uma tradição manuscrita que frequentemente inclui apêndices como Vita di frate Ginepro, Vita e detti del beato Egidio e Considerazioni sulle Stimmate, este último presente na maioria das edições modernas.


A difusão de textos religiosos em língua vulgar relaciona-se também a uma estratégia pastoral da Igreja Católica diante da propagação de movimentos considerados heréticos na Europa (FRANCO JÚNIOR, 2022, p.13). Como tais movimentos alcançavam sobretudo as camadas populares, tornou-se necessário transmitir os ensinamentos eclesiásticos na língua compreendida pelo povo em lugar do latim eclesiástico. Com a atuação das ordens mendicantes, especialmente franciscanos e dominicanos, a pregação passa a ocorrer na língua corrente das populações (FRANCO JÚNIOR, 2022, p.13).


Esse contexto favoreceu a ampla circulação dos Fioretti, muito maior do que a do texto latino original. Enquanto o Actus recebeu edição oficial apenas em 1902 por Paul Sabatier, diversas edições de IF já circulavam antes de 1500 (CAROLI, 2011). Ao longo dos séculos multiplicaram-se traduções e edições em diversas línguas e formatos, inclusive ilustrados e em quadrinhos. A coleção da Biblioteca Franciscana de Falconara Marittima (Itália) apresentada por Giacani (2020) reúne edições do século XIX à metade do século XX em diversos idiomas: francês, inglês, espanhol, holandês, alemão, japonês, chinês, esperanto, português, vietnamita e polonês. Essa vasta difusão da obra abriu portas para uma grande diversidade de leituras.


Quanto à organização, embora o texto originalmente possuísse cinquenta e dois capítulos, edições posteriores dividiram o primeiro capítulo em dois (BALANCIN, 2008, p.15). Cada capítulo é precedido por uma rubrica que resume o episódio narrado e termina com um louvor dirigido a São Francisco e a Cristo.


As narrativas abrangem um arco temporal superior a cento e dez anos e organizam-se em dois eixos principais: o primeiro reúne episódios ligados às origens da ordem franciscana e à convivência de Francisco com os primeiros frades; o segundo aborda acontecimentos posteriores à sua morte, sobretudo na região italiana da Marca. Entre os episódios encontram-se narrativas amplamente difundidas na tradição artística e cinematográfica, como a pregação aos pássaros, o encontro com o sultão, a conversão do lobo de Gubbio e a relação com Santa Clara de Assis.


 Os Fioretti inserem-se na tradição das hagiografias franciscanas, associadas sobretudo a autores como Tommaso da Celano e Bonaventura da Bagnoregio. Durante muito tempo, a obra foi considerada de valor histórico limitado, porém, estudiosos como Le Goff (2001) destacam seu papel fundamental na construção do imaginário franciscano, ao estabelecer uma verdadeira mitologia em torno da figura de Francisco. Judar (2007) observa ainda que a obra deve ser valorizada por sua ligação com o contexto sociocultural do franciscanismo.


Diversos estudiosos também apontam que os Fioretti circularam amplamente mesmo entre os iletrados. Além de utilizar a língua vulgar, a obra foi concebida como uma legenda, gênero destinado à leitura em voz alta durante práticas religiosas, funcionando como recurso retórico para ilustrar sermões (FRANCO JÚNIOR, 2022).


Embora muitas vezes considerada uma obra de tom ingênuo ou fabulesco, os Fioretti também apresentam episódios que revelam tensões internas da ordem franciscana. Entre eles destacam-se o debate entre vida ativa e contemplativa (capítulo XVI), a expulsão de frades da ordem (capítulo XXXVIII) e o conflito entre franciscanos espirituais — defensores de uma pobreza radical — e conventuais, favoráveis a uma organização institucional mais estável.


Segundo Segre (1982), apesar de tratar da vida de Francisco e de seus companheiros, a obra não segue uma organização biográfica ou cronológica. Os episódios não formam uma narrativa linear e nada é dito, por exemplo, sobre acontecimentos anteriores à conversão do santo. A seleção das narrativas obedece sobretudo a um princípio temático: a aproximação da figura de Francisco à de Cristo e, paralelamente, de seus seguidores à dos apóstolos.


Dessa forma, recorrendo ao recurso retórico exempla, os Fioretti buscam promover a edificação espiritual do leitor por meio de pequenas narrativas exemplares que ilustram valores morais e perpetuam os ideais cristãos associados à experiência franciscana.


Sobre a recepção da obra pelos públicos italiano e brasileiro: Balancin (2008, p.17) destaca que, na Itália, para além da leitura religiosa do texto, observou-se a presença de uma leitura propriamente literária da obra. O crítico Cesare Segre, em sua introdução a sua edição de I Fioretti de 1982 (EditoraRizzoli), traz citações de percepções de alguns autores e críticos sobre a obra: “Basilio Puoti dizia encontrar em I Fioretti “Le più eleganti e leggiadre forme del dir toscano” e “la purezza de’ vocaboli e l’evidenza e grazia delle frasi”; e De Sanctis descrevia o autor de I Fioretti como um daqueles sujeitos que “hanno l'ingenuità di un fanciullo che sta con gli occhi aperti a sentire” (SEGRE, 1982, p.6, apud CAVALHEIRO, 2023, p.38).


