Translation Data

Bella mia

Writer Donatella Di Pietrantonio (1962-...)
Translator Patricia Peterle (1974-...)
Classification Romance ou novela Tradução
Years

Year of publication: 2025

Other data
Edition
1
Language
Português
Dimensions
14x21 cm
Publication medium
Impresso
ISBN
9786550900465
Pages
198
Data about the translated originals
Source
  • Projeto Dicionário Bibliográfico da Literatura Italiana Traduzida
Reference PIETRANTONIO, Donatella Di. BELLA MIA. Trad. PETERLE, Patricia. Belo Horizonte, MG: Relicário Edições, 2025. 198 p.

Verbete sobre Bella mia By N.N. (Nome Desconhecido)

Traduzir o indizível da perda: Bella mia

Por Patricia Peterle

Dezembro/2025



⠀⠀⠀Uma história impactante que tira o fôlego do leitor, combinada com uma linguagem seca e essencial, são as primeiras coordenadas do romance Bella mia de Donatella Di Pietrantonio, premiada escritora italiana traduzida para várias línguas. Bella mia é o seu segundo romance, publicado em 2013, que agora chega por aqui. O que fazer quando a vida nos é arrebatada? O que fazer quando a vida singular e a coletiva são arrastadas para o olho do furacão que chega sem pedir licença? O que fazer quando a contingência e o desastre fazem com que uma pessoa passe de um dia para o outro a ter de ocupar o lugar de mãe? Um espaço que até então tinha sido descartado e outros caminhos tinham e estavam sendo trilhados? O que fazer? O que fazer diante do colapso e do indizível da perda? Bella mia é tudo isso e muito mais!


Está sentado no seu lugar com a cabeça cabeluda sobre o prato, o vapor da sopa dilata as espinhas e encurva os pelos longos e sutis que despontam sem projeto, na espera de se tornarem barba. [...] Evita os nossos olhos, sabe que estamos olhando para ele e que contamos as proteínas ingeridas e as que deixa no fundo.

Mastiga silêncio. (DI PIETRANTONIO, 2025, p. 9)


⠀⠀⠀Este é o primeiro parágrafo do livro. Já aqui temos uma pequena amostra do caráter duro da linguagem de Donatella Di Pientrantonio, sem adornos, que crava e finca a palavra: “mastiga silêncio”. O clima ao redor da mesa onde se fazem as refeições traz nas moléculas de ar as tensões que cada um ali presente carrega consigo. Feridas do passado e do presente, feridas físicas e não, feridas que se inscrevem no corpo como cicatrizes abertas e que seguem sendo constitutivas destes mesmos sujeitos. Medos e esperanças, riscos e apostas são também os fios sutis desta trama.

Caterina, irmã gêmea de Olivia, se vê, de um dia para o outro, diante do sobrinho Marco que necessita da sua presença. Caterina é a protagonista narradora que nunca demonstrou ter interesse pela maternidade e já tinha abandonado esta ideia. A irmã Olivia é uma das vítimas do terremoto que atingiu toda a cidade de Áquila, em 2009. Esta cidade vira de repente fantasmática e cheia, pois são agora os destroços das casas e a poeira que a habitam. O que se faz quando os pontos de referência são violentamente arrancados?

A família de Caterina é o centro deste romance: três mulheres (a nonna, as filhas gêmeas e Marco). De uma perspectiva, o que temos são os corpos daqueles que sobreviveram – restos de uma morte que não cessa de não se inscrver em resíduos e objetos – e o corpo da cidade, por sua vez, massacrado. Não há um caminho certo, uma receita, uma diretriz nesta tensa rede de relações, cada um deles terá seus embates para se reencontrar no pós-terremoto.

Bella mia traz uma epígrafe sintomática de Mariangela Gualtieri, uma vez que alude ao que se encontrará em suas páginas. Os versos foram retirados do livro Fuoco centrale [Fogo central] e colocam em cena a dificuldade de se identificar, trazendo a descrição de um corpo minúsculo e o sentido de “pequenez” que não deixa de aludir à protagonista Caterina: “Antes eu era muito / leve, pesava poucos / quilos. Antes havia / só três ou quatro / quilos / de mim, só poucos / quilos de mim, só poucos / quilos tinha o meu / nome.” ((DI PIETRANTONIO,, 2025, p. 7)

Donatella Di Pientrantonio traz em Bella mia um de seus grandes temas que é a maternidade. Neste romance, como ela mesma afirmou em algumas entrevistas, o interesse era explorar uma dimensão da maternidade em que uma pessoa se pode encontrar para além de suas intenções, desejos e vontades, imposições sociais.


