https://dblit.ufsc.br/_images/obras/65465cfa29649.jpeg

Title: Sabe seduzir a carne a palavra

Writer: Patrizia Valduga

Translators: Agnes Ghisi, Elena Santi

Organizators: Agnes Ghisi, Elena Santi

Information about the work

Fierce

Sabe seduzir a carne a palavra – Patrizia Valduga

Por Agnes Ghisi

Outubro/2024



⠀⠀Talvez o principal desafio da tradução literária seja fazer chegar na língua alvo a voz expressa na língua de partida, e isso exige minúcia e atenção para ambos os textos. Na tradução de poesia, particularmente, “tudo, em princípio, pode ser significativo” (Britto, 2012, p. 120), o que requer uma constante escolha daquilo que é mais relevante para cada poema que se traduz. No caso da tradução dos poemas de Patrizia Valduga que compõem a plaquette “Sabe seduzir a carne a palavra” (Edições Jabuticaba, 2023), organizada e traduzida por Agnes Ghisi e Elena Santi, ainda há que se considerar o fato de o livro ser uma obra que apresenta a poeta do Vêneto, nascida em 1953, para o público leitor brasileiro, já que a autora até então era inédita no Brasil. Isso implica dizer que cada poema carrega em si decisões que dizem respeito àquela composição especificamente, mas também à coletânea como um todo, na busca por um equilíbrio entre aquilo que se consegue recriar e compensar na língua alvo e aquilo que, inevitavelmente, se perde, já que “todo ato de tradução implica perdas” (Britto, 2012, p. 120).


⠀⠀⠀O principal ponto a ser observado, portanto, é a língua poética de Valduga, que combina a sonoridade às formas rígidas dos seus versos criando um desafio de leitura. A sonoridade e a tensão entre forma e conteúdo são pontos fundamentais do erotismo da sua escrita, e a escolha do título da coletânea, tirada de um dos versos valduguianos, ressalta o erotismo como tema da sua poética. Trata-se de um erotismo que abrange a carne, o sexo, o prazer, a palavra, os sons, bem como a tradição literária. Tudo isso faz com que a poética valduguiana seja caracterizada por uma confluência de forças que, de início, parecem contrastar: por um lado, a autora retoma formas da tradição literária italiana, adotando uma métrica fechada (de hendecassílabos italianos a sonetos, baladas, tercetos dantescos, oitavas e quartetos), por outro, opta por um léxico explícito e impoético, que mistura termos da tradição literária, versos “roubados” e termos da oralidade, que não hesitam em ser obscenos, vulgares e banais.


⠀⠀⠀Inspirando-se na poesia barroca, Valduga faz percorrer nos seus versos artifício e sensualidade em busca de uma musicalidade carnal e profana criadora de uma atmosfera densa e asfixiante, que encontra momentos de abertura de tom com sopros líricos, permitindo à poesia uma permeabilidade renovada. Essa tensão entre asfixia e respiro apontam para duas faces da mesma moeda na sua poética: o gozo da carne e o êxtase do espírito, a restrição da forma e a liberdade do conteúdo. Essa pulsão contrastante indica um ponto na sua poesia em que vida e morte se encontram, se configurando como “uma chave de acesso para o ser” (Peterle; Santi, 2017, p. 240). O erotismo da forma e do tema, portanto, é um instrumento de sondagem da individualidade, da investigação de certas pulsões que se embatem dentro do sujeito valduguiano. Dentre elas, destaca-se como principais o medo e o desejo, que estão intimamente interligados e compenetrados na sua escrita, bem como o prazer e a dor, a morte e a ressurreição, a violência e o amor. Valduga pede “às palavras, as mesmas que me fizeram companhia para me proteger da morte e para me dar um sentido resguardando a minha identidade, peço para me libertar desta identidade endurecida e imóvel como a morte depois da derrota do desejo (Valduga, 2004, p. 53, tradução livre) e, com isso, aponta para como a morte é o fim necessário para vivificar a vida, tornando-a mais presente e desejante. O que é possível por meio das palavras, um instrumento desse desejo que é capaz de vencer, ainda que momentaneamente, o medo da morte e da imobilidade que ela traz consigo.