 Ainda conforme Balancin, em seu levantamento de edições brasileiras realizado em2008, a publicação em português de I Fioretti no Brasil não foi muito difundida, restringindo-se, na época de sua pesquisa, a edições já esgotadas pertencentes às décadas de 1930 e 1970 - encontradas apenas em sebos e bibliotecas. As traduções que mais circularam no Brasil foram a de Durval de Morais (editora Vozes e Livraria Católica), e Adelino Capistrano (editora Atena e Ediouro). A pesquisadora também destacou a circulação de traduções livres publicadas virtualmente, como a de José Carlos Correa Pedroso, publicada no site http://cantodapaz.com.br/, infelizmente atualmente indisponível. Outra tradução publicada virtualmente foi realizada pela Conferência Capuchinhos do Brasil, a qual disponibilizou a obra integral com introdução e comentários: https://www.capuchinhos.org.br/texto/i-fioreti-di-san-francesco-introducao.


A editora Vozes realizou o maior número de edições da tradução de Durval de Morais, padre franciscano e poeta religioso nascido na Bahia em 1882 e falecido em 1948. A pesquisadora identifica edições nos seguintes anos: 1964, 1973, 1981 e 1986, com 3000 exemplares impressos a cada ano. Apesar de a editora ter indicado 1964 como o ano da primeira edição, a pesquisadora menciona ainda a existência de um exemplar publicado pela Vozes em 1940, encontrado por ela em um sebo virtual, indisponível para venda, que por algum motivo não foi citado nos dados informados pela Vozes.


Uma nova edição foi realizada em 2023, com 1500 exemplares impressos. O volume é organizado por meio das seguintes seções: Nota do editor, Introdução, Fioretti de São Francisco e, como apêndice, as Considerazioni sulle stimmate, traduzidos como “Dos sacrossantos estigmas de São Francisco e de suas considerações." Esta é, até então, a edição de IF mais recente que existe no Brasil.


 Sobre a tradução de Morais: na introdução da obra, o tradutor apresenta, ainda que não diretamente, sua perspectiva de tradução. Para ele, o próprio termo Fioretti seria intraduzível. Balancin (2008, p.24) observa que o tradutor não se preocupa em pintar o Francisco histórico, mas sim o seu caráter santo, intocável, intraduzível em palavras. Ele nega a análise acadêmica do texto: "Deixassem-nos sem história, sem filiação, sem averiguações críticas, sem análise, a esses divinamente anônimos "Fioretti", e eles seriam como estrelas iluminando as noites das almas, como cantos suavizando as agonias dos corações (...)" (MORAIS, 1964, p. 06, apud BALANCIN, 2008, p.24).


A autora destaca algumas diferenças desta tradução em relação à de Adelino Capistrano. Entre elas, se sobressai a preferência de Morais por termos mais clericalizados: ao traduzir frate como “frei”, em vez de “irmão”, além de uma linguagem mais formal, marcada por vocábulos de origem latina que exigem maior domínio do português, como “enleio” e “citadino”. Por outro lado, a pesquisadora ressalta o cuidado na tradução dos diminutivos, cuja variedade na língua italiana implica nuances semânticas específicas. Tal atenção evidencia uma preocupação estética com a forma literária do texto, coerente com a formação poética de Morais, e contribui para caracterizar sua tradução como mais elaborada e estilísticamente refinada em relação a de Capistrano.


REFERÊNCIAS

BALANCIN, Débora de Souza. As traduções brasileiras de I fioretti di San Francesco: a leitura da obra no Brasil. 2008. Dissertação (Mestrado em Língua e Literatura Italiana) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

CAROLI, Ernesto. Fonti francescane: scritti e biografie di san Francesco d’Assisi, cronache e altre testimonianze del primo secolo francescano, scritti e biografie di santa Chiara d’Assisi, testi normativi dell’Ordine francescano secolare. Padova: EFR, 2004.

CAVALHEIRO, Ana Carolina Nogueira e WATAGHIN, Lucia. I Fioretti di San Francesco: análise da instância prefacial de quatro edições da obra. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. Apresentação. In: VARAZZE, Jacopo. Legenda Aurea. 10ed. São Paulo, Companhia das Letras, 2022.

GIACANI, R.; BOCHETTA, M. La collezione dei Fioretti di San Francesco della Biblioteca francescana di Falconara Marittima (AN): con un focus sulle edizioni antiche. Picenum Seraphicum – Rivista di Studi Storici e Francescani, n. 33, p. 171–186, 2020. DOI: https://doi.org/10.63277/2385-1341/2414.

JUDAR, Vandergleison. Até que a morte nos separe: reflexões sobre a morte nas Fontes Franciscanas. 2006. Dissertação (Mestrado em Mestrado em História Social) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2006.

MARQUES, L. H. (2014). I Fioretti de San Francesco como instrumentos de comunicação do Cristianismo no Trecento Italiano: indícios de um contexto cultural. Teocomunicação, 44(1), 122–137. https://doi.org/10.15448/1980-6736.2014.1.18285.

SEGRE, Cesare. Introduzione. In: I Fioretti Di San Francesco: le considerazioni sulle stimmate. 2ed. Milão: Imprenta Biblioteca Universale Rizzoli, 1982.



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