⠀⠀⠀Não é meu filho. Marco e eu não nos pertencemos. E se uma gêmea tivesse de morrer, não quis ser eu a testemunha. A loteria do terremoto extraiu casualmente e os separou, Olivia e a sua criatura. Salvou a mim, e às vezes sinto saudades do fim que me foi negado. Não sou mãe, ele não é fruto deste ventre magro. É outro, nascido de uma outra quase igual a mim. Eu não o amo, frequentemente não o amo, quando volto para casa e cheiro sua presença, sinto logo um incômodo no estômago e depois caio sob os disparos de seus olhos. Me assusta, como a enormidade da minha tarefa. Deveria ser sua mãe reserva. Sou, ao contrário, a suplente com a primeira nomeação incapaz de enfrentar a classe turbulenta.

Nenhuma ajuda de Olivia. Não chovem sinais do seu irredutível outro lugar. Fica separada, não lança uma voz neste mundo aquém de vivos abandonados. Perdemos o contato, e ela, a magia. (DI PIETRANTONIO,, 2025, p. 109)


⠀⠀⠀É justamente essa a situação em que se encontra Caterina diante de seu sobrinho Marco, que já é um adolescente. Caterina não vive somente o luto – difícil de aceitar para ela – diante da perda de Olivia, mas precisa lidar com a nova reconfiguração que a morte impõe. Como uma mulher que sempre se sentiu incapaz de cuidar de uma outra pessoa, talvez inclusive dela mesma, consegue tirar de dentro de si forças para lidar com o real que bate à sua porta? Como ocupar o lugar de mãe não se sentindo apta para tal? Ou melhor, recusando este mesmo papel? Talvez aqui tenhamos outra discussão, apontada também por Adriana Cavarero, o fato de a palavra “mulher” evocar por si só a ideia de um destino dentro de um preciso sistema de expectativas, que podem se apresentar com inúmeros disfarces. E ao lado deste aspecto, é possível ainda colocar a relação mãe/filha, entre a nonna e Caterina e, se quisermos, o fio pode ser estendido aos outros personagens que vão aparecendo ao redor deste núcleo central.

Como gerações diferentes respondem e lidam com a dor? A nonna se mostra mais habituada a enfrentar a dor, com sua “casca-dura” mostra uma capacidade de se defender por meio da fé e tenta viver com o devastante luto que é a perda de uma filha. Marco desabafa sua imensa dor num comportamento rebelde, numa espontaneidade violenta, e é o primeiro personagem que aparece no livro. É ele que possui as espinhas, que evita o encontro dos olhos da nonna e da tia, que não tem apetite. É ele, enfim, que “mastiga silêncio”. Silêncio que pode estar para a dor, para o vazio, para as incertezas trazidas por uma situação deste porte, para as infindáveis dúvidas, para a raiva inevitável diante de um mundo que tira o que se ama. O que acontece quando se perde o que se ama? Esta é uma das perguntas que movem os personagens deste romance.

⠀⠀⠀O corpo diante do trauma fala e se expõe. A protagonista de Bella mia, depois do terremoto, depois de ver o corpo da irmã sendo levado, chega a perder o ciclo menstrual. Os ciclos menstruais das irmãs eram síncronos, como algumas outras sensações, mas desde que Olivia se foi, Caterina diz que nem uma gota de sangue saiu do seu útero. Quais as vias, se há uma possível, para se reconstruir? Caterina é uma ceramista, e seu ateliê terá um papel importante nessa experiência, pois é lá, mexendo na massa do barro, que ela dá vida a duas estátuas gêmeas: “No último momento, escavo com um só golpe da esteca de madeira o grito incessante da boca que eu tinha deixado fechada. Agora está pronta para o forno. [...] O grito é de Olivia. Pensava que fosse meu, mas agora que terminei a mulher, se parece mais com ela”. E, enfim,Coloquei as gêmeas na janela, fechada, para olhar também a parte de trás delas”. (DI PIETRANTONIO,, 2025, p. 180)

