https://dblit.ufsc.br/_images/obras/64eaa3c9bb3d0.jpg

Title: Trabalhar cansa

Writer: Cesare Pavese

Translator: Andréia Riconi

Information about the work

  • Classification: Poemas; Tradução
  • Publisher: Colenda, Brasília, DF
  • Publication year: 2022
  • Languages: Português
  • Original title: Lavorare stanca
  • Complete translation of the work(s)
  • Language(s) of the translated work: Italiano
  • Medium: Impresso
  • Edition: 1
  • ISBN: 9786599656125
  • Number of pages: 192
  • Dimension: 11x18 cm

Fierce

Trabalhar cansa – Cesare Pavese

Por Andréia Riconi

Novembro/2024



⠀⠀⠀Lavorare Stanca, publicado pela primeira vez em 1936, é uma coletânea de poemas do escritor italiano Cesare Pavese (nascido em Santo Stefano Belbo em 1908 e morto em 1950, em Turim) que constitui seu primeiro grande trabalho literário. O autor, importante nome do neorrealismo italiano, utilizou sua poesia para explorar temas da solidão, do trabalho e da vida cotidiana, abordando o isolamento e o peso existencial do homem moderno. As situações relatadas acompanham a trajetória de personagens marginais, que desafiam as lógicas de exclusão social e são alçados a um patamar de protagonismo. Essas temáticas, atreladas ao seu estilo de escrita, refletem também o período no qual a obra se insere, marcado pelas tensões sociais e políticas da Itália fascista. Não à toa, na ocasião da sua primeira publicação, quatro poemas foram censurados por motivos morais – poemas esses que figuram posteriormente em outras edições.


⠀⠀⠀O neorrealismo italiano, que ganhou impulso na Itália após a Segunda Guerra Mundial, trouxe à tona a necessidade de retratar a vida das classes populares e explorar a crueza e a realidade palpável das situações cotidianas, frequentemente focando em temas de pobreza, opressão, sobrevivência e reconstrução. É o que Pavese faz, ao trazer uma obra marcada por retratos tangíveis da realidade e pela profundidade psicológica de seus personagens. Em Lavorare Stanca, o autor explora os conflitos internos do homem comum, trazendo suas realidades de trabalho e as angústias do cotidiano, a partir de temas que dialogam intensamente com o espírito neorrealista. A linguagem acessível e despretensiosa que Pavese utiliza, além da presença de ambientes simples, como vilarejos e paisagens rurais, aproxima sua obra da estética do movimento. Isso faz dela uma manifestação artística que reflete as complexidades da experiência humana em um período de profundas e significativas transformações sociais.


⠀⠀⠀Os poemas de Lavorare Stanca abordam temas como a solidão, o trabalho extenuante, a natureza e o desejo de pertencimento, sempre permeados por uma melancolia que reflete a vida do homem comum em uma sociedade historicamente opressora. Para além do âmbito temático, essa coletânea também se destaca pela originalidade, ao introduzir uma forma poética que contrasta com a tradição métrica da época, dando à linguagem uma simplicidade quase coloquial e, ao mesmo tempo, um tom fortemente introspectivo. O próprio autor, no ensaio intitulado “O ofício do poeta” (1943), define que o ritmo de seus versos se apresenta em três tipos básicos, que fogem às normas clássicas, mas que são o que ele chama de ritmo do seu fantasiar. Herdeiro da tradição, mas pautado também nessa cadência que lhe é própria, Pavese publica uma obra que trata de questões sociais e coletivas, ao mesmo tempo em que funciona como um produto de algo bastante particular e íntimo seu.


