Por Janette Tavano
Abril/2026
⠀⠀⠀Elsa Morante (1912-1985) é considerada uma das escritoras mais importantes do século XX na Itália, sendo reconhecida principalmente pelos seus romances, em especial L'isola di Arturo, vencedor do prêmio Strega em 1957, e La Storia, que vendeu 450 mil exemplares em apenas três meses e foi traduzido para mais de quinze idiomas. Mas ela também produziu dezenas de contos infantis e adultos, poemas, canções e, em menor volume, ensaios. São justamente esses textos de não ficção que foram reunidos pelo crítico literário Cesare Garboli no livro Pro o contro la bomba atomica e altri scritti, publicado em 1987, dois anos após a morte da escritora, pela Adelphi, e lançado no Brasil com tradução de Davi Pessoa em 2017, pela editora Âyiné.
⠀⠀⠀Em seu prefácio à edição italiana, Garboli pergunta: "Elsa era uma ensaísta?". As opiniões não são unânimes. O próprio Garboli, ao se basear no modelo elaborado pelo crítico literário Alfonso Berardinelli, hesita em dar uma resposta afirmativa: “Por mais esforço que eu faça, não consigo classificá-la sob nenhuma das três categorias identificadas por Berardinelli: não é uma historiadora da cultura, não frequenta a iluminação epistemológica e muito menos a pedagogia e a autobiografia literária” (GARBOLI, 1987 apud MORANTE, 2022, p. 8). Mas, para Angela Borghesi, professora de literatura na Universidade Bicocca, em Milão, é possível fazer uma análise mais flexível que a de Garboli: “Pergunto-me, porém, se realmente se pode negar a Morante o título de ensaísta pelo período específico de sua produção que vai do final dos anos 1950 – mais ou menos desde a publicação, em 1957, de L'isola di Arturo – até o final dos anos 1960, ou seja, até Il mondo salvato dai ragazzini. Ou até mais longe: as páginas cronológicas que compõem os sete capítulos do romance La Storia têm um tom ensaístico; Morante apresenta um relato peculiar dos acontecimentos descritos” (BORGHESI, 2026, p. 101, tradução minha). Já o escritor Carlo Sgorlon, em seu livro Invito alla lettura di Elsa Morante, afirma veementemente: “Morante não tinha uma verdadeira vocação ensaística e todos os textos reunidos no volume [Pro o contro la bomba atomica e altri scritti] surgiram a partir de oportunidades jornalísticas e editoriais. Mas, cada um deles traz a marca inconfundível da autora. Morante era, em primeiro lugar e acima de tudo, uma contadora de histórias” (SGORLON, 1972, p. 120, tradução minha). Davi Pessoa, no prefácio à edição brasileira, também reflete sobre a questão colocada por Garboli e, em sua opinião, Morante pode, sim, ser considerada uma ensaísta "se tomamos o ensaio como gesto que se adota no ato da escrita, no momento em que se escutam vozes heterogêneas sem buscar uma unidade, ou seja, como uma espécie de rapsódia. [...] Mais interessante que perguntar se Elsa era uma ensaísta, talvez seja discutir como ela tece seu ensaísmo” (PESSOA, 2022 apud MORANTE, 2022, p. 14-15).
⠀⠀⠀Borghesi procura a resposta na própria escritora: “O que Morante pensava desses textos, como os definia? Na pasta na qual os guardava, ela escreveu à mão, junto ao índice, 'Ensaios' [...]; em todas as entrevistas daqueles anos, nas contracapas das reimpressões dos dois primeiros romances e dos contos de Lo scialle andaluso, e até mesmo na contracapa da primeira edição de La Storia, Morante continua a apresentá-los como 'ensaios' e o futuro livro como uma 'coleção de ensaios'. Pode-se argumentar que o fato de ela ter elaborado alguns textos passíveis de serem chamados de ensaios não a tornava uma ensaísta. Mas se um punhado de textos faz o autor ter uma ideia diferente de si mesmo, uma concepção de mundo que carrega sua obra de novas tensões, marcando uma transição crucial, então tais escritos respondem a uma eminente atitude ensaística” (BORGHESI, 2026, p. 104, tradução minha). Independentemente das diferentes opiniões sobre a questão, é possível ainda pensar que talvez Morante não estivesse preocupada em se enquadrar em alguma categoria, pois, como aponta Daniela Marcheschi em seu artigo “Per leggere Elsa Morante”, ela queria “criar literatura sem se importar com delimitações artificiais de gênero, exatamente como estava acostumada a fazer desde o início de sua carreira” (tradução minha).