⠀⠀⠀Este é o segundo romance de literatura italiana publicado pela Relicário. O primeiro foi Briha como vida de Maria Grazia Calandrone, que também abordava o tema da maternidade, mas a partir de outra perspectiva e de um caso real que tinha ganhado as páginas dos jornais. A partilha de experiências certamente diferentes é um dos elos entre esses dois romances: o abandono de uma criança num parque romano e o terremoto que abala e arrasa a vida dos habitantes de uma cidade. Traduzir Donatella di Pientrantonio foi uma experiência de imersão na sua linguagem literária que é muito singular, a energia que ela coloca em cada palavra é impressionante. Uma leitura que escorre, tem seu próprio fluxo, mas que é marcada por certas escolhas, como sublinhou Walter Siti, as palavras de Donatella di Pietrantonio “têm músculos”. Fico feliz por este livro ter saído por uma editora tão especial para mim como a Relicário, que tem um cuidado único com o processo de produção do livro. Registro, por fim, um agradecimento a toda a equipe da editora e, sobretudo, a Thiago Landi, pela atenção, pela paciência e pelas dicas e sugestões tão preciosas na revisão final do texto. 


Referências

DI PIETRANTONIO, Donatella. Bella mia. Trad. Patricia Peterle. Belo Horizonte: Relicário, 2025.


