Translation Data

As confissões d'um italiano

Writer Ippolito Nievo (1831-1861)
Translator Francisco Degani (1953-...)
Classification Romance ou novela Tradução
Years

Year of publication: 2024

Other data
Edition
1
Language
Português
Dimensions
16x23 cm
Publication medium
Impresso
ISBN
9788574925080
Pages
784
Data about the translated originals
Source
  • Projeto Dicionário Bibliográfico da Literatura Italiana Traduzida
Reference NIEVO, Ippolito. AS CONFISSÕES D'UM ITALIANO. Trad. DEGANI, Francisco. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 2024. 784 p.

Verbete sobre As confissões d'um italiano By N.N. (Nome Desconhecido)

As confissões d’um italiano


Por Francisco Degani

Novembro/2024


⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Não nos esqueçamos de que o impulso do Ressurgimento italiano teve na literatura um único eco realmente poético: e são os dias aventurosos do Carlino de Nievo. (Italo Calvino, 2009, p. 35)





⠀⠀⠀O escritor, poeta, jornalista, dramaturgo e soldado Ippolito Nievo nasceu em Pádua, em 1831, em uma família da baixa nobreza, e passou a infância em Udine, alternando as temporadas na cidade com as férias no castelo de Colloredo di Montalbano, pertencente ao avô materno, o qual provavelmente serviu de modelo para o castelo de Fratta de seu maior romance As confissões d’um italiano. É também baseado nas memórias do avô, que havia assistido pessoalmente à decadência da República de Veneza e participado, na qualidade de patrício com direito a voto, da última sessão do Conselho Maior, em 12 de maio de 1797, que Nievo reconstitui, no mesmo livro: a história veneziana e a aspiração por uma Itália unida, livre e independente. Lê-se na abertura da obra:


"Eu nasci veneziano, em 18 de outubro de 1775, dia do evangelista são Lucas; morrerei pela graça de Deus italiano, quando quiser aquela Providência que governa misteriosamente o mundo." (Nievo, 2024, p. 20)


⠀⠀⠀Escrito entre o final de 1857 e a primeira metade de 1858, o romance não conseguiu ser publicado pelo autor antes de sua morte (4/5 de março de 1861). A obra só foi publicada postumamente, em 1867, pelo editor florentino Le Monnier que, além de mudar o título para As confissões de um octogenário, efetuou numerosas correções ortográficas, lexicais e sintáticas no manuscrito original, pois a curadora da edição e amiga de Nievo, Erminia Fuà Fusinato, achou necessário adequar o texto ao modelo linguístico proposto na edição de 1840 de Os noivos, de Alessandro Manzoni. O título original As Confissões d’um italiano só seria retomado na segunda edição de 1899, ao passo que o texto original só seria reconstituído integralmente nas edições organizadas por Sergio Romagnoli, em 1952 e 1990, e por Simone Casini, em 1999.


⠀⠀⠀O protagonista Carlino Altoviti, um homem de oitenta e três anos, aproximando-se da morte, resolve contar sua vida com o declarado objetivo de oferecer às novas gerações o testemunho de “dois séculos que serão um tempo muito memorável sobretudo na história italiana” (Nievo, 2024, p.21). O romance se passa entre o ano de nascimento de Carlino, 1775, e o ano em que este é escrito, 1858, misturando as experiências pessoais do protagonista e autor com a história italiana desde o final do ancien régime, até chegar às portas da Unificação. Contando com apenas 27 anos quando do início da escrita, Nievo vai buscar na visão do avô materno, Carlo Marin, o argumento e as considerações sobre os acontecimentos históricos não vividos por ele, tornando o romance em uma obra histórica supostamente autobiográfica baseada na memória de dois indivíduos, com o relativo grau de incerteza e de opinião da lembrança reconstruída.


⠀⠀⠀O crítico Pier Vincenzo Mengaldo considerou o romance articulado em três grandes blocos que fazem correspondência entre as fases da vida de Carlino (infância, juventude e maturidade) com momentos da história italiana (o antigo regime, a era das revoluções, a Restauração e as primeiras rebeliões ressurgimentais).


