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Título: A ilha de Arturo

Subtítulo: memórias de um garoto

Escritor(a): Elsa Morante

Tradutor(a): Roberta Barni

Paratexto(s) da Obra

Dados sobre a tradução

  • Classificação: Romance ou novela
  • Ano de publicação: 2019
  • Editora: Carambaia, São Paulo, SP
  • Idioma: Português
  • Meio: Impresso
  • Edição: 1
  • ISBN: 9788569002604
  • Número de páginas: 384
  • Dimensão: 15x23 cm

Dados sobre o original traduzido

Verbete

A ilha de Arturo de Elsa Morante

Por Janette Tavano

Março/2026


⠀⠀⠀O segundo romance de Elsa Morante (1912–1985), L'isola di Arturo, foi publicado em 1957, na Itália, pela Editora Einaudi. No mesmo ano, o livro ganhou o prestigiado prêmio Strega e foi traduzido para vários idiomas, consolidando a presença da escritora e de sua obra na| maioria dos países europeus.

A história de Arturo, o menino que tinha o nome da estrela mais brilhante da constelação do Boieiro – xará de Arthur Rimbaud, o poeta preferido de Morante –, começou a ser escrita em 1952, e seria uma novela dentro do livro Due amori impossibili [Dois amores impossíveis], que também traria uma segunda trama, chamada Nerina. O projeto mudou depois que a escritora passou alguns dias de verão em Procida, uma pequena ilha no golfo de Nápoles. Encantada com a beleza e o estilo de vida do lugar, ela voltou para Roma e decidiu se concentrar na narrativa de Arturo, o jovem que rememora sua infância e juventude em Procida, de onde partiu para se alistar no exército aos 16 anos.

⠀⠀⠀Na época, a escritora declarou para alguns jornalistas e colegas, como o crítico literário Giacomo Debenedetti, que também havia um desejo mais antigo e íntimo envolvido nesse processo de escrita: "Eu sempre quis ser um menino, um menino como Arturo, que pode caçar e pescar e escalar grandes pedras, e andar malvestido, e ter sonhos e ilusões de menino. E eu sempre quis nadar, mas... nunca aprendi. Talvez, por isso, Arturo passe tanto tempo no mar" (tradução minha), disse em uma entrevista para Frederic Morton, da "Times", durante uma viagem a Nova York, em 1959, quando L'isola di Arturo foi traduzido nos Estados Unidos por Isabel Quigly para a editora Alfred A. Knopf (TUCK, 2008, p. 127). Essa identificação com o personagem nunca se perdeu, já que, um ano antes de sua morte, a escritora repetiu "Arturo, c'est moi!" [Arturo, sou eu!], em uma conversa com o tradutor Jean-Noël Schifano, inspirando-se na famosa frase de Gustave Flaubert sobre Madame Bovary.

⠀⠀⠀O subtítulo Memorie di un fanciullo [Memórias de um garoto] leva os leitores para o narrador em primeira pessoa, Arturo Gerace, que, durante o período em que é prisioneiro de guerra na África, relembra sua vida na bela ilha ao sul da Itália, onde cresceu livre e solitário, num palácio malcuidado que já havia sido um convento de frades e uma casa de reuniões masculinas - a Casa dei guaglioni. Órfão de mãe, que morreu durante o seu parto antes de completar 18 anos, ele também é quase um órfão de pai, já que Wilhelm Gerace passa a maior parte do tempo longe de casa, em viagens longas, misteriosas e sem data de volta. E mesmo quando retorna por algum tempo, não se preocupa em construir uma relação carinhosa e profunda com o filho, por mais que o menino tente impressioná-lo. As companhias de Arturo eram a cachorra Immacolatella -- a única figura feminina ao seu lado – e o babá Silvestro, além de uma pequena foto desbotada da mãe, "adoração fantástica de toda a minha meninice" (MORANTE, 2019, p.9). Isso muda no dia em que o pai desembarca na ilha acompanhado por uma jovem napolitana, apenas dois anos mais velha que Arturo, que na época estava com 14. É Nunziata, com quem ele havia acabado de se casar. Essa nova configuração familiar deixa o garoto perturbado e enciumado, mas, com o tempo, os jovens - ambos abandonados, um pelo pai e a outra pelo marido - se aproximam, e a rejeição à madrasta dá lugar a um amor impossível.