Historical facts associated with the work

Start year End year Historical event
1963 1963 Começa na Alemanha o Julgamento de Auschwitz
1963 1963 Criação do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE)
1963 1963 Movimento de Educação de Base
1963 1963 Plebiscito: revogação do Parlamentarismo
1964 1964 02/02 - A sonda norte-americana Ranger VI chega à Lua.
1964 1964 A televisão começa a liderar os meios de comunicação de massa
1965 1965 A espaçonave Venera 3, lançada pela União Soviética, torna-se a primeira a aterrissar em outro planeta
1965 1965 Guerra do Vietnã, contra os EUA
1966 1966 AI n°2 - Extinção dos partidos e instituição da Arena e MDB
1967 1967 URSS, Estados Unidos e Grã Bretanha firmam acordo em Moscou sobre o uso pacífico do espaço
1967 1976 Golpe Militera na Argentina
1967 1967 Surgimento do Tropicalismo
1968 1968 Conflito entre estudantes da USP e do Mackenzie (SP)
1968 1968 A sonda espacial americana Surveyor 7 chega à superfície lunar. O primeiro homem pisaria na Lua no ano seguinte
1968 1968 AI n°5
1968 1968 expansão do Tropicalismo
1968 1968 Criação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil
1968 1969 Governo Costa e Silva
1969 1969 O estudante Jan Palach coloca fogo em si mesmo e morre na praça Wenzel, de Praga, em protesto pela ocupação soviética na Checoslováquia e a abolição das liberdades individuais
1969 1969 Chegada do homem à Lua
1969 1974 Governo Médici
1970 1970 Início da construção da Transamazônica
1972 1972 04/02 - A sonda dos EUA Mariner IX transmite fotos de Marte
1973 1973 Golpe Militar no Chile - morte do presidente Salvador Allende
1973 1973 Guerra do Vietnã: Vietnã do Norte e Estados Unidos firmam em Paris um tratado para o fim da guerra do Vietnã
1974 1979 Governo Geisel
1975 1975 Escândalo de Watergate (EUA)
1975 1975 Política: Margaret Thatcher é eleita presidenta do Partido Conservador Britânico
1975 1975 Morte do jornalista Wladimir Herzog
1976 1976 Independência de Angola
1976 1976 Eclosão dos movimentos pela emancipação da mulher
1977 1977 Revogação do AI nº5
1977 1977 Política: referéndum no Paraguai, que ratifica como presidente vitalício o general Stroessner
1978 1978 Organização dos Sindicatos dos Metalúrgicos em SP
1978 1978 China anuncia o fim de 10 anos de proibição da leitura de 70 renomados escritores internacionais como Platão, Charles Dickens, William Shakespeare e Victor Hugo
1979 1979 Revolução Sandinista na Nicarágua
1979 1979 Revogação do AI nº 5 - Lei da Anistia
1979 1979 Extinção da Arena e do MDB e criação de novos partidos
1980 1980 Cultura: o musical Calabar, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, e o filme Z, do diretor grego Costa-Gravas, são liberados pela Censura Federal depois de terem sido proibidos em 1973
1980 1980 Greve operária no ABC paulista
1981 1981 explosão da bomba do Riocentro
1982 1982 Guerra das Malvinas
1986 1986 Espaço: a espaçonave Challenger explodiu 73 segundos após ter sido lançada. O acidente matou seis astronautas e a professora Christa McAuliffe, primeira civil a participar de um programa espacial
1988 1988 Os Estados Unidos aceitam a imigração de 30 mil crianças que ficaram órfãs devido à crise pós-Guerra do Vietnã
1989 1989 Conflito: 30 mil soldados soviéticos abandonam o Afeganistão, dominado pelo regime Talebã
1990 1990 Política: a Lituânia torna-se a primeira república a se separar da União Soviética, que só reconhece a independência do país báltico em 1991
1990 1990 Política: a Romênia é a primeira nação da Europa Oriental a banir o Partido Comunista no país
1990 1990 Ciência: os astronautas da Discovery colocam em órbita o telescópio Hubble
1991 1991 Conflito: Forças aliadas, lideradas pelos Estados Unidos, iniciam uma ofensiva militar contra o Iraque, dando início à Guerra do Golfo
1992 1992 Conflito: o Japão pede perdão a milhares de mulheres coreanas que foram utilizadas como escravas sexuais durante a Segunda Guerra Mundial
1993 1993 Acordo em Paris para a proibição de armas químicas
1993 1993 Economia: Entra em vigor um acordo que prevê uma zona de livre comércio entre Equador e Venezuela
1993 1993 Política: Slobodan Milosevic ocupa o cargo de presidente da Sérvia à frente do novo Parlamento, após vencer as eleições
1994 1994 Religião: a Igreja Anglicana (Inglaterra) ordena suas primeiras pastoras
1994 1994 Política: conselho Nacional Africano, de Nelson Mandela, ganha as primeiras eleições multirraciais da África do Sul com 62,6% dos votos, contra 20,4% do governante do Partido Nacional
1995 1995 Economia: o FMI aprova um empréstimo de US$ 17,8 bilhões para o México, sem precedentes na história
1996 1996 Política: Fidel Castro visita o Papa João Paulo II no Vaticano
1997 1997 Política: entra em vigor o Acordo Internacional sobre Proibição de Armas Químicas. Rússia e Cuba não assinam
1998 1998 Ciência: dezenove países europeus firmam em Paris, o protocolo do Conselho da Europa que proíbe a clonagem de seres humanos
1999 1999 Política: inaugurada em Rambouillet, na França, a conferência de paz sobre Kosovo
1999 1999 Política: o ex-tenente-coronel Hugo Chávez, líder de um fracassado golpe de Estado em 1992, jura seu cargo como presidente da Venezuela
2000 2000 Política: Augusto Pinochet retorna ao Chile como um homem livre, 16 meses depois de ter sido detido no Reino Unido por crimes cometidos durante seu governo
2000 2000 Religião: João Paulo II pede perdão pelos pecados da Igreja Católica
2001 2001 Conflito: a milícia Talebã do Afeganistão explode a cabeça da maior estátua de Buda do mundo
2001 2001 Conflito: em 11 de setembro, um atentado terrorista derruba as duas torres do World Trade Center, em Nova York, e destrói parcialmente o prédio do Pentágono, em Washington (EUA)
2001 2001 Conflito: o então presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic foi preso, acusado de crimes de guerra e contra a humanidade nos conflitos que envolveram a Bósnia, a Sérvia e Kosovo
2004 2004 Ciência: Cientistas da NASA anunciam que a superfície de Marte já teve grandes quantidades de água
2004 2004 Conflito: em 11/03, uma série de explosões em três estações de trem de Madrid (Espanha) mata 199 pessoas e deixa mais de 1,4 mil feridos
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