⠀⠀⠀O desejo de reunir os ensaios em um livro nasceu da própria Morante, apesar de nem sempre estar certa quanto ao projeto e mudar de ideia várias vezes, segundo Garboli, porque “talvez ela compreendesse que o ensaio é o testemunho do sacrifício de um intelectual, caso aceitemos que o lugar do intelectual é o lugar do impossível, o lugar do cruzamento de paradoxos” (GARBOLI, 1987 apud MORANTE, 2022, p. 7). São treze textos no total, que foram publicados entre os anos de 1950 e 1965 em jornais e revistas italianos. A edição segue a ordem cronológica, portanto, os primeiros sete artigos vão de 1950 a 1951, e foram escritos para o jornal Mondo – são um pouco mais curtos e estão agrupados sob o título “Vermelho e branco”: “Glória, Heróstrato e o esposo lunático"; “Defesa de certa frivolidade no hábito viril contra os perigos da austeridade”; “As personagens”; “Os três narcisos”; “O paraíso terrestre”; “O príncipe Andrei” e “Alguns exercícios preparatórios para a próxima quaresma”. Os ensaios seguintes são: “O poeta de toda a vida”, publicado no informativo da Einaudi em abril de 1957, e, quatro meses depois, no jornal Il Punto; “Sobre o romance” e “Sobre o erotismo na literatura”, ambos na revista Nuovi Argomenti, nas edições de 1959 e 1961, respectivamente; “Navona mia”, na revista Illustrazione Italiana, em 1962; “Pro o contro la bomba atomica”, na Europa Letteraria, em 1965, e em Linea d'ombra, em 1984; e, por fim, “Il beato propagandista del Paradiso”, no volume Beato Angelico, da Rizzoli, em 1970.
⠀⠀⠀Morante imprime nesses textos seu olhar crítico, firme e intenso ao falar de temas como arte, literatura e bomba atômica. Segundo Borghesi, “a passagem da década de 1950 para a de 1960 foi, para Morante, um momento difícil, de reflexão, de confronto consigo mesma e com a realidade histórica e sociocultural. São também anos de estudo, de aprofundamento em vastas leituras filosóficas e em literatura sapiencial, na interseção entre o Oriente e o Ocidente, em busca de respostas às questões recentes e de uma saída para os impasses pessoais e coletivos. Por isso, não surpreende que essa fase tumultuada e sofrida de pesquisa e reflexão tenha assumido formas ensaísticas” (BORGHESI, 2026, p. 104, tradução minha).
⠀⠀⠀A escritora também fala sobre seu amor pelos animais – “na companhia de nosso cão ou de nosso gato, encontramos um descanso das exaustivas guerras da esperança e do orgulho. Graças a eles podemos encontrar sobre a Terra um olhar vivo, que nos declara a amizade mais delicada, sem nenhuma sombra de dúvida” (MORANTE, 2022, p. 36) –e de seu encanto pela Piazza Navona, “a rainha de todas as praças, não só da cidade de Roma” (MORANTE, 2022, p. 89). Em “O poeta de toda a vida”, ela presta uma bonita homenagem a Umberto Saba, um de seus poetas preferidos: “Aconteceu na Itália, em relação ao Canzoniere de Saba, aquilo que quase sempre acontece com as obras da mais alta poesia: sendo muito modernas para seus contemporâneos, precisam esperar para que seu significado seja explicado em sua plenitude para serem incorporadas pelas gerações futuras” (MORANTE, 2022, p. 47-48, grifos da autora). Nesse texto, já se pode conhecer um pouco das suas ideias sobre o gênero romance – “[...] com o nome de poema ou de romance são definidas as obras poéticas em que se reconhece a intenção de refletir o homem em sua totalidade” (MORANTE, 2022, p. 49) –, tema que será central no ensaio “Sobre o romance”. Neste, Morante expõe sua convicção de que o gênero não se define a partir de uma escrita em prosa ou em verso, e justifica falando que Eneida, de Virgílio, ou Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, em sua substância, são romances. “Romance seria toda obra poética em que o autor – através da narrativa repleta de acontecimentos exemplares (escolhidos por ele como pretexto ou como símbolo das relações humanas no mundo) – apresenta inteiramente uma imagem do universo real (isto é, do homem em sua realidade)” (MORANTE, 2022, p. 57). A escritora acredita que a arte se nutre de realidade e que um verdadeiro romance, mesmo o fabuloso, é sempre realista: “Todo drama humano é real, e todo romance que represente esse drama segundo a verdade é realista. Além disso, todo drama humano, enquanto humano, é um drama psicológico. [...] Todo verdadeiro romance é um drama psicológico, porque representa a relação do homem com a realidade” (MORANTE, 2022, p. 64-65).