⠀⠀⠀Marcado pelas fantasias e pelos sentimentos tempestuosos de Arturo, o texto dialoga com narrativas de mitos, fábulas e romances de aventura e de formação dos séculos XVIII e XIX. A própria autora fez questão de escrever uma advertência para os leitores no início do livro, assumindo que a história é totalmente imaginária, reforçando, assim, um estilo livre do contexto literário neorrealista da época, marcado pelo pós-guerra e pelo fascismo. Alguns anos antes, em 1950, Morante publicou um artigo no jornal italiano "Mondo", chamado Tre personaggi, no qual reflete sobre a ideia de existirem três tipos de heróis, talvez já envolvida no processo de criação do seu Arturo. Para ela havia Aquiles, que aceitava a realidade; Hamlet, que a recusava, e Dom Quixote, que inventava a própria. Nesse aspecto, Arturo se parecia com o personagem de Miguel de Cervantes, criando os seus mundos, especialmente aqueles onde o pai sempre surgia como um ideal de grandeza humana, como se pode ver no seguinte trecho: "Eu imaginava os grandes comandantes e guerreiros todos loiros e parecidos com meu pai [...]. Quando Wilhelm Gerace viajava novamente, eu tinha certeza de que ele partia rumo a ações aventurosas e heroicas: sem dúvida eu teria acreditado se ele me contasse que estava indo conquistar os polos, ou a Pérsia, como Alexandre da Macedônia; que à sua espera, do outro lado do mar, havia companhias de bravos sob seu comando; que ele era um derrotador de corsários ou de bandidos, ou então, ao contrário, que ele próprio era um grande Corsário ou um Bandido" (MORANTE, 2019, p.37). A imaginação e a linguagem do garoto eram alimentadas principalmente pelos livros de heróis e de aventura que ele gostava de ler - sem ir para a escola, Arturo era autodidata, igual à autora, que aprendeu a ler e escrever sozinha quando era criança.

⠀⠀⠀Mas, apesar da advertência inicial do livro, não é possível dizer que o livro não toque na realidade. Isso acontece graças à escrita hábil de Morante, que entrelaçou o real e o imaginário na voz do narrador: é Arturo, já mais velho e um prisioneiro atravessado pelos horrores da guerra, quem está falando e tentando se reconectar com o Arturo do mundo fantástico de Procida. Entre eles, existe o mar: "Não é possível sair da ilha sem a travessia pelo mar materno: como se fosse a passagem da pré-história infantil para a história e a consciência" (tradução minha), diz o texto da quarta capa da reedição de L'isola di Arturo (publicada pela Einaudi, em 1975, na coleção "Gli struzzi"), que é atribuído à própria Morante, apesar de não estar assinado. Assim, o universo infantil, da fábula, em algum momento, acaba se deparando com a realidade. A ilha, como o lugar que isola e protege, não é mais capaz de poupar Arturo das perdas, ausências e impossibilidades reais da vida. O menino abandona o mundo encantado em direção à guerra e torna-se o homem que dá voz ao romance. “A maturidade é uma sombra no céu festivo desta prosa, semelhante a um pensamento frio e reprimido, a um presságio impossível da noite próxima” (tradução minha), escreveu Cesare Garboli em um ensaio publicado na introdução da edição de 2014.

⠀⠀⠀Segundo Graziella Bernabò, pesquisadora de literatura italiana contemporânea, "tudo isso [o mito, a fábula, o romance de aventura e de formação] está inserido em um romance realista de fundo psicológico, com fortes implicações psicanalíticas e existenciais de um estilo típico do século XX" (BERNABÒ, 2023, p.119, tradução minha). A ideia de que o imaginário e o real caminham juntos na obra se confirma em um depoimento da própria Morante, divulgado no documentário "Portrait di Elsa Morante”, da roteirista e cineasta Francesca Comencini: "Com esse livro quis escrever uma história que se assemelhasse um pouco à de Robinson Crusoé, um rapaz que descobre todas as coisas mais importantes, mais bonitas e também as mais feias da vida. Para ele, tudo é aventura, assombro, beleza, porque vê as coisas pela primeira vez e não tem experiência nem com o bem nem com o mal. E como vive em uma das ilhas mais lindas que já conheci, que é a ilha de Procida, tudo aquilo que cai diante do seu olhar é de uma beleza especial, e dessa forma a vida tem um colorido fantástico para ele. Talvez por isso, alguém descreveu a história como uma fábula, mas para mim, o meu livro é um dos mais realistas que foram escritos nos últimos tempos" (apud BERNABÒ, 2023 p.120, tradução minha).