⠀⠀⠀Lavorare Stanca já havia sido traduzido no Brasil em 2009, em publicação da editora Cosac Naify e tradução de Maurício Santana Dias. Com a entrada da obra em domínio público, a editora Colenda publica, em 2022, uma nova tradução, realizada pela tradutora Andréia Riconi. Traduzido literalmente como Trabalhar Cansa, o texto de Pavese apresenta desafios diversos à tradução, dada a riqueza estilística, o peso temático de seus versos, mas também as alegorias e simbologias que precisam ser reconstruídas nesse trânsito linguístico-cultural do processo tradutório. Pavese emprega uma linguagem simples e direta, mas profundamente introspectiva, na qual cada palavra parece ser escolhida para evocar o desencanto, o cansaço e a melancolia da existência humana. Traduzir essa obra exige não apenas uma compreensão dessas palavras, mas uma atenção especial ao ritmo e à sonoridade que acompanham o conteúdo. O esforço para esta tradução foi o de equilibrar a atmosfera do texto de partida com a criação de uma musicalidade que ressoasse com profundidade também no português brasileiro e evocasse esses aspectos universais e particulares anteriormente mencionados. Um dos principais cuidados durante este processo tradutório foi o de, justamente, manter o ritmo dessa fantasia que Pavese imprimiu em seus versos. Na versão de partida, ele se afasta de estruturas métricas rígidas, optando por um ritmo que se aproxima da linguagem cotidiana, quase prosaica, o que permite espontaneidade e fluidez para a leitura do texto em italiano. Para a tradução, foi essencial assimilar e adaptar essa cadência sem recorrer a soluções que pudessem quebrar a simplicidade característica da obra.


⠀⠀⠀Além disso, os temas da obra – o cansaço da rotina, o vazio existencial, a paisagem como reflexo de um estado interior – exigem sensibilidade e precisão. Para alcançar essa sensibilidade, foi preciso recorrer a um processo quase interpretativo. “Escutar” o ritmo, sentir no corpo a cadência dos versos, identificar as nuances culturais e psicológicas das personagens, e carregar essas vivências com a melancolia requerida pelos poemas. Só assim pareceu possível preservar um dos efeitos mais significativos da obra: uma poesia que é simples na superfície, mas que revela camadas de significados densos e profundos. O empenho da tradução, assim, foi o de trazer esses relatos de uma Itália fragmentada e melancólica para o século XXI brasileiro, de modo que tais relatos ainda possam ecoar significativamente nesse contexto de chegada. 


⠀⠀⠀Na edição traduzida de Lavorare Stanca foram incluídos dois ensaios de Pavese que lançam luz sobre o processo de criação dessa obra: o já mencionado “O oficio do poeta” e outro intitulado “A propósito de certos poemas ainda não escritos”. Esses textos ensaísticos são interessantes para compreender a abordagem poética do autor, pois demonstram suas reflexões acerca de seu próprio processo criativo e de suas intenções ao optar por uma poesia que se distancia das convenções formais e se aproxima da fala cotidiana. Nos ensaios, Pavese reflete sobre como chegou a esse tom de voz, a essa abertura prosaica de sua poesia, na busca por retratar as nuances da vida comum e transmitir as angústias e solidões do homem contemporâneo. Esses textos críticos, ao acompanharem a obra, permitem ao leitor compreender melhor as escolhas estilísticas e temáticas que tornaram Lavorare Stanca uma obra única e marcante na literatura italiana, ao mesmo tempo em que ajudaram na construção de um projeto de tradução coerente.


⠀⠀⠀Ainda na perspectiva de buscar itinerários para o processo criativo inerente à qualquer produção, a tradução proposta por Andréia Riconi também conta com uma nota escrita pela tradutora, na qual ela explica quais elementos da poesia de Pavese são privilegiados em sua tradução. Com isso, a proposta se apresenta como uma experiência de recriação do ritmo característico do texto de Pavese em português brasileiro, reinserindo a potência de seus personagens e alegorias no sistema literário brasileiro contemporâneo.



Referências


PAVESE, Cesare. Lavorare stanca. Pavia: Edizioni Solaria, 1936.

______. Trabalhar cansa. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

______. Trabalhar cansa. Tradução de Andréia Riconi. Brasília: Colenda, 2022.


Reference

PAVESE, Cesare. Trabalhar cansa. Translation from Andréia Riconi. 1. ed. Brasília, DF: Colenda, 2022. ISBN: 9786599656125.


Comments