⠀⠀⠀A realidade também está em "Pró ou contra a bomba atômica", que dá título ao livro. Antes de ser publicado, esse texto foi lido por Morante, em 19 de fevereiro de 1965, no Teatro Carignano, em Turim, e, em seguida, nos teatros Manzoni, em Milão, e Eliseo, em Roma. Mesmo sem gostar de falar em público, ela abriu uma exceção para poder expressar sua preocupação com o ritmo de autodestruição que percebia naquele momento no mundo - 1962 foi marcado por um período de grande tensão diplomática entre Estados Unidos e União Soviética, conhecido como a “crise dos mísseis de Cuba”, sendo considerado o momento em que o mundo mais se aproximou de uma guerra nuclear; pouco depois, em 1964, o conflito no Vietnã tornou-se mais intenso com o envolvimento direto das tropas norte-americanas. “A humanidade contemporânea experimenta a tentação oculta de se desintegrar” (MORANTE, 2022, p. 109), ela escreveu, afirmando em seguida que a arte seria o contrário da desintegração: “Simplesmente porque a razão da arte, sua justificação, seu único motivo de presença e sobrevivência, ou caso se prefira, sua função, é exatamente a seguinte: impedir a desintegração da consciência humana, em seu cotidiano desgastante e uso alienante com o mundo; restituir-lhe, continuamente, na confusão irreal, fragmentária e usada nas relações externas, a integridade do real, ou, em uma única palavra, a realidade” (MORANTE, 2022, p. 111-112, grifos da autora). Borghesi entende que o discurso sobre a bomba deu à Morante a oportunidade de desenvolver suas ideias sobre o papel do escritor na sociedade e reconsiderar “o conceito de realidade, elemento central de sua poética” (BORGHESI, 2026, p. 107, tradução minha).
⠀⠀⠀Diante de um mundo que continua refém da desintegração, Davi Pessoa acredita que a tradução do livro Pró ou contra a bomba atômica é bastante importante porque potencializa os ensaios de Morante, "os quais provocam um choque entre lembrança e esquecimento, dando-nos, em última análise, a possibilidade de pensar o presente de nossa disparatada existência".
Agradecimento:
A autora do verbete, Janette Tavano, agradece ao Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro para a realização de suas pesquisas sobre o tema [processo nº 131163/2026-4].
BORGHESI, Angela. "In prosa e in versi. Elsa Morante saggista". In: PARIGINI, Margherita, SPATAFORA, Michele e STROPPOLO, Daniele (Org.). La forma del saggio nel Novecento italiano - Problemi, stili, figure.Macerata: Quodlibet, 2026. p. 101-121.
MARCHESCHI, Daniela. “Per leggere Elsa Morante". In: CALDERONI, Sara (coord.). Elsa Morante e il romanzo. Milano: Marco Saya Edizioni, 2018, p. 22.
MORANTE, Elsa. Pró ou contra a bomba atômica. Tradução de Davi Pessoa. 4. ed. Belo Horizonte: Âyiné, 2022.
SGORLON, Carlo. Invito alla lettura di Elsa Morante. Milano: Ugo Mursia Editore, 1972.
MORANTE, Elsa. Pró ou contra a bomba atômica: e outros escritos.Tradução de Davi Pessoa. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, 2017.