⠀⠀⠀O primeiro bloco (cap. I-VII) é ambientado no Friuli ainda arcaico e feudal dos anos que antecedem e acompanham a revolução francesa. Carlino, órfão de mãe e abandonado pelo pai, é acolhido pelo tio, conde no castelo de Fratta, onde passa a maior parte do tempo na companhia dos criados, podendo observar sem ser visto a vida do velho mundo feudal. A narração concentra-se quase que exclusivamente nos fatos da infância de Carlino e na enorme devoção que ele dedica a Pisana, a mimada filha dos condes de Fratta, e sua prima, que estará a seu lado por toda a vida. Interessante notar a representação do Eros infantil e da psicologia das crianças, o que chegou a causar censura ao romance. Também interessante é a utilização do espaço da cozinha do castelo como microcosmo da sociedade feudal e, portanto, dos valores decadentes do ancien régime.


⠀⠀⠀A segunda parte do romance (caps. VIII-XVIII) inicia-se com a partida de Carlino para a Universidade de Pádua e a notícia da decapitação de Luís XVI. A narração é recheada de eventos públicos e privados e caracterizado por mudanças geográficas contínuas. O protagonista acompanha os acontecimentos gerados pela chegada de Napoleão à Itália: a queda da República de Veneza e sua cessão à Áustria com o tratado de Campoformio; a constituição das repúblicas Cisalpina e Romana; a revolução napolitana de 1799; a resistência republicana de Gênova assediada pelos austríacos; a proclamação, em 1805, do Reino da Itália. Nesse período, a vida pessoal de Carlino é marcada principalmente pela sua relação com Pisana, em que se alternam separações e reconciliações.


⠀⠀⠀O terceiro bloco (cap. XVIII-XXIII) cobre um tempo muito maior do que os anteriores (1800-1858). Estamos na maturidade do protagonista que volta para Fratta acompanhado de Pisana, depois da proclamação do Reino da Itália, e é convencido por ela a se casar com Aquilina, com quem terá quatro filhos. A relação amorosa de Carlino com Pisana, no entanto, não termina aí. Em 1820, Carlino participa das insurreições meridionais ao lado do general Guglielmo Pepe: é capturado e aprisionado na ilha de Ponza onde perde a vista, depois é mandado em exílio para Londres. Pisana vai com ele a esta cidade para ajudá-lo a se curar e chega até a pedir esmolas pelas ruas da cidade.


⠀⠀⠀Os três capítulos finais, que poderiam formar um quarto bloco, contam a história da reconstrução da Itália em que Carlino, já velho, participa da insurreição veneziana de 1848 e assiste do observatório de Fratta a preparação da Unificação italiana, esperando a morte, “mais contente do que resignado” (Nievo, 2024, p.779), mas também o destino dos filhos que teve com Aquilina, Luciano e Donato, que participaram dos eventos relativos à independência da Grécia, e Giulio que se aventurara na América do Sul.


⠀⠀⠀É difícil classificar As Confissões em apenas um gênero narrativo. Em primeiro lugar, trata-se de um romance histórico, já que reconstrói um século da vida italiana, mas, com relação aos modelos então existentes – sobretudo os de Walter Scott e Alessandro Manzoni – existe pelo menos uma diferença fundamental: o romance não se localiza em um passado distante que permite um distanciamento histórico dos fatos a serem narrados. Diferentemente do famoso romance de Manzoni, Nievo inicia seu romance explorando uma parte da história recente e ainda incompleta, que terá sua conclusão após o final do livro. Por outro lado, a história é contada por um jovem que se coloca na pele de um protagonista octogenário, que viveu parte desta história e a julga através da ótica do presente e de suas esperanças quanto ao destino da Itália. Talvez por isso, Nievo tenha se referido às Confissões como o seu “romance contemporâneo”, o que já demonstra como ele o considerava inovador e original dentro do gênero histórico. Além disso, é a primeira vez dentro do romance histórico em que o narrador também é protagonista, o que faz com que este tipo de narrativa ganhe um cunho memorialista e autobiográfico. Enquanto Manzoni e outros autores da época garantiam a autenticidade da história narrada através de fontes e documentos históricos (manuscritos descobertos, narradores anônimos etc.), Nievo utiliza o testemunho de Carlino que, na narrativa, assistiu pessoalmente aos eventos, e a memória do leitor da época que conhece esses eventos por sua atualidade. Essa mistura de gêneros dá vida nova ao romance histórico oitocentista e resgata os memorialistas do século anterior. Utilizando a voz de Carlino e não mais um narrador onisciente, Nievo coloca o narrador no mesmo plano do leitor e, para isso, precisa falar diretamente a este usando formas coloquiais, próximas ao discurso oral.