⠀⠀⠀Além disso, o erotismo também representa um elemento unificador da sua poética heterogênea e permeada por influências e sugestões de diferentes épocas e tradições literárias. Entre elas, vale citar o Marquês de Sade, Georges Bataille e Matte-Blanco, que são nomes que a própria Valduga apresenta como referências diretas na sua poesia. Já em relação às referências talvez indiretas, vale notar o seu trabalho como tradutora de autores como Shakespeare, Mallarmé e Valéry. Indiretas porque Valduga afirma que nunca conseguiu roubar um verso seu enquanto tradutora (cf. Valduga apud Peterle; Santi, 2017, p. 243), ainda que o roubo de versos seja frequente na sua prática poética. No posfácio a Poesie erotiche (2018), Valduga se pergunta o que é escrever poesia e qual o papel da inspiração nesse ofício, e afirma que “quanto mais se conhece a poesia, mais se encontram correspondências, coincidências, ecos, empréstimos, referências, moldes” (Valduga, 2018, tradução nossa). Ou seja, o erotismo da palavra se transpõe na relação com a poesia como um todo. Não por acaso, Valduga afirma, na mesma entrevista, retomando o tema da identidade: “minha língua me constrói, é a minha identidade, o meu instrumento de conhecimento: vejo com os ouvidos” (Valduga apud Peterle; Santi, 2017, p. 243). Essa sinestesia aponta para como o som se concretiza como elemento central na escrita de Valduga, o que implica que o é também para a tradução.


⠀⠀⠀Explorar a língua poética de Valduga faz com que o público leitor se depare com sedimentos e acúmulos da poeta nas suas identidades, como autora, leitora, tradutora, e é preciso atentar-se para o jogo de ecos e correspondências que ela cria. Afinal, trata-se de uma “antropofágica e voraz leitora que consegue, por um instante, eliminar as distâncias históricas e temporais” (Peterle; Santi, 2017, p. 240). Ao eliminar essas distâncias, tempos e tradições confluem na voz poética valduguiana, encontrando novos modos de tensionar a forma e o conteúdo, compondo um corpo de poema que se embate com a rigidez da forma fechada. Embate para o qual a tradução se volta, observando como as formas da tradição são escolhidas e respeitadas na sua estrutura, mas renovadas no modo com que são trabalhadas pela língua valduguiana: sonetos, oitavas, quartetos e tercetos são resquícios de outras épocas literárias, mas que Valduga usa buscando novas aberturas de significado. Os acúmulos dessas vozes lidas e sentidas passam a fazer parte da voz da poeta, que deve chegar ao público leitor brasileiro.


⠀⠀⠀Alguns poemas exemplificam as tensões encontradas e recriadas nessa apresentação, que visa dar conta de longos anos de tensão e erotismo. Um exemplo que explicita tanto a cleptomania quanto a tensão que Valduga cria é:


Osceno e sacro l’amore delibera

stessa sede per sé e per gli escrementi.

Se non mi leghi io non sarò mai libera,

né casta mai se tu non mi violenti.

(Valduga, 2018)


Na tradução:


Obsceno e sagrado o amor deixa livre

mesmo lugar pra si e os excrementos.

Se não me atas, eu nunca serei livre,

E nem casta, se não me violentas.

(Valduga, 2023)