⠀⠀⠀Morante escreveu quatro romances, 57 contos, duas antologias poéticas e nove ensaios. Seu fascínio pelas palavras começou cedo: em uma entrevista que concedeu logo depois de ganhar o Strega ao jornal "L'Espresso", em 7 de julho de 1957, ela declarou: "Não me lembro de uma época na qual eu não escrevesse. Pode-se dizer que comecei a escrever quando as outras crianças aprendiam a correr" (tradução minha). A partir dos 21 anos ela passou a publicar fábulas no “Corriere dei Piccoli”, uma revista semanal voltada para o público infantil, que fazia parte do jornal italiano “Corriere della Sera”. Entre 1937 e 1941, seus contos podiam ser lidos em várias revistas, como "Il Meridiano di Roma", "Panorama", "Prospettive" e "Oggi". Até conseguir publicar os romances, ela ainda viveu um período conturbado por conta da guerra e da perseguição aos judeus na Itália. Embora a escritora não seguisse o judaísmo, ela tinha ascendência judaica por parte da mãe, a professora Irma Poggibonsi, que vinha de uma família judia do norte da Itália. Além disso, em 1941, Morante casou-se com o escritor Alberto Moravia (1907-1990), que também tinha origem judaica por parte de pai e era reconhecidamente antifascista. Para escapar da perseguição, o casal deixou Roma em 1943, refugiando-se na região da Ciociaria. Nesse período, Morante começou a escrever Menzogna e sortilegio, seu primeiro romance, "com absoluta autonomia em relação à política cultural dominante" (BERNABÒ, 2023 p. 74, tradução minha).

⠀⠀⠀No Brasil, A Ilha de Arturo demorou alguns anos para ser publicado. Foi apenas em 2003 que a editora Berlendis e Vertecchia adquiriu os direitos da obra, que foi traduzida por Loredana de Stauber Caprara. Em 2019, a editora Carambaia lançou uma nova versão, em capa dura e com um projeto gráfico muito bem cuidado, com tradução de Roberta Barni e posfácio de Davi Pessoa. Um dos desafios da tradução passou pelo que Garboli chamou de linguagem de "timbre misto": "Morante, ao narrar em primeira pessoa, identificando-se com seu menino-herói, consegue soar, sem falsos tons, duas cordas de timbre misto: o espanto e a ironia, a insignificância e a magnificência das coisas, o mito e o oposto do mito", escreveu. No texto original também há várias expressões em dialeto napolitano, que foram mantidas na edição em português, com as respectivas traduções em notas de rodapé, como piccerillo (menino), màmmeta (minha mãe), nennella (garotinha), scunzigliati (desajuizados), entre outros. Infelizmente, a Carambaia informa que a edição física do título está esgotada. Em circulação, no Brasil, atualmente, é possível encontrar apenas uma obra traduzida de Morante: a coletânea de ensaios Pró ou contra a bomba atômica, com tradução de Davi Pessoa, lançada em 2017 pela editora Âyiné.

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Agradecimento:

A autora do verbete, Janette Tavano, agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro para a realização de suas pesquisas sobre o tema [processo nº 131163/2026-4].



Referências bibliográficas:


BERNABÒ, Graziella. La fiaba estrema - Elsa Morante tra vita e scritura. Roma: Carocci Editore, 2023.

MORANTE, Elsa. L'isoladi Arturo. Torino: Einaudi, 2014.

______________. L'isoladi Arturo. Coleção Gli Struzzi. Torino: Einaudi, 1975.

MORANTE, Elsa. A ilha de Arturo. Tradução de Roberta Barni. São Paulo: Carambaia, 2019.

TUCK, Lily. Woman of Rome: A Life of Elsa Morante. New York: Harper Collins Publishers, 2008.


Site:

BIBLIOTECA NAZIONALE CENTRALE DI ROMA. Le stanze di Elsa. "Tre personaggi", in "Mondo". Ministero della Cultura, Roma, 2006. Disponível em: https://mostrebncrm.cultura.gov.it/morante/periodici/reporter/GIORN_112300011.html. Acesso em: 15 de mar. de 2026.

BIBLIOTECA NAZIONALE CENTRALE DI ROMA. Le stanze di Elsa. Entrevista "L'Espresso". Ministero della Cultura, Roma, 2006. Disponível em: https://mostrebncrm.cultura.gov.it/morante/periodici/interviste/ESPRESSO00001.html. Acesso em: 15 de mar. de 2026.


Referência

MORANTE, Elsa. A ilha de Arturo: memórias de um garoto.Tradução de Roberta Barni. 1. ed. São Paulo, SP: Carambaia, 2019.


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