⠀⠀⠀Assim, o autor “passeia” entre ficção, memória e história na confecção de uma obra que pode ser muito esclarecedora em relação aos acontecimentos que levaram à Unificação italiana, pois não se detém simplesmente na historiografia consagrada pelos manuais, uma vez que insere o ponto de vista de quem viveu esta história, parte por meio das memórias do avô, Carlo Marin, para o argumento e as considerações sobre os acontecimentos históricos não vividos por ele, e parte por sua participação ativa nos eventos relatados.


⠀⠀⠀Ao mesmo tempo em que Nievo tece esse fascinante jogo memorialista entre “passado do futuro” e “futuro do passado”, que de alguma forma representa o “tempo presente”, ele alinhava uma trama fictícia que conduz o romance, na qual a história dos encontros e desencontros entre Carlino e a Pisana desenvolve também historicamente, as relações sociais e os usos e costumes da época. Porém, a relação de Carlino e Pisana não se resume a um fio condutor romântico, é também a história da formação dos personagens, não apenas uma formação pessoal, mas uma formação como cidadãos úteis à sociedade em transformação da época. O romance histórico, memorialista, autobiográfico ganha então uma nova faceta, a do romance de formação, que vai além da premissa social de Goethe e do Bildungsroman, uma vez que percorre todo o arco da vida dos personagens, sempre inseridos na perspectiva histórica.


Referências


CALVINO, Italo. “Natureza e História no romance”. In Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

NIEVO, Ippolito. As confissões d’um italiano. Trad. Francisco Degani. São Paulo: Nova Alexandria, 2024.



Historical facts associated with the work

Start year End year Historical event
1831 1831 Abdicação de D. Pedro I
1831 1838 Período Regencial: Revoltas populares no Período Regencial
1833 1833 Criação da Companhia Dramática Nacional
1834 1834 D. Pedro I morre em Lisboa
1834 1834 Período Regencial: Revolta da Cabanagem, no Pará
1834 1834 Cultura: criação do Teatro Nacional
1835 1845 Período Regencial: Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul
1837 1837 Período Regencial: Revolta da Sabinada, na Bahia
1838 1838 Fundação do Instituto Histórico e Geográfico
1838 1838 Período Regencial: Revolta da Balaiada, no Maranhão
1840 1840 Golpe da Maioridade de D. Pedro II
1841 1841 El Salvador se constitui em república unitária e independente das outras repúblicas da América Central
1841 1841 Os governos de Buenos Aires e britânico firmam um tratado contra o tráfico de escravos
1842 1842 Revolução Liberal em São Paulo e Minas Gerais
1843 1843 Começa o estado de sítio de Montevidéu, com as tropas do Governo de Rosas
1844 1844 Segundo Reinado: D. Pedro II anistia os líderes da revolução de 1842
1845 1845 Morse inventa o telégrafo elétrico
1848 1848 Publicação do Manifesto Comunista
1848 1848 Rebelião Praieira em Pernambuco
1850 1850 Criação da província do Amazonas
1850 1850 Inauguração da linha de vapores do Rio de Janeiro para a Europa
1850 1850 A Lei Eusébio de Queiroz extingue o tráfico negreiro
1851 1852 Conflito: Guerra contra Rosas e Oribe
1852 1852 Conflito: Batalha de Monte Caseros (Argentina). General Urquiza derrota o presidente Rosas
1855 1855 Início da carreira literária de Machado de Assis
1857 1857 Cultura: Flaubert publica Madame Bovary
1857 1857 08/03 - ataque incendiário da polícia causa morte de 129 operárias americanas, na fábrica Cotton, em Nova York. Na data, foi instituído o Dia Internacional da Mulher.
1859 1859 Ciência: Darwin lança A Origem das Espécies
1861 1865 Guerra da Secessão nos Estados Unidos
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