⠀⠀⠀Valduga explica que o poema, que faz parte da coletânea Poesie erotiche, na qual também estão reunidos poemas do percurso poético de Valduga ao longo de quatro décadas, é “fruto de dois furtos, colocados em prática como de costume pela autora ‘com prudência e reverência’, segundo o ensinamento de Daniello Bartoli” (Valduga, 2013, não paginado, tradução nossa). Ela explica ainda que os primeiros versos são do poema “Crazy Jane talks with the Bishop”, de Yates, e os últimos, do XIV dos “Holy Sonnets”, de Donne. Tendo certamente lido as traduções italianas desses poemas, Valduga parece propor a sua própria versão, a sua recriação desses versos, que se apresenta também como renovação do cenário literário. A composição de Valduga apresenta uma urdidura fonética e semântica muito amarrada, reforçada pela posição de palavras-chave ao longo dos versos, num constante reposicionamento, quase que trocando de lugar o que é obsceno e o que é sagrado. É um poema que aproxima os termos pelas aliterações e rimas, particularmente pela repetição de fonemas sibilantes, e que se forma por versos hendecassílabos italianos em rima alternada. A tradução é guiada priorizando o erotismo sonoro do poema, mas não deixa de lado certa rigidez métrica. Por outro lado, como ocorre em toda tradução, houve perdas. No valor semântico de “delibera” (deliberar, decidir, ponderar), traduzido por “deixa livre”, o verso se dobra à rima fixa. A não repetição de “mai”, dos versos terceiro e quarto, mantém a medida do verso em italiano, ainda que a palavra eclipsada seja retomada de modo menos enfático com “nunca” e “nem”. Alguns caminhos poderiam se abrir para uma rima mais forte entre “escrementi / violenti”, entretanto, as tradutoras mantêm o sentido do poema de Valduga, reforçando o protagonismo da figura da mulher no jogo criado pela poeta. A rima imperfeita, então, estremece a forma rígida de Valduga na tradução.


⠀⠀⠀Se, para Zohar, a renovação literária “implica que nenhuma distinção clara entre obras ‘originais’ e ‘traduzidas’ é mantida” (Zohar, 2012, p. 4) num polissistema literário, pode-se considerar que a produção de Valduga penetre esse sistema com uma escrita feita a partir de leituras e traduções como um ato íntimo, erótico, que se imbrica. Entretanto, esse erotismo é sempre perpassado por um sopro de morte, pela imobilidade da forma rígida e fechada que a poeta escolhe. O eros valduguiano é, então, um elemento que vivifica as formas dos seus versos no corpo de uma poesia que produz um gozo físico e carnal, dos sons à tensão amorosa com a forma e a palavra. A atenção a esse complexo jogo de sedução operado pela poesia valduguiana é, portanto, o cerne do trabalho de tradução. Trata-se, sobretudo, de um trabalho de escuta. Ver com os ouvidos, como o faz a poeta. A plaquette de apresentação se configura, portanto, como um percurso de leitura que as tradutoras e organizadoras propõem ao público leitor brasileiro, perpassando toda a produção valduguiana. Ler, organizar e traduzir são gestos que se compenetram e se potencializam numa escuta. Os desafios da tradução se apresentam como estímulos para um aprofundamento nessa compenetração e fuga da domesticação de uma voz insubmissa.


Referências


BRITTO, Paulo Henriques. A tradução literária. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

EVEN-ZOHAR, Itamar. A posição da literatura traduzida dentro do polissistema literário. [1990]. Tradução de Leandro De Ávila Braga. In: Translatio, Porto Alegre, n. 3, 2012, p. 3-10. Disponível em: . Acesso em: 29 Ago. 2024.

PETERLE, Patricia; SANTI, Elena. Vozes: Cinco décadas de poesia italiana. Rio De Janeiro: Comunità, 2017.

VALDUGA, Patricia. Poesie erotiche. Turim: Einaudi, 2018.

VALDUGA, Patrizia. Patrizia Valduga legge “Osceno e sacro l’amore…” (I poeti leggono se stessi /5). In: Borio, Maria (Org.). Nuovi Argomenti, 7 de Outubro de 2013, publicação online. Disponível em: . Acesso em 29 Ago. 2024.

VALDUGA, Patrizia. Sabe seduzir a carne a palavra. Tradução e organização de Agnes Ghisi e Elena Santi. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2023.


Reference

VALDUGA, Patrizia. Sabe seduzir a carne a palavra. GHISI, Agnes; SANTI, Elena (org). Translation from Agnes Ghisi; Elena Santi. 1. ed. São Paulo, SP: Jabuticaba, 2023. ISBN: 9788593478208.


Comments